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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Mister Mourinho, há sempre uma solução ofensiva para cada problema defensivo; o contrário não é verdade (uma reflexão sobre uma nova regra)

No Fórum do Treinador, José Mourinho lançou um desafio aos colegas: refletir sobre a nova regra dos pontapés de baliza, que entrará em vigor em 2019/20 e que permitirá a quem está a atacar sair a jogar dentro da área. O treinador Blessing Lumueno fez-lhe a vontade... mas chegou a uma conclusão bem diferente daquela que Mourinho tinha enunciado

Blessing Lumueno

Michael Regan

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"Com os sistemas defensivos cada vez mais bem montados diria que a cada modelo de jogo cada vez mais terão de corresponder diferentes sistemas táticos, principalmente nas fases de construção. Ou seja, num mesmo jogo vai ser cada vez mais necessário mudar de sistema tático para surpreender os adversários. Note-se como tudo vai mudando e, se me permite afetar o protocolo, porque não vem no programa deste Fórum, gostava de lançar um trabalho de casa para todos e até para mim: pensar nas implicações que terá a nova regra, já aprovada pelas mentes brilhantes do International Board, que diz que no pontapé de baliza a bola já não tem de sair da área, o que poderá permitir ao adversário pressionar dentro da própria área. Muita gente vai abdicar da fase de construção e apostar no jogo direto. Terá implicações profundas e que tenho visto pouco debatidas."
- José Mourinho

Atualmente, no pontapé de baliza e nos pontapés livres dentro da área de penálti (grande área), só se considera que a bola entra em jogo quando sai da área. Não é permitido que nenhum jogador, que não o marcador do livre ou do pontapé de baliza e o guarda-redes, esteja dentro da área no momento em que a bola vai ser jogada. Para além disso, nenhum jogador que defende pode tirar vantagem do espaço da área, no momento em que o livre ou o pontapé de baliza é marcado e a bola ainda não está considerada em jogo, para estar mais próximo do adversário e pressionar quando este recebe a bola.

Basicamente, nestas duas situações, a área não existe até a bola entrar em jogo/sair da área. Uma das alterações lançadas pelo Internacional Board, que vai ser utilizada em primeiro lugar na fase final da Taça das Nações e entrará em vigor em todo o mundo a partir de junho deste ano, afeta diretamente estas regras: a bola passa a ser considerada em jogo quando é chutada e se movimenta (como no pontapé de saída), e é complementada com a possibilidade de existirem jogadores da equipa atacante dentro da área nesse momento.

A saída de bola é um tema bastante controverso em Portugal por 90% dos agentes do jogo (treinadores, jogadores, funcionários dos clubes, adeptos e o público em geral) não acreditarem ser um momento fundamental para que a equipa tenha qualidade no seu processo de jogo. E a discussão que José Mourinho lança, apesar de importante, acaba por não ter o raio de ação que o treinador quer fazer transparecer, uma vez que os afetados pela regra serão muito poucos. Nem para o próprio José Mourinho a regra teria relevo, tendo em conta o futebol jogado pelas suas últimas equipas.

Johan Cruyff costumava dividir os treinadores em dois grupos: os corajosos e os outros. E relativamente ao momento de saída de bola - de como é que a alteração promovida vai afetar o jogo - a forma binária de olhar para as implicações parece-me perfeita: há poucos que vão ser afetados pela regra, e há os outros. Aliás, o sintoma diagnosticado por Mourinho (pouca discussão que a regra tem lançado) é precisamente reflexo disso - são muito poucos os que pensam na forma como a regra vai afetar o momento de saída de bola das suas equipas por serem, também, poucos os que a utilizam como base fundamental para o seu jogo. Em comparação, será sempre esmagadora a percentagem de treinadores que já está a pensar em como tirar vantagem da regra no momento de pressão sobre aqueles estão a criar novos caminhos para sair a jogar. Afinal, é mais fácil trabalhar o processo defensivo do que o ofensivo e a esmagadora maioria dos agentes do jogo continua a ter pouca coragem.

Para quem não sai a jogar, e não trabalha para isso, não haverá qualquer mudança na saída de bola. Para os que vão saindo a jogar quando as condições são favoráveis também não haverá mudanças; vão continuar a sair a jogar quando for favorável e sempre que se sentirem apertados não vão sair a jogar. Não se vão sentir mais ou menos inibidos pela alteração da regra uma vez que a inibição já existia na forma de constrangimento, ou condicionalismo, por eles criado.

