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Os pozinhos de perlimpimpim de Klopp: “Podes falar sobre espírito, ou podes vivê-lo”

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre o Liverpool - Barcelona, e sobre um treinador mágico que consegue elevar o potencial dos jogadores e levá-los a fazer coisas aparentemente impossíveis

Ana Bispo Ramires

JOSEP LAGO

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Quando todas as emoções pareciam já esgotadas no estádio de Anfield, na noite onde o impensável se transformou em realidade (muito dura para o Barcelona), estas viriam a agigantar-se ainda mais quando toda a plateia de adeptos se ergueu para entoar a uma só voz com os seus jogadores, a musica emblema do clube: “You’ll Never Walk Alone”.

Desprovida dos seus nomes mais sonantes (Firmino e Salah) e com uma herculiana tarefa pela frente de, não só enfrentar uma das equipas mais temidas e respeitadas da competição (seja pelo seu valor de conjunto ou pelas suas individualidades), mas ainda vencê-la por uma diferença superior a 3 golos, a equipa de Klopp teria, em boa verdade, todas as estatísticas a seu desfavor.

Ou talvez não.

Possivelmente, nunca iremos saber as verdadeiras razões que levaram uma equipa a blindar-se de tal forma que se transformou em impenetrável, enquanto uma outra, aparentemente com o “futuro assegurado”, viria a fragmentar-se, colapsando por completo no quarto golo, como tão bem observou Mourinho no seu comentário: “De repente, parecia uma equipa de sub-14 que não entendia as ações mais básicas”.

Mas podemos sempre levantar algumas hipóteses...

Deficiente gestão de adversidade inesperada?
O golo sofrido aos sete minutos deveria ter sido o primeiro sinal de alerta a ser considerado. Aos 54 minutos a mensagem tornou-se mais clara e, aos 56 minutos, possivelmente era já tarde para conseguir reunir a capacidade anímica necessária para reagir.

Aos 79 minutos, o apanha-bolas do Liverpool protagoniza aquela que viria a ser uma das imagens mais fortes de como (a vontade )“o todo pode ser maior que a soma das partes” (face às individualidades da “gigante” Barcelona), mostrando que, por mais pequena seja a ação ou a responsabilidade de alguém envolvido, o compromisso com a mesma pode determinar o sucesso do todo.

Curiosamente (ou não), até a própria “comemoração” antecipada pelo Barcelona (resultante da descompressão de uma folgada vitoria por 3-0 na primeira volta – natural e expectável, mas que cujos impactos deveriam ter sido equacionados), viria a traduzir-se num baixo nível de ativação (com claro prejuízo do compromisso com a tarefa), dispersão e dificuldade de responder de imediato aos primeiros indicadores de que o adversário não se apresentava “vencido”, mesmo sem as suas “figuras de proa”.

Os “pozinhos de perlimpimpim” de Klopp

Walk on, walk on With hope in your heart And you'll never walk alone
You'll never walk alone

A mestria de um grande líder emerge na adversidade e, a prestação do Liverpool, foi uma inequívoca prova disso mesmo. A disputa, em casa, de uma segunda mão da meia final da Liga dos Campeões com um pesado resultado prévio e sem a participação dos seus “timoneiros” teria, à partida, um desfecho previsivelmente negativo.

Em boa verdade, num vislumbre rápido, a inevitabilidade de uma derrota neste enquadramento poderia até ser aceite sem grandes críticas – afinal, pareciam reunidas todas as adversidades num só jogo.

Contudo, curiosamente, as pessoas tendem a agregar-se e a blindar-se tão mais eficientemente, quanto maior é a adversidade percebida – por esta razão, na generalidade das vezes em que uma equipa passa a ter 10 ou 9 jogadores em campo (devido a expulsões), aparentemente evidencia maior combatividade (este tipo de fenómenos encontra-se inclusivamente estudado, na medida em que se assiste a uma diluição mais eficiente dos níveis de responsabilidade individual, em prol do desempenho da equipa).

Grandes líderes aproveitam esta característica da natureza humana, envolvendo-se na facilitação da sua expressão por parte de cada um dos indivíduos, naquela que será a missão do grupo (equipa).

Explicar este tipo de fenómeno e estratégias associadas resultaria numa análise demasiado extensa, importando por isso salientar apenas que o cunho de Klopp esteve inequivocamente presente na união e capacidade de superação de uma equipa que, acreditando sempre ser possível vencer, e num exercício de profunda interdependência e confiança mútua, nos deu uma enorme lição de como nos devemos comportar em contextos de adversidade.

If you want special results, you have to feel special things and do special things together. You can speak about spirit, or you can live it.”
Jurgen Klopp