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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Faltam oito finais até ao final da época e Duarte Gomes tem uma mensagem importante para todos os envolvidos: 15 premissas da arbitragem

O ex-árbitro Duarte Gomes escreve sobre a reta final da Liga NOS, que promete muitas emoções - mas também precisa de muito respeito entre todos

Duarte Gomes

Gualter Fatia

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Faltam oito. Oito finais até ao final da época. Os jogos da Primeira Liga estão ao rubro, com tudo para decidir: ainda não se sabe quem será o campeão e aquele que irá às eliminatórias da Champions League, nem se sabe quais as equipas que se qualificarão para as competições europeias ou as que serão despromovidas.

Talvez por isso seja sensato recordar a todos os agentes desportivos, adeptos e elementos da comunicação social algumas das premissas que norteiam o trabalho, a ética e a conduta de um dos agentes mais preponderantes do jogo: os árbitros de futebol.

1. Para que não restem dúvidas sobre o paradigma geral que suporta tudo isto, convém recordar que todos os jogos precisam - além de uma bola em condições e de onze jogadores de cada lado (na verdade, podem ser sete) -, de uma equipa de arbitragem. Sem essa, não há espetáculo, não há emoção, não há vencedor nem vencido. Nunca, em momento algum.

2. Nesse sentido e tal como acontece com os atletas e técnicos, importa recordar que também os árbitros entram em campo para fazer o seu melhor. E, neste contexto, "fazer o melhor" é tentar dirigir o jogo da forma mais competente e uniforme possível, em obediência às regras definidas e às recomendações que têm para cada época.

3. Em nenhum momento, os árbitros de futebol profissional irão insultar ou ofender jogadores ou rodeá-los de forma ameaçadora, pelo simples facto de não concordarem com os seus passes, lapsos ou decisões. Também não irão, no final da partida, dirigir-se a eles com ar revoltado e inquisitório, proferindo comentários pouco abonatórios sobre a forma como atuaram ou definiram as suas opções. Têm noção que cada agente do jogo tem um papel a cumprir e o seu não é, de todo, aquele.

4. De acordo com o princípio anterior, é também certo que nenhum elemento da equipa de arbitragem irá ofender, insultar ou ameaçar outros intervenientes devido às opções que tomaram dentro das quatro linhas. Essa premissa aplica-se para "pedidos de satisfação" dentro do relvado (capazes de inflamar o ambiente), no túnel ou junto à zona de acesso aos balneários. Pontapés em portas, gritos em histeria com decibéis bem elevados ou subida folclórica à zona dos camarotes também estão fora de equação. Naturalmente.

5. É certo e garantido que nenhum árbitro irá arremessar isqueiros, moedas, canetas, bolas de golfe, bolas de snooker, garrafas de água, guarda-chuvas, latas de cerveja, artifícios pirotécnicos ou baterias de telemóvel na direção dos adeptos. Isso aplica-se em todos os momentos do jogo, mesmo naqueles em que ele perceba, claramente, que eles falharam no cumprimento da missão que lhes estava confiada enquanto parte integrante do espetáculo.

6. Por terem a noção que poderiam condicionar comportamentos e potencialmente adulterar a forma de atuar de jogadores e equipas, nenhum árbitro escreverá previamente nota de imprensa, tweet, post ou comentário relativamente ao comportamento que espera dos restantes agentes do jogo. Essa seria uma conduta condenável, ainda que mascarada de um bem intencionado.apelo a um jogo sem cartões, faltas ou picardias entre atletas. Tal como as outras partes envolvidas, também os árbitros sabem bem qual o seu lugar e o que devem fazer dentro das quatro linhas. E não é garantidamente nada daquilo.

7. À semelhança do que acontece com os jogadores, técnicos e dirigentes, os árbitros têm competências e qualidades técnicas distintas. Uns são mais experientes e capazes do que outros. Uns são, na verdade, melhores do que outros. A grande diferença é que o plantel que está à disposição do Conselho de Arbitragem (uma espécie de equipa técnica dos homens do apito) não pode ser dispensado ou reforçado durante a época. O quadro é sempre o mesmo, os árbitros - nomeados, sorteados ou rifados - também.

8. Ainda assim, importa recordar que um árbitro só chega ao escalão máximo quando passa por dezenas e dezenas de testes fisicos, escritos e psicotécnicos e arbitra muitas centenas de jogos em patamares inferiores. A soma das suas avaliações e das notas que obteve nas partidas que dirigiu, permitirá a ascenção à Primeira Liga. O seu percurso pode equipar-se, por exemplo, ao de um jovem jogador que começa nos escalões infantis até se estrear na equipa sénior (principal): chegam depois de vários anos de competição, mais preparados do que estavam quando começaram mas, como o salto aí é demasiado vertiginoso, acabam por revelar-se inexperientes na "alta roda". Ambos precisam de adaptação, de acompanhamento e tolerância. Ambos precisam de apoio, não de crítica constante e de humilhação. A falta de confiança é um obstáculo sério à sua progressão numa fase tão delicada das suas carreiras.