Para os que querem fazer da saída de bola parte fundamental do seu jogo, aqueles que tentam criar condições favoráveis quando não existem, há uma vantagem importantíssima: passa a ser possível desde o primeiro passe ter um jogador a receber a bola de frente para o jogo. Isto levará a que, mais facilmente e mais rapidamente, o jogador perceba a estrutura defensiva adversária e crie referências posicionais dos seus colegas que lhe vão permitir mais vezes encontrar boas soluções para sair a jogar. E os problemas que surgem desta nova dinâmica acabam por ter vantagens importantes para quem tenta criar espaço para atacar.

Se o adversário decidir pelo jogo de pares e pressionar de fora para dentro: o central, depois de receber, terá linhas diretas para jogar no pé do extremo ou do avançado, se a equipa estiver posicionada em conformidade para criar esses espaços. Depois de receberem, apertados nas costas, terão a possibilidade de tocar de frente para os médios que sabem atempadamente que estão ali como engodo e que nunca vão ser solução para o central, mas que vão receber um passe vindo dos avançados já de frente para o jogo.

Também pode dar-se o caso de o central decidir colocar a bola por cima para um dos avançados disputar o duelo e o colega desmarcar-se nas costas, tal é o espaço entre os elementos da última linha.

Também o guarda-redes pode ter logo como solução jogar nos três avançados, tendo em conta o espaço atrás da linha média assim como nas costas da defesa.

Com o movimento do 8, o 10 acompanha, fica ou divide o espaço? Se acompanhar há um espaço ainda maior entre sectores e entre jogadores do mesmo sector. Se ficar, liberta o 8 para receber e enquadrar. Se dividir o espaço, fecha um pouco os dois jogadores mas não desencoraja o suficiente o passe para o 9, por exemplo, ou mesmo para o próprio 8 que pode ter o corpo colocado para receber já enquadrado sem perder de vista a possibilidade de pressão.

Se a marcação for zonal, com os jogadores orientados para fechar os espaços entre si e a contenção orientada para fechar os passes para o lado contrário, haverá uma maior dificuldade em conseguir um passe direto para os avançados. Porém, há no lado contrário uma superioridade massiva em termos de número e de espaço. E se a variação for rápida, e os gestos técnicos tiverem qualidade, não dará tempo ao adversário para bascular e fechar uma aceleração em superioridade pelo corredor contrário, uma vez que a equipa toda terá que percorrer mais metros em sprint. Para tal, basta que o guarda-redes se aproxime rapidamente do central depois de lhe fazer o passe, e que receba a devolução do mesmo com a variação para o corredor contrário como grande objectivo.

Há alguns perigos do maior ímpeto e agressividade na pressão, mas esses perigos são altamente compensados pelo grande benefício que é ultrapassar essa primeira pressão. Basicamente, a equipa ficará com vantagem espacial, temporal e numérica, o jogador conduzirá o ataque sem oposição, com colegas bem colocados para atacar a profundidade e com muito espaço para explorar nas costas da defesa, e/ou entre defesas. Se a equipa conseguir ultrapassar essa primeira barreira, 70% do golo está feito.

Não creio que Mourinho seja o treinador ideal para comentar as facilidades ou dificuldades na saída de bola uma vez que as suas grandes preocupações, com esse aspecto do jogo, não vão muito além dos homens que se aproximavam e dos homens que iam no espaço depois de Diego Costa ou de Lukaku disputarem a primeira bola. As imagens colocadas são apenas formas simplistas de explanar o que se consegue com os movimentos, com as aproximações ou afastamentos, com a manutenção de uma estrutura fixa e com a mobilidade das peças certas. São alguns exemplos dos milhões que poderão acontecer.

Guardiola e Sarri, Setién ou Paulo Fonseca, esses sim, já nos mostraram por diversas vezes, colocando dois ou três jogadores a receber a bola dentro da área, como fazem para quebrar os ímpetos das equipas mais pressionantes que enfrentam. Mostraram que haverá SEMPRE uma forma de contornar os problemas que a pressão do adversário coloca e de encontrar as vantagens para sair a jogar de forma segura; já para defender, e uma vez que as dimensões do campo não sofreram alterações, deixaremos sempre espaços livres.