Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Cultura de sucesso: que significados? (a propósito de medalhas e não só)

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre a definição de sucesso no desporto

Ana Bispo Ramires

STF

Partilhar

Por estes dias, as atenções (e “parangonas” de jornais – desportivos e não só) dirigem-se para as astronómicas quantias de transferência de jogadores de futebol, as super-astronómicas verbas (escandalosas, para alguns) que os clubes direcionam para o reforço dos seus plantéis ou, para os títulos e medalhas que os atletas que se encontram em competições internacionais arrecadam em nome de cada nação.

Por outro lado, é também tempo de “comemorar” os resultados nos exames nacionais, procurar entrar nas melhores escolas/universidades ou até, em alguns setores empresariais, avaliar a progressão e métricas de sucesso (quase sempre centradas em vendas) e projetar o próximo semestre e/ou ano “competitivo”.

Uns “preparam-se” (dizem) para o Sucesso, outros “comemoram” (dizem) o Sucesso.

SUCESSO

Mas o que define o Sucesso?

Num sentido muito simplificado, sucesso prende-se com a concretização de um propósito ou objetivo. Até aqui tudo bem.

O problema começa a instalar-se quando tentamos perceber a natureza dos objetivos e propósitos e a nossa (quase) obsessiva necessidade de associar sucesso a métricas quantitativas, maioritariamente dependentes de fatores contextuais que, por mais eficiente e competente que consigamos ser, não controlamos.

Para “apimentar” esta combinação explosiva, resta ressalvar que, de uma forma quase “globalmente instalada”, vivemos numa era em que o “curto prazo” é daqui um mês, o “médio prazo” (com sorte) o próximo trimestre e o “longo prazo”, daqui a 6 meses/1 ano – o que revela uma enorme distorção da temporalidade e das etapas necessárias para TREINAR e INTEGRAR COMPORTAMENTOS de “SUCESSO” (da forma muito subjetiva que cada um o possa entender).

As métricas direcionam, claro que sim. As métricas permitem avaliar uma dada progressão, claro que sim. Mas estaremos a direcioná-las para os fatores que determinam, de facto, um processo de superação? E em que dimensões?

Se analisarmos “outros rankings” onde infelizmente nos temos vindo igualmente a destacar internacionalmente (mais sedentários, maior prevalência de AVC, maior progressão em doença oncológica, elevado índice de Burnout, prevalência elevada de fenómenos de natureza ansiogenica e depressiva – também na população desportiva), talvez fosse importante PARAR e FAZER uma REFLEXÃO SÉRIA sobre que “sucesso” é este que, de forma tão automática nos impõem ou nos impomos e que, cegamente e sem qualquer capacidade de escrutínio interno, assumimos para nós e perseguimos como se de uma “necessidade” se tratasse.

IMPLICAÇÕES PRÁTICAS

Em boa verdade, de uma forma alargada, também não as controlamos. Empresas que integrem nas suas folhas de avaliação de desempenho critérios de cooperação, entreajuda ou liderança que sejam valorizados de igual forma e peso como os de faturação... Professores que vissem espelhada na sua progressão e avaliação, para além do rendimento dos seus alunos, os valores de cooperação, compromisso e solidariedade que conseguem instalar...

Alunos que vissem as suas avaliações refletir, em igual peso e medida, valores de espírito de equipa, entreajuda e responsabilidade social ...
Tudo isto (a título de exemplo) e muito mais seria de facto um passo necessário para estarmos a criar, em boa verdade, uma “cultura de sucesso”. Não estivéssemos todos (enquanto cultura) tão “reféns” de “medalhas” que se possam mostrar e que, de uma forma muito perversa, acabam por ser a ferramenta (muitas vezes, única) de valorização pessoal (interna e externa).

É que, em termos de “medalhas”, como referiu há bem poucos dias uma das maiores referências desportivas nacionais (Telma Monteiro) quando disse: “Este bronze sabe a Ouro”. Elas começam a ter, de facto significado, quando espelham o esforço, dedicação e entrega de uma Vida (aqui sim, “longo prazo”), e não um resultado pontual.

O caminho é longo sim, mas faz-se caminhando... a partir das ações individuais de cada um e da influência que as mesmas vão tendo no contexto envolvente.

Importa dar o primeiro passo.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral)