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A Seleção é a família alargada de Fernando Santos

A psicóloga de desporto e performance Ana Bispo Ramires escreve sobre os laços que uniram os jogadores ao selecionador e que são a chave para o triunfo na Liga das Nações

Ana Bispo Ramires

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A presença de laços familiares estáveis e de suporte traduzem-se, invariavelmente, num enorme conjunto de benefícios para o sujeito e para o agregado – o maior dos quais, o da Saúde Mental.

Mas não só.

De facto, inúmeros estudos tem demonstrado a relação entre a solidez dos laços familiares e sua repercussão (positiva ou negativa) no sentido de companheirismo, de suporte emocional (muitas vezes, financeiro), saúde física e bem-estar psicológico. Neste sentido, evidenciaram-se, de igual forma, a redução de stress, a redução da tensão alta e um aumento na função imunitária em indivíduos com indicadores mais elevados de integração e suporte social.

Em boa verdade, somos mais saudáveis física e psicologicamente, denotando maiores níveis de confiança, resiliência e capacidade de persistir (e vingar) em contextos “hostis” (de adversidade).

Naturalmente que, uma estrutura familiar onde os denominadores comuns (longitudinalmente) são a estabilidade e o suporte provido tem, no seu trajeto, também um enorme conjunto de adversidades (e crises) e potenciais conflitos como todas as outras tipologias de estruturas familiares – não é, por isso, daqui que surge a sua diferenciação.

Diferenciam-se sim, pela qualidade dos afetos e pela criação de um “campo de segurança emocional”, onde a crítica construtiva co-habita com o incentivo e a confiança nos recursos individuais de cada um ou na capacidade da “família” se re-organizar para, em conjunto, suprir a incapacidade momentânea de um dos seus elementos.

Assiste-se, por isso, a enorme compromisso individual (consigo próprio e com o outro) e sentido de “comunidade” (de pertença), onde a missão do “todo” (auto-perseveração) norteia as ações e propósitos individuais em momentos muito específicos (de ameaça ou crise)

A confiança e o sentido de segurança psicológica são o seu DNA.

Transfer para a Taça das Nações

À partida, pode até parecer que o que foi dito até agora nada terá a ver com a realidade vivida no passado fim de semana.
Tem tudo.

Senão vejamos:
Desde o discurso de Fernando Santos, que considera que Cristiano o vê como um pai, às palavras de Bernardo, Cristiano, Patrício ou de Danilo (que referiu que, na seleção, não existe a tradicional tensão entre “titulares” e suplentes, tendo todos uma missão comum), entre outros apontamentos pontuais, a mensagem mais presente tem sido sempre a de uma fortíssima união entre os elementos desta “família”... uma “família” que até integra, a grande generalidade dos portugueses que, adeptos ou não da modalidade, acabam por sair, ainda que indelevelmente, com os seus níveis de confiança e de orgulho nacional reforçados.

A Seleção pode, neste momento, estar por isso a atravessar uma das suas fases mais “bonitas” que se traduz numa clara maturação (e consequente validação) dos seus elementos outrora mais jovens (que agora começam a ceder esse mesmo lugar aos recém-chegados) que, agora, conseguem de forma natural atuar performances mais sólidas e consistentes junto de outros atletas com o seu talento desde há muito confirmado (Ronaldo, Bernardo, Patrício ou José Fonte, a título de mero exemplo).

Coabitam, por isso, 3 gerações distintas (quem já há muito é, quem é e quem começa a ser... “seleção”) nesta “família” que, por isso mesmo, necessita de uma claríssima missão comum e de um sentido de compromisso individual com as necessidades do momento (da equipa) – só assim se consegue cooperação e não competição entre os seus elementos.

Esta é a Missão de Fernando Santos – esta é a missão de quem, muitas vezes de forma isolada e solitária, precisa tomar decisões (com impactos individuais vários) em prol da progressão do grupo.

Esta é uma missão só possível num clima de extraordinária confiança e suporte, nomeadamente nos momentos em que os resultados não surgirem (porque os vai haver) – este será também, o tempo do líder sentir o apoio do seu grupo (mesmo que “à porta fechada”).

Este é o clima que Fernando criou e, a sua “mestria”, irá ser observada nos próximos ciclos de crescimento desta Seleção, passando inevitavelmente por saber (cirurgicamente) “regar”, nutrir e manter viva esta “chama” e este enorme “trunfo” que o sentido de “família” pode transportar para o Desporto de Alto Rendimento.

E sim, poderíamos estar a falar também do clima que um professor cria na sala de aula ou que um gestor cria na sua empresa – as múltiplas possibilidades de transferência ficam, agora, do lado do leitor.