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A “euforia” João Félix

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre João Félix, ou melhor, sobre o endeusamento precoce de jovens talentosos no futebol

Ana Bispo Ramires

Armando Franca

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No último mês muita tem sido a atenção dedicada ao desempenho deste jovem atleta – desde o aumento antecipado da sua cláusula de rescisão, aos “tubarões” europeus que estão já em sua perseguição, às comparações com Cristiano Ronaldo, à forma como (aparentemente) o Benfica passou a ser “Félix + 10”, ou ao facto de reunir, inclusive, a admiração de adeptos de diferentes clubes.

Menos de mil minutos jogados e temos já um novo herói nacional – até porque, com o avançar da idade de Cristiano e a invisibilidade que, aparentemente, Bernando Silva tem para muitos portugueses, urge encontrar um substituto que eleve o orgulho português – televisões, jornais e internet, rapidamente se associaram ao fenómeno, dando-lhe ainda maior expressão.

No meio de tanta agitação e, possivelmente, “histeria em massa” salva-se a atuação responsável do seu treinador que, a cada oportunidade, reforça a necessidade de respeitar a idade e o crescimento do jogador, por forma a não comprometer as suas necessidades de maturação.

A atuação de Bruno Lage (e mais tarde do próprio clube, protegendo o atleta da exposição aos media nas típicas “flash interviews” de final de jogo) evidencia, sem dúvida, a experiência de alguém que sabe que nada ainda está “provado” ou garantido e que, de facto, o atleta precisa de “espaço” (até privacidade) para crescer e evoluir. Revela, também, a preocupação de um líder em criar (ou proteger) as condições ideais para que a formação do atleta possa ser concluída em segurança e sem atropelos.

A loucura dos “golden boys”

A necessidade de novos ídolos é tanta, que todos os anos saem listagens de mais de 60 atletas que demonstraram ser a “esperança” para o futuro do futebol – curiosamente, João Félix não fez parte da listagem de 2018 e, em boa verdade, uma grande maioria dos atletas listados acaba por ter uma carreira em clubes de menor expressão, muito por motivo da qualidade evidenciada não se revelar de forma consistente e sustentada nos anos imediatamente a seguir a este tipo de nomeações.

O risco de tanto alarido prende-se, necessariamente, com uma excessiva visibilidade (e suas consequências em termos de solicitações externas, de variada ordem e, consequente perda de foco) numa fase de vida do atleta onde, em termos de maturação, este dificilmente terá as competências psico-emocionais necessárias para lidar eficazmente com este tipo de mediatismo (e perda de anonimato, com inevitável invasão de privacidade) procurando até, de forma natural (e até inconsciente), corresponder às expectativas que sente que o meio (e os seus significativos) deposita(m) nas suas capacidades.

Contudo, de forma muito ingrata, os media e as massas, com a mesma velocidade com que “criam” ídolos, também os “trucidam” e esquecem (ou não houvesse já comentários acerca do “eclipse” de João Félix na Alemanha, como se o natural, a partir de agora, fosse marcar três golos e fazer mais um par de assistências) – e, com isto, também um miúdo de menos de vinte anos, tem que aprender a lidar.

Responsabilidade Partilhada: a “fórmula” secreta para a confirmação de um “talento anunciado”

Acredito que não seja difícil recordar, nos últimos 10 anos do futebol português, um número elevado de “miúdos” que, revelando-se enormes promessas para a modalidade, por razões várias (nem estas, nem os seus nomes serão identificados neste artigo, por razões óbvias de proteção de privacidade) acabaram por não comprovar o seu talento ou debatem-se ainda com dificuldades para conquistar o seu espaço na modalidade (em território nacional ou internacional).

Em boa verdade, a transição para a “idade adulta” (que coincide com o final da formação do atleta) transporta muitos desafios (por exemplo, o atleta saber escolher um clube que tenha um bom projeto formativo para finalizar o seu próprio processo de formação, ao invés de escolher o clube que “paga mais alto”, que acarreta sempre um enorme deslumbramento) que, demasiadas vezes, empurram o atleta para um desfecho menos sucedido da sua carreira.

Existem, por isso, diferentes “protagonistas” neste processo de transição que, trabalhando de forma concertada, poderão favorecer esta transição, seja em termos da saúde mental como da performance do atleta.

