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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

De remate em remate, Bruno Fernandes vai colocando o Sporting num patamar que não é condizente com o que a equipa apresenta em campo

O treinador Blessing Lumueno analisa o dérbi que colocou o Sporting na final da Taça de Portugal, graças a um golo de Bruno Fernandes, num jogo que acabou por ser taticamente algo pobre

Blessing Lumueno

Gualter Fatia

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Durante o dia de ontem, na antevisão do dérbi, divertia-me a olhar para as graçolas no Twitter sobre o jogo. Houve uma que me ficou na retina. Dizia que as esperanças dos adeptos Sporting para resolver o jogo eram: o pé direito do Bruno Fernandes, o pé esquerdo do Bruno Fernandes, a cabeça do Bruno Fernandes, etc, etc, etc.

E assim foi!

Do ponto de vista ofensivo, as unidades do Sporting e do Benfica não têm comparação, com clara vantagem para a equipa de Bruno Lage. E ainda que não se tenha notado tanto no jogo, no Sporting há Bruno Fernandes e no Benfica há uma data de jogadores suplentes ou não convocados que seriam preponderantes para a equipa de Keizer.

Foram raros os momentos no jogo em que as equipas conseguiram sobrepor-se em organização ofensiva, ficando as grandes situações (ou as de maior potencial) reservadas aos contra-ataques. Como nem Sporting, nem Benfica, conseguiram impor com critério dinâmicas ofensivas para chegar à área, o jogo foi pobre.

Do ponto de vista tático, poder-se-á dizer que as organizações defensivas foram fantásticas, que os treinadores trabalharam muito bem a pressão e a forma de anular os adversários, que se protegeram bem da profundidade, e que levaram os adversários para zonas que lhes interessava. Quando o jogo é aborrecido, como o foi o caso do de ontem, é normalmente o que se diz: que tacticamente foi muito rico.

Mas não foi!

Não só por a tática não se esgotar no momento defensivo, mas sobretudo porque nenhuma das equipas fez por expor as organizações defensivas e as estratégias do adversário. Jogou-se muito mal, com bola, e a falta de critério ficou bem demonstrada na forma como se definiram alguns lances de espaço (de contra-ataque).

Quando os jogadores conquistam o espaço, normalmente, a tendência é para se precipitarem e acelerarem a sua decisão, isto tão só porque não estão habituados a pensar no jogo como uma brincadeira entre o espaço e tempo. Não, isto ainda não é sobre física. Mas, se os jogadores estivessem habituados a interpretar o jogo dessa forma, saberiam que quando conquistam o espaço, a vantagem espacial, o que ganham é precisamente tempo para que possam decidir melhor. Nunca ouviram falar em contra-ataques lentos? É disso que falo: temporização (sobretudo mental) para definir melhor o lance. Por exemplo:

- Quando Bruno Fernandes ainda na primeira parte procura Raphinha e este acaba por rematar contra um defesa, tinha conquistado espaço para atacar e tempo para perceber que os defesas os defesas do Benfica recuavam a fechar Raphinha e Luiz Phellype, abrindo o espaço de remate para que ele pudesse usar do seu melhor atributo. Numa situação de “3x2+Gr”, o ideal é atacar um dos defesas, fixá-lo, e deixar um colega na cara do guarda-redes… mas só se os defesas permitirem. Isto é, numa situação de 3x2+Gr, o ideal é finalizar sem oposição e para tal, tendo em conta a ação dos defesas, deveria ter sido o Bruno a seguir em direcção à baliza e a rematar;

- Quando Rafa ultrapassou o primeiro adversário, rodando, depois de uma recuperação de bola da equipa encarnada, ganhou espaço, e com o espaço ganhou tempo. Tinha uma potencial situação de 3x2+Gr para explorar, se tivesse conduzido a bola, como tão bem faz em velocidade quando tem espaço, em vez de soltar logo o passe. Como soltou, como não temporizou antes de decidir, não permitiu a Seferovic receber sem a oposição do central, e com isso condicionou um lance que poderia ter tido um desfecho diferente da bola difícil que João Félix teve para finalizar ao segundo poste.

Em ataque organizado, as duas equipas foram atrás dos cruzamentos e da construção e criação pelos corredores laterais. O Sporting de forma mais direta e simplista, com os lances a começarem e a acabarem no mesmo corredor. O Benfica com os movimentos habituais dos avançados para fora e os alas a cair para dentro, mas a redundarem na mesma forma de entrada na área que a do Sporting.

Claro que, com alguns movimentos de profundidade pelo meio, mas sempre sem grandes condições para definir. As duas equipas não quiseram trabalhar os lances, preparar os ataques, de forma a facilitarem a ação de quem finaliza, e por isso os defesas saíram felizes com a quantidade de lances que atacaram na área sempre em vantagem.

