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José M. Constantino

José M. Constantino

Presidente Comité Olímpico

45 anos depois... Somos hoje um país diferente e melhor. E o desporto também

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve José Manuel Constantino, presidente do COP

José M. Constantino

Lukas Schulze

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A fluidez que alimenta a memória mediática de curto prazo pode comprometer a memória histórica.

O que justifica que se recorde a conquista da liberdade e da democracia em abril de 1974 é o momento mais relevante da História de Portugal Contemporâneo. Repeti-lo nunca é de mais!

Somos hoje um país diferente e melhor. E o desporto também.

O número de praticantes desportivos aumentou. O parque de instalações desportivas desenvolveu-se. O número de participações em competições internacionais cresceu. A qualidade dos resultados alcançados evoluiu. O país acolheu e organizou eventos ao mais elevado nível. Aumentou o número de dirigentes portugueses em organismos internacionais. Aumentou a realização em Portugal de reuniões de âmbito internacional.

Poderia ter sido melhor? Seguramente que sim. Mas a democracia e a liberdade não resolvem tudo. São uma condição necessária, mas não são suficientes. As políticas construídas - públicas, privadas e associativas - é que podem responder pelos resultados alcançados.

O país recebido da ditadura, a construção do regime democrático e a matriz genética dos partidos com vocação governativa explicam, em parte, que o modelo seguido para o desporto tenha ido buscar a sua inspiração aos países de forte intervencionismo estatal.

O histórico atraso do desenvolvimento do país e as vicissitudes porque passaram muitos setores da economia na fase da transição democrática não deixaram outra alternativa quanto ao caminho a seguir.

O modelo traduziu-se num forte apoio de financiamento por parte das políticas públicas e num significativo esforço na infraestruturação desportiva do país, com particular destaque para a ação das autarquias.

Esta tendência teve efeitos positivos no sistema desportivo português. Com a democracia o país desportivo abriu-se ao exterior. O que tornou o rendimento desportivo um produto fortemente mediatizado, expondo-o à comparação e avaliação permanentes.

E num contexto de crescente internacionalização dos sistemas desportivos uma das questões centrais que se colocou às políticas desportivas foi o de garantirem níveis de competitividade adequados.

Num país com a nossa dimensão geográfica, a nossa economia e os recursos que esta podia disponibilizar, aliados a uma tradição desportiva pouco relevante, criou-se a expectativa de pensar que era possível aspirar a resultados de relevo internacional num alargado número de modalidades, sem critério de seleção ou de definição de prioridades.

No modelo adotado, as organizações desportivas, designadamente as federações desportivas, ficaram muito dependentes do financiamento público. E com as prioridades adotadas provocou-se um desequilíbrio entre o financiamento público e o retorno que esse esforço podia potenciar em termos do desenvolvimento dirigido para a elevação do nível da prática desportiva dos portugueses.

Portugal também não escapou a tendências internacionais que se acentuaram sobretudo nos últimos vinte anos: por um lado o predomínio do carácter utilitário (fazer bem à saúde) e individualista da atividade física e a sua cultura monolítica que se abrigou à sombra do desporto; por outro a banalização do rendimento desportivo e a sua politização.

O valor de um vencedor de uma qualquer modalidade passou a valer o mesmo que o campeão de uma modalidade olímpica; uma competição à escala do bairro ou de um pequeno leque de participantes premeia o vencedor com uma medalha a que chama de ouro, como se de um campeonato do mundo ou uma competição olímpica se tratasse; pelo país fora reproduzem-se galas de campeões onde a vulgaridade do rendimento desportivo assentou arraiais.

A recente intrusão dos chamados jogos eletrónicos (na versão anglófona e-games ou e-sports) como desporto e, nesse caso, até como modalidade/especialidade a poder integrar o programa dos Jogos Olímpicos aí está a provar a chegada de novos tempos no mundo das práticas desportivas.

As organizações desportivas que deveriam ser as guardiãs da identidade do desporto tornaram-se impotentes para travar esta deriva e, em alguns casos, acompanham-na.

Como serão os próximos anos? Ninguém saberá responder com segurança. Mas arriscamos uma previsão: nas próximas décadas o desporto vai mudar mais do que mudou nestes últimos 45 anos.