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João Rodrigues

João Rodrigues

Presidente Comissão Atletas Olímpicos

A carta do atleta (porque ler um decreto-lei não constitui um dos passatempos preferidos deste velejador olímpico)

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve João Rodrigues, presidente da Comissão de Atletas Olímpicos e velejador olímpico, participante em sete edições dos Jogos, escreve sobre a importância da nova carta do atleta

João Rodrigues

Cameron Spencer

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Tal como em qualquer outra atividade profissional, os atletas têm de lidar diariamente com uma panóplia de informação que, no fundo, rege a sua carreira. Desde toda a legislação que compõe o edifício do Alto Rendimento e do Projeto Olímpico, passando por questões relacionadas com os seguros desportivos, direitos de imagem, regulamentos antidopagem, até fatores que importa conhecer desde muito cedo, tais como aqueles que abrangem a proteção social ou o pós-carreira desportiva, os atletas devem dominar todos estes aspetos, que embora não influam diretamente na sua performance desportiva, podem ter um enorme impacto de forma indireta, seja positiva ou negativamente.

Durante a minha carreira desportiva, não foram poucas as vezes em que me vi confrontado com situações desagradáveis, muitas das quais, reconheço e confesso, por desconhecimento de algum detalhe inerente a todo aquele volume de informação que importava digerir, dissecar e verificar detalhadamente. Sem que tal sirva de desculpa, o facto é que, não só a informação se encontrava dispersa, como se apresentava invariavelmente com uma densidade pouco convidativa. Ler um decreto-lei não constitui um dos meus passatempos preferidos. Filtrar o que lá está plasmado, menos ainda.

Tendo conhecimento desta realidade, sucessivas Comissões de Atletas Olímpicos, ao longo de vários ciclos Olímpicos, endereçaram esforços no sentido de criar um documento único, que congregasse toda esta informação, disponibilizando-a aos atletas de uma forma clara, concisa, mas também sistematizada. Pretendeu-se desde o primeiro momento que esse documento fosse escrito numa linguagem facilmente compreensível para qualquer pessoa, independentemente de ter formação desportiva.

Eu bem sei que o leitor poderá, depois de alguma reflexão, pensar que os atletas deveriam ser pessoas mais responsáveis, pelo que a desculpa de que há uma certa complexidade inerente à estrutura jurídica que sustenta o movimento desportivo, na verdade, não é justificável. Muitas outras atividades têm fatores bem mais difíceis de digerir. E é verdade. Mas, e falo por mim, obviamente, aparentemente não tive essa capacidade. Tenho sempre o álibi de ter passado demasiadas horas no mar, no que resultou numa certa diluição do sentido de responsabilidade. Mas também se compreenderá que, vivendo na Pérola do Atlântico, com um mar daqueles, ninguém resistiria a tirar o maior proveito possível daquele paraíso.

João Rodrigues participou em sete edições dos Jogos Olímpicos

João Rodrigues participou em sete edições dos Jogos Olímpicos

Clive Mason

Quis o destino que se conjugassem neste ciclo Olímpico vários fatores, resultando na materialização desta velha aspiração da Comissão de Atletas Olímpicos. Por outro lado, o Comité Olímpico de Portugal fomentou o ambiente propício a esta realização. E assim nasceu esta obra. Quase cem páginas de um documento que se quer vivo e em constante evolução, pois também é assim o movimento desportivo. Construído por atletas, para atletas, mas com um inestimável contributo de tantas pessoas, seja no passado ou neste ciclo, espera-se que a Carta do Atleta venha a constituir um suporte para aqueles, facilitando-lhes a vida.

Nos meus tempos de velejador, um documento destes ter-me-ia simplificado a vida. Aquelas irritantes vezes em que me apercebi, num hospital qualquer, por esse mundo fora, que afinal o meu seguro desportivo não estava ativo, ou que todos os dias do ano tinha mesmo de indicar uma hora e local para estar disponível para controlo antidoping, ou ainda que, mesmo estando inserido no Projeto Olímpico, não estava no Registo de Atletas de Alto Rendimento, poderiam ter sido evitadas com uma rápida leitura à Carta do Atleta, no respectivo capítulo. Não podendo voltar atrás no tempo, restou-me contribuir - embora aqui, esse contributo tenha sido muito residual - para que outros atletas tão distraídos como eu tivessem aqui um auxiliador de memória.

A Carta do Atleta foi pensada para os atletas. Mas todos aqueles que se interessam pelo fenómeno desportivo, têm aqui uma forma de apreender tudo o que gira em torno daqueles. E, eventualmente, ficarão com uma noção da realidade um pouco mais alicerçada em factos reais. Por outro lado, como referi anteriormente, este é um documento em constante construção, pelo que o contributo de todos é importante, sejam eles atletas, agentes desportivos, encarregados de educação ou tutores.