Não é um problema com os cruzamentos, que são um meio importante para criar situações de finalização; é a forma despreocupada com as equipas colocam bolas à fio na área sem que estejam criadas as condições mínimas de vantagem numérica ou espacial, ou sem que se coloque a defesa em dificuldade pela forma como a bola é colocada. Recordam-se do lance do golo do Seferovic ao Tondela?

Cruzamento, não é?! Mas, as condições na área eram de vantagem para Seferovic finalizar. Tinha os dois centrais fixos na baliza, e estava escondido no espaço à frente do lateral do lado contrário. Ontem, em Alvalade, poderia ter feito um golo, no final, com o mesmo princípio deste. Apareceu entre Borja e Mathieu e, depois de um passe de Gedson, poderia ter finalizado. Se as equipas tivessem a preocupação de procurar situações de vantagem na área antes de efectuar o cruzamento, ainda que mais difíceis de finalizar, haveria uma percentagem bem superior de golos vindos deste tipo de situação do que as que acontecem de momento.

Por isso, João Félix perde fulgor. Porque os movimentos coletivos não lhe permitem ter a liberdade que tinha para aparecer entre linhas inicialmente, e decidir os movimentos em função das necessidades da equipa. Com Bruno Lage a pedir constantemente as trocas com os alas, o miúdo parte sempre de uma posição demasiado exterior para que possa ter impacto. João Félix tem desaparecido à medida que a equipa se aproxima mais do que o treinador quer. Também, nos gestos técnicos, Félix não tem caprichado tanto. E quando não capricha nos pormenores deixa de ser o jogador fabuloso que já nos mostrou que pode ser.

Se não fosse Pizzi, e Grimaldo, o Benfica não teria tido critério algum. Grimaldo é o que permite o jogo interior do Benfica, e Pizzi mostrou logo no início da segunda parte para que serve travar, mesmo que em contra-ataque: ganhou tempo, espaço e discernimento para perceber a desmarcação de Seferovic (que é o avançado mais inteligente nos movimentos sem bola a jogar em Portugal) que acabou por falhar, isolado, pela dificuldade de finalizar com o pé direito. Svilar, a jogar com os pés, é fantástico.

No Sporting, o critério foi de Wendel, e de Bruno Fernandes, aos soluços. Wendel mostrou demasiadas vezes os caminhos que deveriam ser percorridos, mas o resto da equipa não o acompanha. Talvez o ajudasse também jogar com Francisco Geraldes. Dessa forma, também Bruno Fernandes sairia beneficiado, por não ser o único com responsabilidade na criação de jogo da equipa. Lembram-se como começou o lance do livre que o Bruno meteu na barra? O lance começa em Luiz Phellype, que recebe a bola direta de Renan e se antecipa a Fejsa, matando no peito. Wendel recebe, e depois de “passe e devolução” com Gudelj, coloca Bruno de frente para a linha defensiva. Ele sofre falta, e daí aparece uma situação que o Sporting tem condições para explorar mais vezes, assim o treinador o queira.

Bruno Fernandes tem sido o jogador mais decisivo em Portugal esta época. Acima de Chiquinho, pelo rendimento que tem apresentado em golos e assistências. E por estar numa equipa onde tem que construir, criar, finalizar, e ainda reagir à perda. É quase impossível que esteja em todo lado, mas olha-se para o Sporting e vê-se uma recuperação de bola de Bruno, um passe que isola um colega, e ainda a entrada em zonas de finalização. A qualidade com que executa, e sobretudo com que decide, não tem sido assombrosa; mas consegue aparecer sempre nos melhores momentos da equipa e os colegas estão quase todos convencidos a entregar-lhe todas as despesas do jogo. Com tudo o que tem que fazer, com o tudo o que cai sobre si, é natural que não esteja tão focado nos pormenores.

O golo de ontem foi superlativo!, apesar de ter sido algo consentido pelos comportamentos defensivos de Rafa, que desistiu do lance e não ofereceu cobertura a Grimaldo, e pelo defesa espanhol, que deu o espaço interior a Bruno com aquela proximidade da baliza. Temos que ter em conta que, naquela situação, Grimaldo queria eliminar o pé direito de Bruno. Afinal, não o tínhamos ainda visto usar o pé esquerdo com tamanha precisão e potência. A execução e a decisão que enganaram Grimaldo foram de um nível superior. Como se vê na repetição, a bola entra com tanta força e tão colocada que seria sempre difícil a Svilar chegar, a não ser que estivesse encostado ao poste, mas não nos podemos esquecer que há uma baliza inteira para defender.

Esta meia-final foi de Bruno Fernandes, que manteve o Sporting vivo na eliminatória na Luz e que, sozinho, qualificou o Sporting para a final.