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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Digam-me, porque às vezes tenho medo de não conseguir cortar o cordão umbilical: acham mesmo que os árbitros estrangeiros são melhores?

O ex-árbitro Duarte Gomes escreve sobre as críticas aos árbitros nacionais e questiona se os estrangeiros serão mesmo melhores (viram o Liverpool-FC Porto?): "Queremos pôr pensos rápidos em tudo o que aparece, sem percebermos que a única solução racional é tentar descobrir qual é a causa da doença"

Duarte Gomes

Iker Casillas à conversa com o árbitro Mateu Lahoz, durante o Liverpool-FC Porto

Robbie Jay Barratt - AMA

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"Árbitros estrangeiros, ou melhor, árbitros que tenham nascido fora do território nacional. Não! Árbitros que tenham tirado o seu curso lá fora. Esperem, esperem!! Árbitros que façam jogos lá fora e que não vivam nem estejam habitualmente por cá. Assim é que é!"

É grande o título desta crónica, não é? Isso é porque é importante. Muito importante.

O assunto é atual e está em cima da mesa da opinião pública, por isso é justo trazê-lo hoje a este espaço.

Na prática, a pergunta é muito simples:

- Será ou não benéfico para a Liga NOS importar árbitros para dirigir os jogos mais importantes que faltam?

Por partes.

Percebe-se a bondade (genuína e sincera) de quem levanta a questão. De facto, há dores que só a morfina pode resolver. Dores que paracetamol e diclofenaco já não curam. E isso parece-me óbvio.

Se o momento é de tal forma tenso e suspeito, se as dúvidas sobre a competência e integridade de quem apita são tão grandes, se tudo o que está em jogo é assim tão crucial e estruturante... porque não retirar, dos nossos árbitros, pesos que os podem marcar para sempre?

Porque não deixar nas mãos de outros (que vão e vêm sem ler jornais, sem ver resumos e sem se importar que rebente uma guerra civil) responsabilidades que jamais trarão algo de positivo para eles ou para a nossa arbitragem?

Faz sentido, de facto. Tal como faz recorrer a uma greve quando horas, dias e semanas de negociações não resolvem o conflito.

É, digamos, uma solução de recurso. Uma solução tipo bomba atómica. Uma com um letreiro, a vermelho, que diz "Só utilizar em caso de emergência".

Se esse é o caso, se é assim que os entendidos veem e sentem o estado atual das coisas, então sim: que venham nuestros hermanos, unsere brüder, nos frères... e que venham ainda i nostri fratelli, våra bröser e האחים שלנו.

E, já agora, que antes de virem, tomem uns quantos ansiolíticos (ou arranjem uma otite bilateral). Pode dar jeito.

Mais a sério, é claro e sabido que quem quer resolver problemas de fundo não o faz recorrendo a terapias de recurso. A medidas de choque. Tem é que tratar o mal pela raíz. E o mal aqui, não tem uma mas muitas raízes, algumas com anos e anos de existência e que requerem outras abordagens, outras curas.

Mas não dispersemos.

A questão de trazer árbitros lá de fora começou a colocar-se depois do célebre fora de jogo de Briseño, no ainda mais célebre "Feirense-Benfica".

O tal lance que qualquer pessoa razoável e sensata diria ser de avaliação impossível, tendo em conta as imagens que as câmaras mostraram lá em casa.

O tal lance que valeu a chacina pública de um árbitro, de um árbitro assistente e de um videoárbitro que - no lance em concreto, naquele lance em particular - muito provavelmente até tomaram a melhor decisão.

A partir daí, instalou-se o caos (que, como bem sabemos, já andava a pairar, tipo nuvem negra, há muito, muito tempo).

Agora digam-me, porque eu às vezes tenho medo de não conseguir cortar o cordão umbilical:

1. Acham mesmo que os árbitros estrangeiros são melhores do que os nossos? Alguém viu, por acaso, o jogo de ontem à noite, entre Liverpool e FC Porto? E se viram o penálti não assinalado a favor da equipa portuguesa, viram aquele que foi assinalado no outro jogo, a favor do Manchester City? Sabiam que esses jogos também tinham videoárbitro e que essa função foi ocupada por juizes de elite da UEFA?

Robbie Jay Barratt - AMA

2. Partindo do princípio que os nossos "colegas" estrangeiros estariam descontextualizados com o ambiente que se vive por cá (o que seria uma enorme vantagem, sem dúvida), acham mesmo que não iriam cometer erros na mesma? E acham mesmo que esses potenciais (e naturais) erros de análise não poderiam "afetar", à mesma, o mérito de quem venceria ou perderia? O mérito de quem seria campeão ou vice-campeão?

3. Acham que, ao recorremos aos préstimos de árbitros lá de fora, a mensagem que passaríamos para a UEFA e FIFA seria boa? Seria positiva? Essa imagem, de total desconfiança nos nossos agentes desportivos, de cedência a pressões externas, traria benefícios futuros junto daqueles organismos? É para isso que anda tanta gente boa a trabalhar? Para afinal reconhecermos que não somos capazes de governar, sozinhos, a nossa própria casa?

4. Que jogos sobrariam para os nossos juízes? Os da segunda metade da tabela? Que mensagem se estaria então a passar para eles? A de que só têm valor para dirigir jogos dos patamares de baixo? Vocês estariam disponíveis para trabalhar com base nessas condições? Eu não.

E que mensagem se estaria a passar para as equipas envolvidas nessas partidas? Que levavam com o "refugo"? Quem iria dirigir os jogos que decidem despromoções? Os nossos ou os outros? E os que decidem as promoções da segunda liga? Os menos maus cá do burgo ou os razoáveis lá de fora?

5. Que fariam os nossos árbitros perante este atestado de incompetência? Perante a seguinte mensagem: "Vocês até servem para desenrascar a coisa até seis jornadas do fim, mas a partir de agora, que é a doer... deixem isto com os profissionais".

Por vezes, parece que andamos todos perdidos no marasmo imenso que são os problemas que nós todos criámos.

Ficamos histéricos, com a razão toldada e pensamos em soluções de curto prazo, como se fossem medidas que resolvessem tudo de um momento para outro. Milagrosamente.

Somos reativos. Vemos com palas. Andamos a reboque de reações, de emoções.

Queremos pôr pensos rápidos em tudo o que aparece, sem percebermos que a única solução racional é tentar descobrir qual é a causa da doença.

Que venham então os árbitros estrangeiros, meus amigos.

Vai correr bem, ninguém vai errar, não vão haver falhas nem prejuizos desportivos.

Os nossos árbitros vão aprender muito e jamais voltarão a equivocar-se.

Os clubes (os que ganharem e os que perderem) nunca mais falarão, porque vão estar com a alma cheia, radiantes. Saciados.

Os adeptos que não tiverem a sorte de festejar nos Aliados ou no Marquês ficarão felizes também. Vão estar em êxtase, a bater palmas ao mérito do adversário e a fazer a "hola" numa gigante demonstração de fairplay, extensiva a manifestações de júbilo nas redes sociais.

Todos ficarão muito contentes e melhor: os problemas do futebol português ficarão resolvidos para sempre.

Bolas. Como é que eu não pensei nisto antes?