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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

As vitórias morais no futebol (porque uma equipa pode não ter mérito algum na criação das situações de golo, ainda que as finalize)

O treinador Blessing Lumueno escreve sobre a "justiça" no futebol, se é que isso existe, ao abordar várias situações de finalização distintas: "Porque uma equipa pode não ter mérito algum na forma como as situações de jogo se transformam em ocasiões de golo, ainda que possa ter o mérito na finalização das mesmas"

Blessing Lumueno

Marc Atkins

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O futebol é um jogo desportivo coletivo tão distinto de quase todos os que conhecemos que todos os dias somos impelidos a fazer no futebol o mesmo tipo de comparação de outras modalidades. Seja onde for, estamos sempre a ser empurrados para formas redutoras de analisar o jogo e para um empobrecimento da discussão de quem teve o maior mérito, depois do resultado final.

Das maiores e mais sofisticadas formas de analisar o jogo, aparece agora o número de ocasiões de golo criadas por cada equipa, e também eu caio na tentação de, na tentativa de simplificar a informação para quem a vai receber, tentar explicar um jogo dizendo que teve mais mérito a equipa que conseguiu criar mais situações de golo.

Outra vez os números, não é?! Haverá sempre por aí alguém a achar que eu não os suporto. Mas não é o caso.

É claro que o número de ocasiões criadas tem alguma relevância para traduzir aquilo que foi o jogo, para ajudar a perceber a tendência ofensiva e defensiva do mesmo (de cada equipa), para ajudar a entender como é que cada equipa se comportou face à postura do adversário. Mas discordo que essa quantificação possa traduzir por si só a justiça do resultado. O problema é óbvio: o critério que cada um utiliza para traduzir o que é uma ocasião de golo. Isto é, o pensamento por trás do número de situações criadas não contempla o tipo de situação de finalização em questão, e a forma como essa situação foi conseguida. Portanto, para uma melhor perceção da justiça do resultado, ao número de situações deveria seguir-se uma análise ao tipo de situação e da forma como a situação apareceu. Da quantidade para a qualidade, uma vez que é perfeitamente possível que uma equipa que crie cinco ocasiões de golo seja menos merecedora da vitória do que outra que crie uma. É aqui que entram as vitórias morais.

Normalmente, quando uma equipa perde um jogo e tem um grande volume ofensivo e/ou tem uma percentagem esmagadora de posse, diz-se que essa equipa foi ineficaz e que somou uma vitória moral, uma vez que não conseguiu transformar em resultado a superioridade no jogo. Para me demarcar da acusação de defensor de vitórias morais, coloco o problema do outro lado: é muito fácil explicar o jogo com números tendo em conta que o volume pode ser avassalador; mais difícil e mais completo será sempre explicá-lo olhando para a qualidade que existe dentro desse volume.

Ou seja, a equipa que foi mais atacante, que teve mais remates, mais cruzamentos, mais posse de bola,mais tempo no meio campo ofensivo do adversário, pode perfeitamente ser a equipa que menos merece sair vitoriosa porque pode não ter tido a arte e o engenho para conseguir criar situações de finalização “simples”. E sim!, as situações de finalização simples são melhores do que as outras por serem menos afetadas por fatores externos e pela maior ou menor inspiração de quem finaliza. Portanto, não é de vitórias morais de que estou a falar, mas sim de quem fez mais por criar situações de finalização onde o número de constrangimentos na última ação é menor.

Logicamente que a equipa que tem a bola durante mais tempo, e que passa mais tempo no meio-campo adversário, tem mais possibilidades de conseguir criar situações que possam levar à vitória, mas não é em todas as situações que essas equipas conseguem, apesar de um maior número de tentativas, romper com a organização defensiva do adversário e criar situações que lhes permitam estar mais perto do sucesso do que aquelas criadas pelo adversário num menor número de tentativas.

O jogo entre o Tottenham e o Manchester City para a Liga dos Campeões é um grande exemplo disso: a equipa de Guardiola foi dominadora, teve mais bola, controlou, mas nunca esteve mais perto da vitória do que a turma de Pochettino.

São tantas as vezes em que olhamos para o jogo e dizemos que a equipa teve azar, que não foi eficaz e que pelo número de situações que teve perto da baliza mereceria outro resultado, mas quase nunca olhamos para o tipo de situações criadas e pensamos que as situações são de difícil execução e finalização, e que, afinal, o problema poderá não ser da eficácia e do volume das situações mas sim da qualidade das mesmas. Por exemplo: num jogo em que a equipa faz muitos remates e permite que o guarda-rede faça defesas espantosas, em que faz muitos cruzamentos e faz a bola chegar muitas vezes perto da baliza, assumimos pelo frisson que este tipo de situação causa e pelo caudal ofensivo que a equipa demonstra que será uma questão de tempo até a equipa conseguir marcar. No final, a frustração e o sentimento de injustiça são grandes por não termos ido ao detalhe para discernir o tipo de situações que foram criadas.

Para que fique mais claro o tipo de avaliação que deve ser feita das situações de golo, vou apresentar alguns lances retirados do Twitter da Eleven Sports.

