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Um número mínimo de treinadoras

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Elisabete Jacinto, da Comissão Mulheres e Desporto do COP

Elisabete Jacinto

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A propósito da comemoração do Dia da Mulher, o Comité Olímpico de Portugal prestou homenagem a onze treinadoras de modalidades distintas e com diferentes níveis de intervenção na formação de atletas. Tratou-se de um gesto simbólico, mas revestido de uma extrema importância nos dias que correm.

Vivemos uma época onde é cada vez maior a consciência da grande desigualdade vivida por ambos os géneros na sociedade, assim como da necessidade de tomar medidas que a minimizem. Acreditamos firmemente que o desporto é uma das mais importantes ferramentas para a promoção da igualdade de género e para o empoderamento das raparigas e mulheres embora, também aqui, essa desigualdade continue a ser uma realidade.

A nível internacional constatou-se ser necessário provocar, de uma forma objetiva e concreta, o aumento da participação feminina na área do desporto. A Comissão Europeia no seu documento “Igualdade de Género no Desporto - proposta de acções estratégicas 2014-2020”, no que se refere à área do treino desportivo, desafiou todas as organizações desportivas nacionais e internacionais a desenvolverem um conjunto de medidas que permitissem atingir, em 2020, um valor mínimo de 40% de mulheres e homens como treinadores e um mínimo de 30% de mulheres e homens treinadores de equipas nacionais.

Contudo, em Portugal, segundo os valores publicados pelo Instituto Português do Desporto e Juventude, em 2017 o número de treinadoras limitava-se a 12,6%, sendo, estranhamente, um dos valores mais baixos verificados nos últimos quatro anos. Ao contrário daquilo que se pretende, este valor não só é extremamente baixo como tem vindo a diminuir desde 2015… o que se torna incompreensível!

É, pois, muito importante tomar consciência de que só através de medidas práticas e objetivas se conseguirá incentivar potenciais treinadoras e ver a sua representação aumentar. É necessário passar da teoria à prática. Torna-se urgente atuar.

É importante fazer algo para inverter uma tendência que vai reforçando a exclusão das mulheres das atividades desportivas. Contudo, se ficarmos todos à espera que o Estado, as federações ou os clubes atuem… provavelmente esta tão necessária mudança nunca acontecerá! Nada mudará se ficarmos à espera que os outros mudem, que os outros façam. Cada um de nós é agente de mudança, cada um de nós tem a sua área de intervenção e, por mais pequena que seja, é por aí que devemos começar.

Devemos começar por repensar a forma como educamos os nossos filhos, por questionar que terminologia utilizamos quando nos referimos aos desportistas e às desportistas, o que escrevemos nos jornais sobre elas e sobre eles. Analisemos como nós próprios encaramos a participação das mulheres em determinadas modalidades desportivas, questionemos como nos sentimos e o que pensamos sobre a sua participação nas diferentes áreas do desporto. Façamo-lo pondo de lado preconceitos e estereótipos.

Pergunte-se o que acontecerá se, de alguma forma, contribuirmos para que o número de treinadoras aumente? Com mais treinadoras haverá provavelmente mais crianças na prática das modalidades, pois as mulheres são identificadas como educadoras e mais facilmente atrairão a confiança dos pais. Inspirarão uma maior segurança no ambiente desportivo e constituirão um exemplo inspirador para as jovens… as jovens precisam de exemplos! Terão elas próprias mais conhecimentos sobre a especificidade das mulheres na prática do desporto o que facilitará a integração das adolescentes.

É para nós evidente que provocar de uma forma intencional o aumento do número de treinadoras é contribuir para o aumento da taxa de feminização do desporto e é por aí que tudo deve começar.