Destes, poderíamos destacar:

O ATLETA

Gualter Fatia

Desde logo o principal implicado, deve apostar desde cedo na diferenciação das suas qualidades cognitivas (através da frequência escolar bem sucedida) que irão interferir de forma clara na sua capacidade de reunir informação discriminante para o processo de tomada de decisão; também da sua responsabilidade, a partir de uma certa idade, apostar no desenvolvimento das suas competências psico-emocionais (de forma mais sistematizada, recorrendo a profissionais devidamente credenciados para o efeito) e da sua rede de suporte social (fundamental!);

A FAMÍLIA

Desde sempre identificada como um dos principais pilares de sucesso (ou pressão) para os atletas – importante, por isso, saberem apoiar e orientar o processo de tomada de decisão, sem serem os protagonistas da mesma. Apoiarem o sonho e carreira do seu educando, ao invés de “viverem” o sonho – saberem manter o distanciamento, evitando a entrada em processos de “deslumbramento” que em nada favorecem a tranquilidade necessária. Assegurarem, acima de tudo, apoio e amor incondicional ao jovem (e não ao “atleta”), função esta que não pode ser desempenhada por mais ninguém;

CLUBES DE FORMAÇÃO

Quero acreditar que ainda verei, no decorrer da minha carreira, uma clara aposta dos clubes em que estes atletas se formam, na integração de planos de desenvolvimento de competências psico-emocionais que não só facilitem esta dura transição como favoreçam a rápida adaptação nos “clubes compradores” – em boa verdade, para além de assegurarem uma transição fluida (com risco reduzido de situações que possam ameaçar até a saúde mental do atleta, como se encontra identificado na literatura científica da área), estarão claramente a “vender” uma imagem de marca muito mais sólida, na medida em que trazem garantias acrescidas para o investimento despendido pelos clubes compradores, ao reduzirem o tempo de latência em que o atleta chega ao novo clube e em que começa a evidenciar o seu talento através de desempenho consistentes (para ter uma ideia, por vezes, este período pode levar entre seis meses a um ano);

CLUBES COMPRADORES

Já alguns clubes possuem “programas de acolhimento e aculturação” aos atletas recém-chegados, contudo, importa reforçar e expandir ainda mais este tipo de estratégias e suporte que, curiosamente, podem ser até importadas do mundo das empresas.

E, ainda...

EMPRESÁRIOS

Urge uma modificação relevante na relação que se estabelece entre atletas e empresários, muito frequentemente caracterizada por “necessidade” e não por confiança. Empresários e atletas deveriam conseguir estabelecer relações claras e de compromisso de longa duração. A figura do empresário necessita acompanhar o “futebol ciência” que tem emergido nos últimos anos, o que implica uma necessária profissionalização dos mesmos – empresários de “alto rendimento”, que se fazem rodear de conhecimento cientifico e que podem vir a assumir um papel de “mentor” podem vir a ser, de facto, o futuro da própria profissão pois, só acompanhando a evolução da modalidade poderão melhor servir os seus “clientes”.

Prognósticos só no fim

Tantas as variáveis a considerar, tantos os co-protagonistas a atuar que, de facto, a carreira de sucesso de qualquer “João Félix” apenas poderá ser constatada... no fim.

Tal como José Mourinho referiu numa das últimas conferências de imprensa que encetou ainda no clube onde esteve, respondendo a uma provocação de um jornalista acerca da sua aparente “falta de sucesso”, apenas podemos constatar o mesmo quando, treinador ou atleta, ano após ano, invariavelmente evidenciam desempenhos de excelência que se traduzem, frequentemente, em títulos para as suas equipas ou prémios pessoais.

Para já, qualquer atleta que surja com a idade do João, será sempre apenas um miúdo que se diverte a “jogar à bola” – importante seria (e será) que, de facto, o seu espaço (e, já agora, o dos seus colegas que, muitas vezes, se “eclipsam” na opinião dos adeptos e imprensa – o que é uma tremenda injustiça e falta de respeito face ao seu contributo) continuasse a ser perseverado, até porque, se desaparecer a “alegria”, certamente que também desaparecerá a “magia”.