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Burnout: é urgente normalizar a adversidade presente no quotidiano

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre o fenómeno do burnout e explica como devemos encarar a adversidade

Ana Bispo Ramires

Mural na cidade russa de Saransk

FILIPPO MONTEFORTE / AFP / Getty Images

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No passado dia 28 de Março a revista "Visão" publicou uma extensa reportagem sobre o tema do burnout, claramente enriquecida por um conjunto de testemunhos de pessoas que focavam, não só as fontes de stress presentes na sua vida e contexto laboral, mas também as estratégias e estilos de vida que adotavam para poderem ter um quotidiano com normalidade, diminuindo o risco deste tipo de ocorrência, muito frequente em profissões de elevada responsabilidade e stress.

O tema do burnout e outros temas que tendam a envolver maior fragilidade emocional
merecem, claramente, o devido destaque – importa aumentar a consciência social sobre a
necessidade de identificar precocemente as primeiras manifestações do mesmo, para que se possa atuar com maior eficácia sobre as fontes que o possam estar a promover.

Importa, acima de tudo, AUMENTAR a CONSCIÊNCIA INDIVIDUAL de que a
ADVERSIDADE faz parte do dia-a-dia de cada um de nós e que, muito frequentemente, a
tentativa de “escolher” evitá-la precipita a entrada em quadros de esgotamento emocional - até porque, muito frequentemente a “terapia” escolhida passa pela ativação de “exercícios de adrenalina” (excesso de comida, excesso de redes sociais, entre outros “excessos”) onde se confunde “ativação” (uma mera resposta fisiológica do organismo) com “felicidade” (a resposta subjetiva de significado atribuída ao período de vida que estamos a viver).

A Adversidade enquanto ferramenta de inovação

Na cultura ocidental, a palavra “adversidade” transporta um “peso” que promove o
“encolhimento” de qualquer um, face à possibilidade da sua ocorrência. Quem, no seu juízo perfeito, escolheria um “caminho sinuoso” se pudesse escolher uma “linha reta” até ao seu propósito?

Em boa verdade, “linhas retas” não existem, ainda que se assista a uma enorme tendência das pessoas tentarem adivinhar uma “fórmula mágica” que permita saltitar de “estado de graça” em “estado de graça”, fintando as “adversidades da Vida” – infelizmente, e a título de mero exemplo, a frequência (sem sentido nem significado) de retiros atrás de retiros que se observa algumas pessoas adotarem como estilo de vida, acaba muitas vezes por se traduzir neste tipo de “fenómenos”, onde a “Vida” é o que se passa, de facto, entre retiros.

Somos, em larga medida, levados a “competir” por estados de felicidade que, aparentemente, deveriam ser ativados pela mera vontade.

Na cultura Oriental, e na Vida propriamente dita, a ADVERSIDADE assume-se como uma
enorme alavanca de auto-conhecimento, que permite reconhecer padrões (de pensamentos, emoções e comportamentos) que aproximam ou afastam o individuo do que o próprio entende ser o seu propósito de Vida (pelo menos, o que reconhece como tal no momento).

Permite, por isso, ajustamento, aguça curiosidade, obriga a encontrar soluções alternativas às inicialmente imaginadas – mobiliza a tentar, a errar, a tentar de novo e... a escolher desistir ou persistir – enfim, gera uma imensidade de informação acerca das nossas motivações mais óbvias e mais escondidas e dos recursos que possuímos ou necessitamos desenvolver.

O Poder da Disciplina

Há umas semanas, tendo sido convidada a comentar o desempenho de Cristiano
Ronaldo na SIC Noticias, face à “remontada” da Juventus face ao Atlético de Madrid na
Champions, tive a oportunidade de comentar: “CR é fruto de NECESSIDADE e DIREÇÃO” e a característica que mais o distingue não é, certamente, a sua “genialidade” (que muitos possuem) mas a sua infindável capacidade de trabalho, superação e disciplina (que poucos exibem, mesmo ao seu nível).

Em boa verdade, a sua ENORME DISCIPLINA e VONTADE de SUPERAR as
ADVERSIDADES são sua maior alavanca para o sucesso (na realidade, não só as considera parte do “caminho”, como aprendeu a ir buscar energia às mesmas!) – contudo, este não é um “argumento” que conquiste a atenção das pessoas, pois prefere-se ainda acreditar que “alguns” são especiais (fica sempre a possibilidade de cada um de nós o poder ser...).

O Impacto dos Testemunhos

Exemplos reais mostram a possibilidade do que pode acontecer quando se fazem
determinadas escolhas e, tal como a observação dos estilos de vida de performers de topo pode trazer este tipo de informação útil (como é o exemplo do atleta já referido), também pelo menos cinco dos testemunhos que surgiram na dita reportagem da Visão, evidenciaramuma mesma perspetiva:

Clara noção das exigências ambientais (contextuais), em termos de ser necessário produzir uma performance elevadíssima em paralelo com uma CONSCIÊNCIA igualmente CLARA de que as ADVERSIDADES fazem parte do CAMINHO – razão pela qual, importa planear vida pessoal e profissional, importa definir estratégias de regulação de energia e
repouso e/ou promover a aquisição de novas competências, tal como importa ser
disciplinado e focado no plano definido.

Dito assim, parece “pesado” embora não o seja porque acaba por ser integrado num estilo
de vida muito próprio, onde a Adversidade é vivida com normalidade e, até, alguma
desejabilidade - um estilo onde se ativam escolhas conscientes, um foco no retorno a
médio-longo prazo em termos do propósito e da qualidade de vida que se pretende alcançar, e uma consciência de que, a curto-prazo, as escolhas “mais fáceis” precisam, muitas vezes, ser evitadas.

Ou não fosse a Adversidade uma enorme fonte de inovação e recriação.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)