9. É, por isso, certo que os árbitros são os agentes desportivos que passam pelo processo de seleção/qualificação mais demorado e exigente. Depois deles vêm os treinadores (que têm de ter o nível adequado para atingir o degrau maior) e os jogadores (pelo percurso que quase todos fazem na formação). Os dirigentes são os únicos intervenientes que não necessitam de passar por qualquer processo avaliativo/formativo para se candidatarem a cargos de responsabilidade nos respetivos clubes.

10. Nenhum árbitro entra em campo com o intuito de prejudicar uma equipa para beneficiar outra. Nenhum árbitro quer errar deliberadamente ou atuar de má-fé. Esse é o princípio básico e fundamental. O princípio sagrado. Se algum o fizer de forma premeditada/ostensiva, deve ser imediatamente afastado de toda e qualquer atividade desportiva e responder por todos os seus atos perante as instâncias competentes (da forma mais exemplar possível).

Duarte Gomes, ex-árbitro português

Duarte Gomes, ex-árbitro português

David Davies - PA Images

11. Tal como acontece com qualquer outro interveniente - e com qualquer pessoa, em qualquer sector de atividade - nenhum árbitro consegue desempenhar a sua função com tranquilidade, liberdade e compromisso se estiver permanentemente sobre pressão. Se a sua integridade estiver a ser posta em causa a toda a hora, se a sua competência for alvo de chacota, se o seu nome for usado para chalaças e trocadilhos mal intencionados, se os seus trabalhos anteriores forem recordados com desdém e repúdio. Os árbitros têm uma missão espinhosa, ingrata e demasiado exposta. Quanto maior for o ruído nefasto em torno do que fazem, pior será a sua resposta em campo. Seguramente. Garantidamente.

12. Tal como qualquer jogador, treinador, dirigente ou jornalista, os árbitros já eram gente antes de serem profissionais. Gente que assimilou influências, que formou ideias, que criou gostos e preferências. Mas quando entram em campo, estão focados em fazer um trabalho neutral, sério e equidistante. Isso significa que o clube que o árbitro simpatiza, o partido político em que vota ou os ideais religiosos que defende não entram dentro das quatro linhas. Nunca em tempo algum. Pensar o contrário é primitivo. É pré-histórico. É malicioso.

13. Os árbitros têm que aplicar, em campo, dezassete regras que são, na sua essência, profundamente subjetivas. Essa realidade - colada ao facto do futebol ser um espetáculo emotivo e altamente mediatizado - coloca-os numa posição de enorme fragilidade profissional e pessoal. Devem ser defendidos, não dos erros técnicos que comprovadamente cometam (a crítica é fundamental para a sua melhoria e não devem estar imunes às consequências das suas más arbitragens), mas de qualquer excesso que ponha em causa a sua integridade e seriedade. O seu bom nome e a sua boa fé. Há uma linha que separa o desagrado da falta de respeito. O direito à opinião da tentativa de assassinato de caráter.

14. Os árbitros não têm adeptos, não têm claque e não dão autógrafos. A arbitragem é, muito provavelmente, a única "profissão" do mundo em que alguém é ladrão ou corrupto antes de mesmo de começar a trabalhar. Antes de desempenhar a sua função. Por vezes, basta que seja nomeado. Basta que chegue ao estádio duas horas antes do início da partida. Basta entrar no relvado para os exercícios de aquecimento. Por força dessa conotação negativa, os árbitros tiveram que adaptar-se. Hoje vivem uma espécie de "liberdade amordaçada", sobretudo quando estão em família. Isso devia ser "punição" suficiente pela opção, corajosa e elogiável, de escolheram essa carreira. Não deviam ter que se sujeitar ainda à coação, à pressão e tentativa de condicionamento, à ofensa ou ameaça sistemáticas. Constantes.

15. Os árbitros são os eternos suspeitos de serem corrompidos, de receberem compensações para adulterar resultados, de serem manipuláveis. Talvez por isso são os únicos agentes desportivos obrigados, por lei, a entregar uma declaração anual de rendimentos (que só será consultada em caso de grave ilícito disciplinar), onde constam todos os seus rendimentos, depósitos e aplicações, património familiar, bens, etc.

É como se fosse a própria lei - supostamente geral, supostamente constitucional - a dizer: "Nós só desconfiamos da vossa seriedade, não da seriedade dos treinadores e restantes elementos técnicos, diretores desportivos, dirigentes, jogadores, roupeiros, médicos, fisioterapeutas e afins".

Além desse imperativo (cuja parcialidade e ilegalidade nem merecem comentários), o que de mais importante resulta daí é que a vida de cada árbitro é, na verdade, um livro aberto. Nada a esconder. Consulta de contas, de declarações recentes e passadas à Segurança Social ou Finanças, sinais exteriores de riqueza, movimentos estranhos, situações anómalas, viagens incomportáveis, enfim... em caso de dúvida, é só consultar e confirmar.

Tudo dito, tudo às claras deste lado.

Façam o favor de fazer a vossa parte (tão bem como sabem) e deixem que os árbitros façam a deles (tão bem quanto podem e sabem).

A reta final do campeonato tem tudo para ser espetacular. Só falta mesmo... ser.