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João Paulo Vilas-Boas

João Paulo Vilas-Boas

Vogal Comissão Executiva COP

Doping? Que doping?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve João Paulo Vilas-Boas, vogal da Comissão Executiva do COP

João Paulo Vilas-Boas

© STR New / Reuters

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Desde que o desporto é desporto que padece das tormentas do doping. Até o Astérix, quando nos Jogos Olímpicos, teve as suas dificuldades com a poção mágica de Panoramix… E nada lhe era mais natural! Mas foi aos adversários que se lhes pintou a língua de preto; não foram capazes de resistir à tentação do “caminho mais curto”.

Rezam os mais proverbiais valores do desporto que todos os praticantes devem participar em igualdade de condições, não obtendo vantagens singulares por métodos não naturais. Nada a obstar, muito antes pelo contrário! E esse é o ponto. Mas o que são métodos naturais? E não naturais? A ingestão de substâncias endógenas é menos natural do que estimular a produção dessas mesmas substâncias pelo treino, ou pelas circunstâncias geográficas onde se viva (ou se simula que viva), por exemplo? Auto transfundir o sangue do próprio sujeito, devidamente preservado, depois de, naturalmente, ter aumentado o volume figurado na decorrência de estadas de treino em altitude, é mais censurável do que, depois de induzir o mesmo fenómeno, descer precipitadamente para competir na janela oportuna de tempo? E que dizer dos estimulantes? Durante anos a cafeína foi uma dor de cabeça para muitos no desporto; hoje está despenalizada. Porquê? Não existe evidência de que potencia a performance? E se sim, porque banimos outros estimulantes, como as anfetaminas, por exemplo?

Para o candidato a médico se preparar para o exame final não tem problema (mesmo se, depois, compete com os seus pares por uma colocação em condições “não naturais”), mas será crime desportivo se, mais tarde, prescrever a mesma substância a um atleta. Na sociedade moderna, industrializada, o uso de estimulantes é frequente e aceite por muitos; o mesmo se passa com os seus opostos: os tranquilizantes. Mas no desporto estes são banidos em várias modalidades. Não peca por prática amoral o candidato que toma um betabloqueador ou um ansiolítico antes de uma entrevista de emprego, nem um conferencista que o usa para minimizar os trémulos do ponteiro multimédia, se acalmar e aclarar ideias. Mas o que é verdade é que um e outro acabam por estar “em competição” em condições “artificiais”. Tal como o atirador de pistola, dopado e proscrito, numa competição oficial.

Mas afastemo-nos destes territórios mais comuns e perscrutemos outros, aparentemente mais surpreendentes. Ter acesso a equipamentos desportivos de melhor qualidade do que os seus adversários e fazê-lo consciente, intencional e estrategicamente, não é exatamente o mesmo? Conduzir uma bicicleta “especial” com ergonomia personalizada, ou vestir um fato de banho que esculpe seletivamente a hidrodinâmica do nadador, daquele em particular, melhor que a do seu competidor direto, não será pão da mesma massa? Dir-me-ão que não, que não coloca em risco saúde e integridade do sujeito… Mas quem diz que estados de ansiedade pré e peri-competitiva severos não são deletérios para o equilíbrio emocional e para a saúde do sujeito?

Permitam-me que convoque mais uns quantos fantasmas. Como comparamos, neste contexto ético, desportistas em duas condições bem distintas: um bem treinado e enquadrado, com uma excelente, completa e bem formada equipa técnica e outro, pobre “naturista”, treinado pelo “mister” lá da terra e enquadrado em todas as demais dimensões relevantes pelo “bruxo” do lugar? Será que o bom ou mau enquadramento técnico é uma condição “natural”, inerente a cada sujeito? Pergunto-me se dispomos de valores bem definidos para as “concentrações” destes ingredientes do sucesso...