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Cá só há espaço para a glória biliosa dos que ganham e a vergonha indignada dos que perdem. E eu que queria falar do golo de Rafa

O escritor Bruno Vieira Amaral reflete sobre um tema popular português: os “ânimos exaltados”. E assim discorre sobre o peito desnudado de Madureira, o ar incrédulo de Job de Sérgio Conceição, as palmas que viram pedradas ao mínimo deslize, enfim, o futebol cá do sítio no seu esplendor

Bruno Vieira Amaral

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Inesperadamente, o Futebol Clube do Porto regressou mais cedo aos balneários e deixou dois pontos em Vila do Conde. À partida, um empate não era um resultado inconcebível. O estádio do Rio Ave é um daqueles campos “tradicionalmente” difíceis para os grandes. No entanto, depois de a equipa azul e branca chegar a uma vantagem de dois golos com uma eficiência e um cinzentismo a lembrar o Porto de Vítor Pereira, poucos apostariam na hecatombe. No final, o empate não teve sabor a derrota, mas a uma catástrofe bíblica. No banco, Sérgio Conceição reagia aos acontecimentos com a incredulidade de Job ao receber as notícias dos mensageiros: “olha, ficaste sem os rebanhos”, “olha, agora foram-se as colheitas”, “os teus filhos morreram todos”, “não sei se já reparaste, mas o Pepe teve uma paragem cerebral”.

Perplexo, o treinador aplicou uma medida “à Porto” e conduziu os jogadores ao vociferante tribunal da bancada, onde Fernando Madureira, com esgares de viking, tronco desnudado e à beira de uma crise nervosa, batia fervorosamente no peito, numa acusação implícita de desleixo e falta de compromisso, enquanto perorava energicamente, talvez lembrando as exposições orais dos seus tempos académicos. Na flash interview e na conferência de imprensa, o ar de Sérgio Conceição era o de quem congeminava uma série de torturas e corretivos como castigo para os jogadores. Talvez pensasse em tripálios e outros instrumentos medievais de persuasão e esclarecimento.

Referindo-se ao primeiro golo do adversário, afirmou que “é um golo que não existe”, não pondo em casa a validade arbitral, mas a realidade ontológica. Queria dizer, como é óbvio, que um golo daqueles, que começou numa charutada de Casillas, passou pela indolência de alguns jogadores e terminou na furiosa hesitação de Pepe, não é admissível em alta competição. Só a raiva latente que dominava a custo o impediu de incorrer no lugar-comum do “em alta competição erros destes pagam-se caro”, uma defesa aceitável no contexto excecional da Liga dos Campeões, onde, à espreita do erro, estão jogadores do calibre de um Messi, de um Salah ou de um Aguero, mas que no campeonato português, onde “alta competição” soa a hipérbole, é quase tão inadmissível como os erros em campo, porque, afinal, do outro lado, estão jogadores remediados que não costumam punir com tanta frieza os relaxamentos competitivos dos grandes.

Sem surpresas, o clima no final do jogo era de velório. Minto. Num velório ainda há margem para conversas de circunstância destinadas a desanuviar o ambiente. Ali, nas imediações do estádio dos Arcos, cheirava a pré-guerra civil. À saída, os adeptos aglomeraram-se à volta do autocarro, dispostos em 0-0-53, para exercerem a famosa pressão alta dos Superdragões, brindando com um sortido de urros, insultos e ameaças, os jogadores, o treinador e até o intocável presidente Pinto da Costa. Um empate com o Rio Ave é suficiente para que a infalibilidade papal do presidente mais titulado do mundo seja posta em causa e para que a imunidade diplomática de um treinador cujo portismo e competência são evidentes seja declarada nula.

A distância que separa o aplauso embriagado do impropério neandertal é curta. Após a vitória em Braga, os adeptos benfiquistas receberam os jogadores como putativos campeões, embora prevaleça a nítida sensação de que uma qualquer escorregadela, um lapso mínimo, pode transformar palmas em pedradas, cânticos de júbilo em coros de fúria. Neste ambiente um tanto pútrido, o contentamento tem algo de doentio porque não se admite outro resultado que não a vitória. O empate ou a derrota são vividos como uma ofensa pessoal, uma afronta, uma traição. Já as vitórias dos rivais são sempre manchadas pela mácula da suspeita.

Além das habituais discussões sobre arbitragem, o jogo de ontem em Braga deu origem a uma nova disciplina do conhecimento: a semiótica da tribuna presidencial. Cada gesto dos presidentes de Braga e Benfica foi lido à luz de um imaginado contubérnio que, se não desculpa os erros próprios, sempre dá para exaltar ainda mais os ânimos com a narrativa das forças obscuras e dos poderes invisíveis do futebol português. Até a conferência de imprensa de Abel Ferreira foi usada como prova concludente de uma aliança estratégica que, além dos próprios clubes, inclui ainda árbitros e, presume-se, a Assembleia da República. Confesso que a postura serena, quase seráfica, de Abel Ferreira não esteve ao nível de atuações anteriores em que o treinador do Braga manifestou um nervosismo despropositado, mas ver nisso uma prova de um complô já exige uma predisposição maníaca para a crença em teorias da conspiração. A verdade é que, tivessem os resultados sido inversos, assistiríamos às mesmas reações só com outros protagonistas, embora talvez com desvantagem para o Benfica por não dispor de um líder de bancada parlamentar tão carismático e eloquente como Madureira.

Na semana passada, o treinador do Liverpool, Jürgen Klopp, que se arrisca a perder um campeonato quase imaculado, afirmou que se a sua equipa perder mesmo o título para o Manchester City não haverá lugar a arrependimentos. Têm feito tudo o que é possível e, no final, como no filme Duelo Imortal, só pode haver um campeão. Mas tudo isto se passa num planeta distinto, onde, como afirmou recentemente Bernardo Silva numa entrevista, as punições para jogadores, treinadores e dirigentes que comentam arbitragens são pesadas e os jogadores aprendem a não se atirar para o chão porque sabem que os árbitros não apitam por tudo e por nada. No nosso retângulo verde, nada disso existe. Só há espaço para a glória biliosa dos que ganham e a vergonha indignada dos que perdem. E o que eu queria mesmo era falar do serpenteante golo de Rafa Silva.