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Susana Feitor

Susana Feitor

Vice-presidente Comissão Atletas Olímpicos

Susana Feitor questiona: os atletas só sabem treinar?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Susana Feitor, atleta olímpica com participação em cinco Jogos Olímpicos, vice-presidente da Comissão de Atletas Olímpicos e membro da Academia Olímpica de Portugal

Susana Feitor

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Será que os atletas têm capacidade para dar uma boa resposta em áreas diferentes das suas? E será que a diferença entre o alto rendimento desportivo e performance empresarial é assim tão grande? Basta “googlar” o assunto e de imediato aparecem inúmero exemplos a nível mundial de empresas que tiveram a visão de “usar” as características que os atletas possuem para atingirem os seus objetivos desportivos e transferi-las para outras áreas profissionais.

Sabe-se que empresas como a Coca-Cola, a Visa ou a YE (Ernst & Young), entre outras, pela sua proximidade ao olimpismo como patrocinadoras, viram nos atletas uma oportunidade e contrataram alguns ainda em competição ou no final das suas carreiras, que na sua maioria a única experiência profissional que tiveram foi no mundo do desporto. Mas porque iriam empresas como estas contratar um atleta? Pela publicidade? Por compaixão? A resposta pode ser sim, pois é sabido que muitos campeões depois de terminarem as suas carreiras deparam-se com dificuldades na vida. Mas também não é uma atitude assim tão inocente ou apenas altruísta, é que no final das contas as empresas procuram resultados e os atletas provam ter características que as empresas procuram nos seus colaboradores, investindo muitos recursos para que as adquiram.

E que características são essas? Para estarem ao mais alto nível desportivo e competirem mundialmente, os atletas têm de aprender depressa, precisam duma adaptação constante à evolução das exigências na performance, precisam de uma dedicação extrema e focada, são orientados para o trabalho em equipa, pois precisam trabalhar com outros profissionais de diferentes áreas. Têm características de planeamento e estratégia, gestão adequada da pressão e do stress, são orientados para os resultados, precisam de boas capacidades de comunicação, experiência multi-cultural; são seguidores de regras, de procedimentos e instruções, espírito competitivo, respeitadores, apaixonados, dedicados, habituados à gestão do tempo, constante busca da perfeição, comprometidos, resilientes, disciplinados, motivados, habituados a enfrentar dificuldades e muitos obstáculos, com qualidades de liderança e com uma enorme rede de contactos… Então, encontramos ou não semelhanças com o mundo empresarial?

© Reuters Photographer / Reuter

É claro que é preciso considerar outros aspetos para que estas pessoas tenham sucesso num campo profissional diferente do seu, mas, tal como no desporto, tiveram treino técnico e científico. No mundo empresarial não é assim tão diferente. Uma comparação simplista é olhar para o atleta como o CEO da sua organização, é um exercício que se faz muitas vezes e que bem analisado faz todo o sentido.

Afinal, o atleta tem de lidar com budgets para a sua preparação, aquisição de ferramentas, investimentos em áreas como a angariação de fundos ou apoios, para pagar aos recursos humanos que trabalham consigo, como o treinador, ou o nutricionista, ou o fisioterapeuta, ou o psicólogo, entre outros; tem de gerir o seu trabalho com estes profissionais e tudo o que advém da gestão de recursos humanos, que são contratados em função dos objetivos que pretende atingir. Têm de lidar com questões do foro fiscal, finanças, segurança social ou seguro desportivo. Os atletas precisam da logística necessária para organizar estágios, competições e toda uma série de aspetos relacionados com transportes, viagens, etc. Precisam estar treinados a comunicar, falar em público, apresentarem as suas ideias, tratarem da sua imagem, pois é daí que podem surgir os possíveis patrocinadores. Estarem capacitados que a gestão das suas agendas é dos aspetos cruciais para que tudo encaixe o melhor possível.

A par disto, devem estar permanentemente com atenção às novidades na área do treino, sendo relevante a familiarização com as tecnologias e tudo o que está relacionado com o hi-tech. É uma comparação que vale o que vale, mas não deixa de ser interessante. Se as empresas derem a oportunidade aos atletas de se envolverem no seu “business” e em complemento lhes derem formação técnica adequada, é uma questão de tempo até que mostrem que o desporto de alto rendimento não é só uma boa escola de valores e uma boa escola para a vida, mas também uma boa escola para o sucesso no mundo do trabalho.

O Comité Olímpico Internacional ao deparar-se com tristes e difíceis histórias de vida de ex-atletas, desenvolveu um programa de alerta, em parceria com a Adecco Internacional (empresa de recursos humanos), o “Athlete Career Programme” (ACP). Trata-se de um programa de sensibilização e apoio à carreira dos atletas no ativo e no final da carreira. Também os comités olímpicos nacionais foram desafiados a implementar o programa e o Comité Olímpico de Portugal é um deles.

O ACP tem várias vertentes, uma delas é sensibilizar os atletas para o planeamento da dualidade de carreiras, potenciando as suas características noutras áreas de interesse pessoal e apoiar com ferramentas para a conciliação da carreira desportiva com um emprego. Também procura divulgar este potencial dos atletas, para que lhes sejam dadas oportunidades e assim provem que as suas capacidades podem render fora do desporto.

Nem todos os atletas são vocacionados para o negócio ou para as mesmas tarefas, mas todos têm características que reconhecemos como válidas em qualquer profissão.

Portanto, o problema pode ser tão grande quanto o deixarmos ser e as organizações que tiverem a visão ou ousadia de contratar um atleta olímpico depressa vão perceber que pode ter sido uma jogada arrojada, mas vencedora!