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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

A hora da despedida de um árbitro, que nunca será reconhecido pelo que de muito bom deu ao futebol (Duarte Gomes despede-se de João Capela)

Duarte Gomes escreve sobre o momento em que os árbitros decidem encerrar a carreira, a propósito do adeus de João Capela, que apitou durante 22 anos, 14 deles na principal Liga portuguesa

Duarte Gomes

João Capela terminou a carreira de árbitro no final da época 2018/19

Carlos Rodrigues

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Tal como acontece com os jogadores, também há um dia em que os árbitros terminam as suas carreiras. Não é, obviamente, um momento fácil mas é, como tanta coisa na vida, um momento inevitável.

Deixar de arbitrar (que pode acontecer por limite de idade, desistência, desmotivação, incompatibilidade profissional, despromoção, lesão, etc) não significa, necessariamente, abandonar a arbitragem. No entanto, qualquer que seja o motivo, o último apito encerra quase sempre uma fase de vida recheada de histórias que jamais se apagarão da memória.

Gostava que acreditassem quando vos digo que a carreira de árbitro é muito exigente. É de tal forma exigente que recrutar novos elementos para substituir os que saem é uma luta constante. Mantê-los ao longo do tempo é um pesadelo ainda maior. Claro que muitos dirão que eles são uns privilegiados: ganham bem e fazem o que gostam.

Bem... sim. É (meio) verdade.

De facto, os vinte árbitros de primeira categoria são bem remunerados. E sim. Viajam muito, conhecem novas culturas e têm uma "vida" de oportunidades, bem preenchida e compensada (para não estragar a conversa, esqueçamos, por momentos, os danos colaterais a que estão sujeitos).

Mas é importante terem em conta que a arbitragem não se resume apenas àqueles que dirigem partidas das competições profissionais. Pelo contrário: em Portugal existem cerca de quatro mil árbitros. E para esses, a vida não é tão invejável quanto isso. Estamos a falar de homens e mulheres, meninos e meninas, que nunca pisaram relvados de topo, nunca dirigiram jogos mediáticos e nunca foram bem remunerados.

Aliás, muitos deles quase que pagam para arbitrar.

Apesar da boa vontade genuína das Associações de Futebol - que se esforçam por lhes oferecer as melhores condições - muitos deles fazem quatro, cinco e até seis jogos por fim de semana. Uma loucura!

Estamos a falar, em muitos casos, de miúdos (alguns deles menores) que, em pura idade de influências, têm a coragem de escolher uma alternativa que os afasta da sombra ameaçadora da criminalidade, da toxicodependência ou do alcoolismo. Uma alternativa que em boa hora os lança para uma carreira onde os hábitos saudáveis são uma constante.

E é mesmo de coragem que se trata, porque, nos dias de hoje, iniciar uma carreira na arbitragem é um ato quase insano. A causa, em si, é de uma nobreza indescritível (não duvidem, é mesmo), mas a sua imagem, a pressão a que está sujeita e a perceção que os outros têm dela está, digamos, à vista de todos.

Simon Hofmann - UEFA

Ainda assim, há quem fique por muitos e bons anos. Há quem fique até ao dia em que tudo tem que acabar.

Foi o que aconteceu, por exemplo, ao João Capela, que como outros colegas menos conhecidos, colocou esta época um ponto final na sua carreira.

O João, que eu conheço há quase trinta anos, merece ser aqui apresentado não como o árbitro que foi mas como a pessoa, o profissional e o homem que é. O João foi das pessoas que mais vi trabalhar em prol da arbitragem. Um dos poucos que, por exemplo, mudou a sua alimentação e muitos dos seus hábitos para poder estar à altura da exigência permanente que colocava sobre si.

Deixem-me que vos diga uma coisa: era entusiasmante ver tanta entrega, dedicação e profissionalismo. O João - que um dia desceu, lutou, subiu novamente e atingiu o topo da pirâmide (Árbitro FIFA) foi sempre assim. Resiliente. Persistente. Teimoso. Todos os dias dava-nos o exemplo: era quase sempre o primeiro a chegar aos treinos e quase sempre o último a sair. Cuidava do corpo (e de qualquer sinal de lesão) com um zelo inacreditável. Estava atento a tudo, não facilitava em nada. Fisicamente era um cavalo. Uma máquina. Um autêntico bulldozer. E teoricamente uma barra. Sempre estudioso, meticuloso. Miudinho até.

O João nunca será reconhecido pelo que de muito bom entregou ao futebol durante os anos que se dedicou à arbitragem. Tal como todos os outros, será apenas lembrado pelas decisões que tomou nos jogos onde intervieram os três grandes.

Tenho a certeza que a estrutura da arbitragem (ou qualquer outra, direta ou indiretamente ligada ao futebol) saberá ter a sensatez de aproveitar a sua experiência, porque ele é, de facto, um elemento muito válido.

Sei que este texto pode chocar muita gente, o que é natural. A forma como olhamos para o mesmo fenómeno é totalmente distinta: muitos de vós tendem a afinular o filtro para os penáltis, foras de jogo e expulsões que o coração dita. Eu prefiro olhar para o profissional de mão cheia, para o ser humano fantástico, para o colega exemplar.

Uma pessoa assim merece o melhor. É isso que desejo ao João. E é isso que desejo a todos os Joãos que dedicaram parte da sua meninice, juventude e vida adulta à arbitragem.

Há os heróis de poltrona. E depois há os outros.