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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Foi ele que me levou pela primeira vez ao estádio. Foi com ele que passei tardes a ouvir relatos no quintal de casa. Ele, o meu Tio Alberto

O ex-árbitro Duarte Gomes volta ao passado para recordar como - e com quem - começou a apaixonar-se pelo futebol

Duarte Gomes

Cameron Spencer

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Tenho este defeito irritante de gostar muito, mas mesmo muito de futebol.

Sou doido por bola desde que nasci. Aliás, o mais certo era já o ser desde a fase uterina, porque paixão assim não nasce quando nascemos. Nasce antes. De certeza que nasce antes.

Penso que esta paixão é o único vício que tenho. E embora a palavra "vício" não signifique nada de bom... este, confesso, é muito, muito porreiro. Oh se é!

Lembro-me de, ainda em miúdo, improvisar bolas de papel com tudo o que viesse à mão. Ou melhor, ao pé: folhas de papel aldrabadas com fita cola, berlindes, pedrinhas da rua ou qualquer coisita que encontrasse no chão (nem tinha que ser redonda).

Tudo servia para dar uns pontapés e matar o bicho.

De manhã, mal acordava e ponha os pezinhos fora da cama, chutava tudo o que estivesse entre o trajeto do meu quarto e a casa de banho. Roupas, sapatos, sei lá. Voava tudo (e voava eu depois, à frente da minha mãe e do meu pai).

Diga-se que a minha casa era o meu santuário. O meu estádio. O apartamento, que não era grande, tinha alcatifa e vasos. Imaginem! Alcatifa e vasos daqueles que têm terra de verdade lá dentro, plantas e coisas.

Ora alcatifa, vasos, Duarte e bolas de improviso não eram uma mistura feliz. Eu sei. Acreditem. Eu sei...

Quando tinha os meus seis, sete anos, já era veterano na doença. Passava horas a escrever, numa folha de papel, uma série de jogos fictícios, com resultados emocionantes e imprevisíveis. Depois ensaiava relatos de mentirinha só para ter o prazer de dizer "goooloooooooo" como se fosse um narrador de verdade. Quando estava a gritar um, interrompia(-me) de outro estádio para dizer que havia outro... e de outro ainda para falar de um penálti que tinha acabado de ser assinalado!

Era um frenesim, um festim desmesurado do meu inocente imaginário. Ia à lua e vinha de felicidade. Como era bom ser ali tudo o que não era de verdade.

Nasci no Funchal e foi pelas mãos do meu "Tio Alberto" que alimentava, ainda mais, esta loucura pela bola. O meu tio, que era uma espécie de segundo pai, era também doente por futebol. E, juntamente com o seu filho - o meu primo Paulo Sérgio - passávamos fins-de-semana inteiros naquilo. Ou a jogar, ou a ouvir relatos ou a ver jogos.

Enquanto miúdo ainda tentei dar uns pontapés a sério, mas cedo percebi que a habilidade era inferior a serrar presunto com os cotovelos. Ainda assim, não era tão mauzito dentro dos ringues, a fazer de conta que jogava futebol de cinco e tal.

Todos os sábados de manhã íamos para um campo que existia atrás da Caixa de Previdência. Passávamos horas e horas a chutar na redondinha. Eu, o meu primo, o Tio Alberto e os seus amigos. Os nossos amigos.

Aprendi ali muita coisa. Aprendi a valorizar o poder libertador do palavrão, a perceber a malandrice conveniente do "encosta e pede falta com cara de vítima" e, claro, a comprovar a dureza consistente do cimento. E como doíam aqueles trambolhões...

O meu Tio Alberto, que também adorava jogar às cartas (e passar-me a perna, porque tinha sempre melhor mão do que eu) tinha os seus defeitos - era muito teimosinho e cheio de confiança - mas era um tipo a sério. Uma pessoa boa. E, acima de tudo, uma excelente influência para mim, que era um garoto em idade de influências.

Foi ele que me levou, pela primeira vez, ao Estádio dos Barreiros. Foi com ele que vibrei ao ver, ao vivo e a cores, o primeiro dérbi da minha curta existência. Foi com ele que passei tardes a ouvir relatos no quintal lá de casa.

Foi com ele que travei lutas de mentirinha, numa espécie mista de Kung Fé com Kara Fu. Parecíamos dois tolinhos a brincar à porrada, quem sabe inspirados nos VHS do Rambo ou do Comando, que víamos vezes sem conta. Claro que eu apanhava forte e feio, porque ele era rijo que nem um touro e eu um peso plumas fraquito.

Virava-me do avesso com uma mão só. Às vezes doía, mas eu ria como quem diz "nem senti". Afinal de contas, homem que é homem não bebe leite: como a vaca. E eu comia. Que remédio.

Era assim, o meu tio.

Um ser humano multifacetado, que era também pai e irmão, amigo e colega, marido e filho. Filho a sério e filho emprestado de uma sogra doente que tratava como mãe.

A minha avó, acamada e dependente desde muito novinha, não teve um genro: teve um anjo da guarda. E foi sempre assim até ao dia em que ela finalmente desistiu de lutar e partiu para outro lugar.

Esta semana o meu Tio Alberto, ainda novo e com tanta bola para ver, decidiu fazer a mesma viagem.

A vida, tal como ele sempre a vivera - com alegria, vivacidade e liberdade - deixou de ter qualidade. E viver com pouca vida não é vida para quem sempre a viveu de verdade.

Para mim, o meu Tio Alberto não foi para lado nenhum. Está aqui, bem perto de mim, do Sérgio e da minha avó.

Está no sítio onde moram muitas das melhores memórias da minha infância. E as boas memórias nunca morrem. Nunca deixam de estar vivas. Nunca deixam de estar presentes.