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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

O papel da Federação no percurso de um jovem jogador (a propósito do crescimento de João Félix)

Os jovens jogadores devem jogar nas seleções principais ou nas seleções do respetivo escalão? O treinador Blessing Lumueno responde, exemplificando com os casos de João Félix, Bernardo Silva, William Carvalho, João Mário e Dani Ceballos

Blessing Lumueno

Gualter Fatia

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A sociedade em que vivemos habitua-nos desde tenra idade a normalizar os nossos comportamentos. As nossas ações, das mais simples às mais complexas (como a nossa forma de falar, de vestir, de andar, de rir, as nossas expressões corporais e até a nossa forma de pensar), sofrem uma influência tremenda do meio em que estamos inseridos. Essa pressão social, que é exercida sobre nós desde que somos crianças, leva-nos demasiadas vezes a sentir necessidade de arrumar tudo em gavetas, de agrupar sem ter de acordo a especificidade, de querer transformar tudo em coisas ordinárias que se podem amontoar em cima umas das outras. Um pouco como fazemos quando arrumamos um baralho onde cada carta de espadas, de paus, de copas ou de ouros só tem espaço junto aos seus pares.

Claro que este mecanismo que nos é imposto pela interação a que somos obrigados com outros seres humanos tem a sua importância e o seu espaço nos nossos processos cognitivos; mas, quando deixámos a preguiça de lado (que também tem muita importância para a nossa vitalidade), somos capazes de nos opor a esta tendência opressora de raciocínios originais.

Isto vem ao caso da discussão sobre os critérios que se devem utilizar na convocatória dos jogadores para as fases finais de competições para as seleções jovens.

Há uns anos, no Europeu de sub-21 de 2015, critiquei a escolha de William Carvalho, de João Mário e de Bernardo Silva para representar o nosso país nesse torneio. A nossa seleção acabou por perder a final para a Suécia, e ficaram todos com a dúvida na cabeça: “Se eles eram assim tão bons, assim tão melhores do que os outros, como este gajo dizia, por que raio é que estando os três a jogar ao mesmo tempo não trucidámos e trouxemos o caneco para Portugal?” No mais recente Mundial de sub-20, a não convocatória de João Félix trouxe de volta a mesma controvérsia. Desta vez eu estava de acordo com a decisão da Federação, mantendo a mesma linha de pensamento que na altura utilizei para justificar que William, Bernardo e João Mário ficassem a ver o Europeu pela televisão.

John Walton - EMPICS

O meu argumento não se prende apenas no facto de eles andarem a passear o seu talento numa prova que já não tem o nível adequado para que sintam muita dificuldade, para que sintam a pressão. Também não se esgota no facto de eu achar que eles iriam sair dali sem nenhum ganho assinalável. Tão pouco termina na minha leitura do estímulo ser mais adequado a outros jogadores que estão num nível de maturação futebolística diferente, com mais dificuldade do que os citados. O meu ponto é: qual é, ou qual deve ser, o papel da Federação de um país no percurso de um jogador? Para mim, o objetivo principal é dar condições para que os jogadores se tornem elementos efetivos da seleção principal. E para isso, em cada seleção, em cada convocatória, para a situação de cada jogador, há princípios de ação diferentes a ter em conta.

Olhe-se, por exemplo, para o caso dos três jogadores citados acima, que participaram no Euro sub-21. Na altura, no final da época 2014/2015, para lá da qualidade que apresentavam, todos eles tinham cimentado os seus lugares nos clubes – João Mário e William no Sporting, Bernardo no Mónaco. Os três eram titulares, já eram figuras das respetivas equipas e só por motivos de lesão, para gerir a sua condição física, e por uma ou outra nuance estratégica, estiveram de fora. Fizeram a maior parte dos jogos em que os clubes participaram como titulares, e muito raramente não entraram na convocatória. Isto é, tinham conseguido um estatuto que lhes permitiu continuarem a ser expostos na equipa principal dos seus clubes, que disputavam provas europeias, o que lhes garantiu a continuidade da sua evolução e uma aproximação mais célere daquele que é o nível que se tem na seleção principal.

João Félix é um caso muito parecido. Sendo que não teve a mesma exposição, em termos de minutos somados, em termos de jogos como titular, a chegada de Bruno Lage representou para ele o acesso à ribalta. É seguro dizer-se que sem Lage ele não teria conseguido chegar ao nível mediático que chegou, ou pelo menos que com Rui Vitória ainda haveria pessoas a dizer que o miúdo não tinha ainda demonstrado nível suficiente para ser titular no Benfica. Não só por ir entrando aos soluços e saindo aos solavancos, mas por jogar amarrado ao corredor lateral numa posição que em nada beneficia as melhores qualidades que ele tem. Assim como ainda fazem com Zivkovic, que continua sem ser aposta firme, e que rendeu na única vez que Rui Vitória lhe deu consecutivamente a estabilidade que Félix ou Rafa têm atualmente.

Se pensarmos em Florentino e em Gedson, que foram alternando a titularidade no Benfica com outros jogadores, em períodos diferentes da época, o caso muda de figura. Não só porque nenhum se estabeleceu definitivamente como titular, mas por não gozarem do estatuto que, em tão pouco tempo, os golos e as assistências deram a João Félix. Estes dois ainda têm de batalhar para conseguirem cimentar as suas posições na equipa e para que também possam ser cobiçados e reconhecidos na esfera internacional. Obviamente que, se tivesse que escolher entre Gedson e Florentino, convocaria o primeiro, por força dos momentos de confiança em que um e outro terminaram a época, e da exposição que um e outro tiveram nestes últimos meses.

NurPhoto

Neste Euro sub-21, há o caso de Dani Ceballos. O médio criativo espanhol, do Real Madrid, já leva algumas épocas na bagagem como titular do Bétis de Sevilla na La Liga. Porém, nunca se afirmou na equipa merengue, e nunca teve o espaço para mostrar o seu talento de forma regular. Sendo que é um jogador que aos 22 anos ainda não conseguiu cimentar a sua posição no clube, cabe à Federação Espanhola usar a maior arma que tem para alavancar a posição dos jovens jogadores nos respetivos clubes: protagonismo.

É dando-lhes o palco que eles não têm nas suas equipas, para que possam evidenciar o seu talento, para que sejam falados, e para que consigam até despertar o interesse de outros clubes, que as Federações melhor conseguem pressionar para que se aposte nos jovens jogadores. Quando lhes é dado o que eles não têm nas equipas (condições para expressarem as suas qualidades), está-se de forma muito direta a mandar um sinal aos clubes de que podem e devem fazer mais por aquelas individualidades. E isto, se feito com astúcia, nas seleções mais jovens e, em casos muito particulares, na seleção principal, poderá levar a que as Federações consigam um melhor cenário para os jogadores em que apostam. Isto porque o melhor cenário é ter todos os jogadores selecionados como figuras incontestáveis dos clubes onde jogam.

Não sabemos que caminhos poderiam ter seguido as carreiras de Rúben Neves e de Iuri Medeiros; mas naquela altura em que lutavam para se afirmarem nos seus clubes, em 2015, ter-lhes-ia dado muito jeito participar de forma ativa (como titulares) no Europeu de sub-21, despertando os clubes para os colocar na mesma situação em que já tinham chegado Bernardo, William e João Mário.