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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Ayrton morreu de capacete na cabeça, enquanto um capacete me acertava pelas costas

No dia em que Ayrton Senna morreu, Duarte Gomes estava a apitar um jogo no Algarve. Nunca mais se esqueceu do capacete que lhe atiraram às costas

Duarte Gomes

Dario Mitidieri

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No meio de tantos jogos, viagens e peripécias (contadas e por contar), seria difícil lembrar-me de onde estava e o que fiz no dia 1 de maio de 1994.

Infelizmente, a morte trágica e inesperada de um dos meus ídolos não me permite esquecer a data.

Para o Senna, foi apenas mais um dia de corridas. Para mim, foi apenas mais um dia de jogo.

Se a memória não me atraiçoa (o Google não consegue fazer milagres a esta distância, mas quase posso jurar), a deslocação foi a Paderne, Algarve. O Padernense recebeu o Silves (Lagos, Lagoa?), num dérbi algarvio da Série E, 3ª Divisão.

Na altura eu era apenas um wannabe. Queria ser um árbitro a sério, mas o percurso fazia-se (tal como se faz) de baixo para cima. Com paciência, com persistência, com teimosia. E porque, com o apito, ainda não passara dos distritais, nesse jogo nacional fui "fiscal de linha".

O árbitro, esse já a iniciar um trajeto que culminou no topo do mundo, foi o Pedro. Do outro lado, estava o Ricardo. Todos de "Lisboa" e todos novitos. Uns miúdos. Eu com 21, o outro com 22 e o chefe com 23.

Meninos cheios de boa vontade e energia, cheios de sonhos e ilusões. Cheios de vontade em triunfar. O jogo foi rasgadinho. Tal como era suposto. Tal como a malta gostava.

Teve salero, impetuosidade e excessos. E disso lembro-me bem. Sabem porquê? Porque foi o único que fiz naquele pequena freguesia de Albufeira. E porque foi no dia 1 de maio de 1994.

E talvez por isso nunca esquecerei, algures a meio da segunda parte, a pancada forte que senti nas costas. Uma daquelas que nos tiram o fôlego e nos deixam sem reação.

Mike Egerton - EMPICS

Na altura - hoje confesso que não sei - a linha lateral não ficava muito distante da zona onde, de pé, alguns adeptos assistiam ao jogo. A probabilidade de haver ali "interação pouco amistosa" era elevada.

Da minha parte, confesso: já tinha sido cuspido e já tinha apanhado com guarda-chuvas. Já me tinham atirado água, isqueiros e moedas. Mas... capacete de mota na zona do pescoço nunca me tinha acontecido.

Ganhou. Na originalidade e na eficácia, porque assustou e doeu que que se fartou! Nunca percebi bem o que levou o cavalheiro a tamanha demonstração de proximidade, mas isso agora também não importa.

O mais certo é eu ter feito alguma asneira ou ele ter pensado que fiz. Ou então... eu era apenas aquele que estava ali mais à mão.

Certo.

Olhei pelo canto do olho, com medo que viesse "réplica" da pesada (geralmente a malta apanha balanço e depois da primeira vem sempre a segunda), mas o malandro viu o GNR por perto e foi esperto: picou o ponto e fez-se à vida.

Fiz logo sinal ao Pedro, que percebeu que algo se tinha passado, mas o jogo não parou. Viu-o a sorrir, com aquele ar de como quem diz "antes tu do que eu". Sacana. Eu, bem... eu comi e calei. Mas abri o olho.

E, não fosse o diabo tecê-las, fiz o resto do jogo um metro dentro de campo. Em zona segura. Só voltava à lateral quando a jogada ou a proximidade dos jogadores assim o justificavam.

Ingénuo sim, mas só uma vez.

Na viagem de regresso - de sul para norte, eram sempre feitas pela Estrada Nacional - o assunto foi esse. Obviamente. E o que eles gozaram comigo!

Não esqueçamos: apesar de irmos focados na missão e de tentarmos sempre fazer o melhor que podíamos e sabíamos, o pós-jogo era sempre mais descontraído (só não era quando a coisa não corria bem). E, não esqueçamos... éramos uns garotos. Bem dispostos, muito arejados e humorados. Leves. E de bem com a vida.

Fui alvo de chacota durante quilómetros, até pararmos na zona do Canal Caveira (ou da Mimosa, não me recordo bem). E foi nesse contexto de descontração, foi nesse ambiente de café - do café onde parámos para comer umas sandes e beber umas Colas - que ouvimos a notícia. A notícia que nunca pensámos ouvir:

- O Ayrton morreu!

Sabem aquela altura da vida que todos já experimentámos, em que uma qualquer gargalhada sem sentido é congelada por uma notícia inesperada? Pesada?

Levámos um murro no estômago. E ficámos sem reação. Sem pio.

Sem sabermos se era o que estávamos a ver era a sério ou se era alguém a brincar. Uma mentira de circunstância. Uma parvoíce qualquer.

Os reis não morrem. Os campeões não morrem. E ele não podia ter morrido. Mas morreu.

Morreu de capacete na cabeça, enquanto um capacete me acertava e eu regressava.

Morreu ali, enquanto eu ria do susto que levara.

A "proximidade" com a tragédia tem impacto forte em nós. Expõe-nos à vulnerabilidade da vida.

Daí para a frente, a viagem foi outra, completamente diferente. A alegria deu lugar ao silêncio. A boa disposição ao luto.

O Senna morreu. E a história do capacete deixou de ser contada, porque deixou de ser importante. Ressuscitou hoje. 25 anos depois.