Reparem, por exemplo, nestas duas defesas de Oblak. A primeira, brilhante, porque o remate desvia no defesa e ressalta a poucos centímetros dele. Mas se o remate não tem sido desviado pelo defesa, muito provavelmente teria sido um lance sem história pelo pouco ângulo que havia para finalizar, e pela forma como os defesas e o Oblak fecharam a baliza. Se tem sido golo, o mérito teria sido muito pouco.

A segunda defesa, pela espetacularidade, dá a impressão de ser um lance de grande dificuldade para Oblak. Todavia, a difícil execução do avançado, pelas condições em que a bola chega a si, fazem com que não tenha tempo e espaço (caso queira rematar) para escolher onde colocar a bola, nem tão pouco para executar o remate nas melhores condições. A bola vai ao meio, e é uma defesa que apesar de causar calafrios tem um grau de dificuldade bem inferior à primeira.

Esta situação, na qual Burki aparece em grande plano, é bastante boa para ilustrar que, apesar dos arrepios e da proximidade da baliza, não houve grande mérito ofensivo na forma como a situação apareceu, e a própria situação tem um índice qualitativo baixo. Isto porque os constrangimentos para a finalização eram imensos:

- A quantidade e a ação dos defesas colocados para defender o lance que dificultam todos os gestos técnicos;

- A trajectória e a velocidade da bola após o primeiro cabeceamento;

- A forma como em desequilíbrio Antonhy Ujah tenta finalizar com o pé, seguido da forma como em queda ainda tenta rematar no final do lance.

Milagre seria desta situação, tendo em conta a dificuldade, ter saído um golo.

As bolas paradas costumam ser decisivas em alguns jogos, e a brilhante execução de Griezmann dá a entender, pela aparente facilidade do gesto, que é um momento privilegiado para se conseguir chegar ao golo. Mas apesar de ser uma situação com algum potencial, não é de fácil execução e está longe de ser o melhor tipo de situação que se pode encontrar para finalizar.

Para lá da dificuldade do livre pela distância ou pelo ângulo, há ainda que perceber de onde é que o lance surgiu: foi uma falta conseguida de uma ação colectiva ou individual, ou foi um lance fortuito mal abordado pelo defensor?

Franco Vázquez faz um golo de encher o olho, mas esta é uma situação que apesar de finalizada com categoria não garante uma percentagem de acerto tão grande como outras. Porque a qualidade individual do executante é preponderante, há ainda alguma distância para a baliza, está em jogo um defesa que pode colocar-se no caminho da bola, e o guarda-redes está dentro do lance.

Normalmente, as situações de cruzamento são avaliadas tendo em conta o jogador que consegue cabecear a bola: se for o defesa é como se a situação não tivesse existido, se for o avançado e a bola passar perto da baliza é mais uma a somar para o conjunto de situações de golo. Não se tem em conta se a equipa que defende tem superioridade numérica e espacial no momento de cruzamento, não se tem em conta se o avançado que cabeceia o faz nas melhores condições (com ou sem oposição), ou se o cruzamento apanha a defesa de frente ou se a bola é colocada nas costas.

Neste caso, no golo de Munir El-Haddadi, a bola é colocada por forma a dificultar ao máximo a ação dos defesas, ficando quem ataca numa posição favorável para finalizar.

Sobre o golo de Cristiano, as declarações de Frenkie de Jong são bastante elucidativas: “Quando o vi no ar, em posição frontal, sabia que íamos sofrer”. A descrição é perfeita para se perceber a qualidade da situação criada; e ainda que seja de cabeça, a probabilidade de êxito é grande. Não superior a uma situação do mesmo tipo para finalizar com os pés, e não é a situação de finalização mais simples de executar, mas é sem margem para dúvida uma situação de finalização muito boa.

Não podemos colocar no mesmo saco esta situação que, apesar de ter muita qualidade, é uma situação na qual Ben Yedder ainda tem o guarda-redes como obstáculo, e a situação que se segue, em que o único obstáculo para a finalização é a qualidade do último passe (bola pelo ar), e a execução do Sarabia.

O que a maior parte das pessoas tem dificuldade em perceber (ainda que possam sempre existir discussões sobre os critérios que avaliam a qualidade dos lances) não é o tipo de situação ou a qualidade das mesmas, mas sim de onde é que as situações aparecem. Porque uma equipa pode não ter mérito algum na forma como as situações de jogo se transformam em ocasiões de golo, ainda que possa ter o mérito na finalização das mesmas.

Porém, o ter finalizado as situações que aparecem por imponderáveis como a sorte, as condições meteorológicas, os erros de arbitragem ou os erros do adversário, em nada legitima o mérito no resultado final. Apesar da finalização, e do volume, as situações podem não ter sido criadas e terem aparecido por fatores externos à equipa, fatores esses que, por não terem nada a ver com a equipa, não podem servir como avaliadores daquilo que foi a produção de jogo, uma vez que qualquer outra equipa teria beneficiado das mesmas situações pelo simples facto de estar em campo.

Por isso, não se tratam de vitórias morais, mas sim de uma avaliação qualitativa que tem em conta quem mais fez por procurar a vitória. E terá sempre mais mérito a equipa que tentar mais e conseguir melhor criar situações de finalização simples, como é o caso do golo de Firmino. Porque neste tipo de golo, que é criado pela ação ofensiva do Liverpool, a qualidade individual de quem finaliza é um fator que quase não tem importância.