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Isto é tudo tão mauzinho, tão mauzinho que não pode continuar assim (Duarte Gomes e a falta de educação e de formação pessoal no futebol)

O antigo árbitro tenta responder à questão sacramental: a arbitragem define um jogo? Sim, define, diz ele, e a desta época anda abaixo do expectável, mas não é por isso que este ou aquele clube vão à frente. Isso são “novelas mexicanas”

Duarte Gomes

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Spoiler: este artigo pode conter opiniões que já ouviu várias vezes. Isso só acontece porque há opiniões que não mudam só porque são repetidas exaustivamente.

Dito isto, vamos ao tema do dia.
A pergunta é: os árbitros definem campeonatos?
A resposta é simples: sim.
Os árbitros definem campeonatos.

Agora vamos lá "conversar" sobre este assunto, com a seriedade, frontalidade e independência que ele merece. Pode ser?
Premissa fundamental: sem árbitros não há jogo. Ponto final, parágrafo.

O futebol é jogado por duas equipas e dirigido por uma terceira. A de arbitragem. É assim desde o início. É assim em todo o planeta. E será assim durante muito tempo.

Em campo, as três têm missões específicas: duas querem marcar mais golos do que sofrer para poderem vencer os seus jogos; a outra quer assegurar-se que isso acontece sem batota e obedecendo a regras pré-definidas.
Quando uma delas erra, quando uma delas não cumpre a sua missão, quando uma delas falha... o resultado é influenciado.

Portanto sim. Os árbitros influenciam campeonatos. Os jogadores também.

No caso de quem arbitra, essa influência pode ser positiva (quando assinala as faltas corretamente e exibe os cartões a preceito, quando aplica bem a lei da vantagem e gere bem as emoções dos atletas, etc), como pode ser negativa (quando erra na análise de lances determinantes, não aplica corretamente as leis de jogo, etc).

Para quem joga, acontece exatamente o mesmo: o contributo pode resultar de passes importantes, de defesas majestosas ou de um grande trabalho de equipa, tal como a influência negativa pode resultar de golos falhados à boca da baliza, de "frangos" em momentos relevantes ou de expulsões prematuras, que prejudicam o esforço dos colegas.

Na verdade, quem está dentro das quatro linhas está sempre a tomar decisões. Por isso, tem uma de duas hipóteses: ou acerta ou erra. Num ou noutro caso, influencia o resultado e a competição.

Esta premissa é extensível aos treinadores (e respetivo staff técnico), que estão do lado de fora.
Também eles influenciam campeonatos pela positiva e pela negativa: são determinantes na vitória, quando, por exemplo, preparam bem a equipa e constroem a melhor estratégia para determinado adversário; são determinantes na derrota quando, por exemplo, falham nessa missão, erram nas substituições, na abordagem tática ou na forma como (não) motivam as suas tropas.

Custe o que custar, doa a quem doer, o futebol é isto mesmo.
Uma panóplia de gente empenhada, focada e bem intencionada, a fazer o melhor que sabe e que pode, dentro de condições de exigência e de análise muito complexas.

Por cá (mas não só) esta verdade universal, muito simples de perceber e fácil de aceitar, continua a ser deturpada com frequência.
Por cá, há um interesse ora estratégico, ora provinciano, em atribuir a apenas uma das equipas a responsabilidade exclusiva de todo o insucesso.
Por cá, raramente há a dignidade e até a elegância de se assumir falhas próprias, ilibando terceiros, ainda que perante erros que esses cometam.
Por cá, raramente há a honestidade de assumir que foram os nossos erros a determinar parte determinante do fracasso desportivo.

Essa falta de classe e de grandiosidade é gritante, visível e recorrente.
Percebeu-se, há muito, que o ruído histérico, potenciando por decibéis ensurdecedores pode hostilizar, condicionar e manipular. Pode perturbar.

Percebeu-se que esse jogo fora do jogo influencia a opinião do adepto, do jornalista e do comentador. O que me faz confusão (e não deve ser só a mim) é que todos sabemos disso e, mesmo assim, nada muda.

Todos sabemos que este é um expediente recorrente, usado em função do momento e do contexto desportivo. É assim há décadas. O que varia (?) são os protagonistas, os meio de difusão e a forma como a propaganda é abordada.

Porquê?
Bem, em parte, porque a cultura desportiva, em Portugal, é quase nula. E, como é quase nula, aceita. Devora tudo isto. Nós adoramos uma boa novela mexicana. Dizem que é da latinidade. Eu digo que é da falta de educação e de formação pessoal. Da falta de cultura.
Mas a verdadeira razão pela qual tudo isto continua a proliferar é, basicamente, porque é permitido.

Muito do lixo que lemos, vemos e ouvimos só existe porque há todo um contexto regulamentar, legislativo e judicial demasiado lentos, demasiado pesados, demasiado burocráticos e demasiado brandos. A este propósito, não esqueçamos: a perceção pública que existe quanto à impunidade e à falta de pulso relativamente a estas questões é esmagadora. Confrangedora até.

Este cenário bélico, perfeitamente evitável, não pode no entanto camuflar uma ou duas verdades, que convém aceitarmos com humildade e sentido crítico:

- As arbitragens não têm estado tão bem quanto era expetável; há alguma falta de experiência e qualidade no quadro atual; e nem todos os árbitros parecem revelar sensibilidade para as novas funções (videoarbitragem). Estes são problemas que a estrutura deve saber resolver, percebendo que a qualidade da sua equipa é determinante na qualidade do espetáculo.

Agora cabe ao futebol resolver tudo o resto. Porque o resto é tão mauzinho, tão mauzinho que não pode continuar assim.