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Paula Cosme Pinto

Será Ronaldo um educador machista? E nós seremos diferentes?

No fim de semana passado, Cristiano Ronaldo partilhou um vídeo onde jogava à bola com o seu filho mais novo. O pequenito tem imenso jeito para a coisa e a partilha foi um sucesso. Mas já reparam no que faz a menina que também aparece no vídeo? Vale a pena ver e refletir sobre isto

Paula Cosme Pinto

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O vídeo não só fez furor no Twitter e no Instagram, como foi mesmo motivo de notícia em alguns jornais ibéricos: filho mais novo de Cristiano Ronaldo já é um craque da bola, lia-se por aí em letras garrafais. As imagens do garoto a jogar à bola com o pai são uma ternura, acho que estaremos todos de acordo. A destreza do filho mais novo do futebolista para dar chutos numa bola é realmente impressionante. Mas quando começamos a olhar bem para o vídeo, há outra coisa que impressiona: a imagem da filha de Ronaldo, que a cada incentivo do pai atirado ao irmão, chuta com o pezinho no ar sem que ninguém lhe ligue nenhuma. A cada chuto que o menino dá, a menina está por trás dele a chutar com todo o entusiasmo numa bola invisível, porque a bola atirada pelo pai nunca vai na sua direção. Chuto após chuto, a vontade de jogar à bola que a menina manifesta com entusiasmo é ignorada e esta desiste, acabando por ir agarrar numa vassoura que faz parte de um kit cor de rosa de materiais de limpeza para brincar. A escolha deste brinquedo, feita ou não ao acaso, é possivelmente a maior ironia no topo deste bolo.

O título deste texto não surge ao acaso em formato de pergunta. Como é óbvio, não faz sentido tirarmos conclusões ou fazermos julgamentos à vida alheia com base num vídeo. Nem tampouco este meu texto é uma crítica direta e exclusiva à figura de Cristiano Ronaldo, até porque nada nos diz que na meia-hora seguinte o craque não terá passado o seu tempo a jogar à bola com a filha, por exemplo (gosto de acreditar que sim). Ou que tenha brincado aos carrinhos de limpeza com o seu pequenito. Ou que tenha reunido a miudagem toda para brincadeiras em conjunto, onde todos eles são incentivados a explorarem os diferentes brinquedos e experiências que podemos ver disponíveis naquelas imagens. Isso só aquela família saberá, e na realidade nós temos pouco a ver com isso, faz parte de um universo privado. E quer o faça de forma mais certa ou errada, cada educador tem livre arbítrio para educar e passar o seu tempo com os seus filhos como quiser (e a lei permita).

Mas isto não significa que o exemplo daquele vídeo não mereça reflexão. Até porque o que interessa é percebermos que o que Ronaldo faz naquele momento é o que tantos e tantos outros progenitores, homens e mulheres, fazem no seu dia-a-dia. Termos a oportunidade de assistir na primeira fila a este vídeo serve, acima de tudo, para assumirmos que talvez aquela imagem seja um simples espelho do muito que se passa nas casas portuguesas. E tentar perceber que por mais que sempre assim tenha sido, e que a sociedade tal como está estruturada nos diga que futebol e carrinhos é para meninos e tachinhos e vassouras é para meninas, não quer dizer que tenha de continuar a ser. Hoje, felizmente, temos ferramentas acessíveis e credíveis que nos explicam qual o impacto a longo prazo de não darmos oportunidades e estímulos iguais às nossas crianças durante o seu crescimento. Repetir ou não o erro, com consciência do resultado, é uma decisão que cabe a qualquer um de nós que tenha papel de educador.

As meninas ‘que dão chutos no ar’ merecem que, pelo menos, as deixem tentar

O futebol feminino tem conseguido recordes históricos de participação das atletas, de audiências televisivas, de receitas publicitárias e de público em estádio a assistir a estes jogos. São também cada vez mais os exemplos de grandes craques do sexo feminino reconhecidas mundo fora, recordistas de golos, detentoras de prémios, dignas de homenagens públicas. A modalidade está a crescer a olhos vistos e o mito de que esta não é uma profissão para mulheres lá se vai desfazendo. Quem fala de futebol fala de tantos outros universos onde até há pouco tempo mulher não entrava. Ou onde nem sequer ousava tentar entrar. Para que este tipo de situações não aconteçam, é preciso quebrarmos preconceitos sobre os papéis, capacidades e mérito de homens e mulheres na sociedade. A educação é um essencial ponto de partida.

A menina deste vídeo, tal como tantas outras meninas que acabam a dar chutos no ar (e vejam isto dos ‘chutos no ar’ como uma metáfora para tantas outras atividades que ainda estão carregadas de obstáculos por causa de estereótipos de género), merecia que lhe tivessem, ao menos, passado a bola. Que, no mínimo, lhe tivesse sido dada a oportunidade de experimentar e explorar uma atividade, mesmo que muito do mundo que nos rodeia ache que essa atividade é mais favorável ou apropriada para os rapazes. O mesmo para todos os meninos a quem ainda é vedada a oportunidade de brincar com uma boneca ou brincar com esfregonas e panelinhas, por exemplo. A verdade inconveniente é que dos brinquedos à roupa infantil, dos filmes de animação, aos livros e às atividades extracurriculares, continuamos a viver numa sociedade que faz demasiadas divisões totalmente estereotipadas sobre o que é próprio ou não para meninas e meninos. Seja nas cores, nos objetos, no próprio design das embalagens, no tipo de estímulos cognitivos, físicos e comportamentais direcionados para cada um dos sexos. Continua-se a condicionar as crianças, como se estas tivessem diferentes potencialidades, preferências e apetências apenas por causa do sexo com que nasceram. Há muito que estudos feitos pelas mais diferentes equipas de especialistas ligadas ao desenvolvimento infantil nos mostram que isto é errado. Mas as mentalidades sobrepõem-se e as mudanças na educação acontecem lentamente.

Ainda há uns tempos me deparei com um número inquietante partilhado pela UN Women: a partir dos 6 anos, as meninas começam tendencialmente a sentir que são menos capazes de executar tarefas que exijam que se seja “muito, muito esperto”. Dados de um estudo publicado na revista Science em 2017 que revela que as meninas começam com seis anos a dizer que os rapazes têm mais jeito para esse tipo de atividades, e que não se reveem elas próprias nesse nível de inteligência e astúcia. Aos seis anos, leram bem. Mais uma vez, não sou eu que o digo, é uma investigação feita por especialistas com uma mostra de centenas de crianças do mundo ocidental. Os estereótipos de género, que inequivocamente continuamos a perpetuar na nossa abordagem com as crianças desde tenra idade, são parte da explicação dada para tal resultado. Incluindo nas brincadeiras.