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De Minsk a Tóquio: 384 dias e 8.130 quilómetros de distância. E que mais?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Pedro Roque, diretor desportivo do COP

Pedro Roque

Francois Nel

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Como balanço dos Jogos Europeus de Minsk que terminaram no passado dia 30, Portugal obteve um total de 15 medalhas, 3 de ouro, 6 de prata e 6 de bronze, em 9 disciplinas de 8 modalidades. Foram ainda conseguidos mais 18 resultados entre o 4º e o 8º lugar, correspondendo 10 deles a diplomas, que nestes Jogos vão apenas até ao 6º lugar. Estes resultados são motivo de orgulho e um marco no Desporto Português, refletindo a melhoria qualitativa em várias modalidades e o excelente espírito vivido na Missão, representando, alguns deles, verdadeiros momentos de superação.

8.130 quilómetros é a longa distância que separa Minsk de Tóquio. Mas não será só em termos geográficos que as diferenças entre os Jogos Europeus e os Jogos Olímpicos serão marcantes. Em Tóquio haverá mais atletas, mais modalidades e o nível desportivo será forçosamente superior, não só porque se trata de uma competição de caráter universal, mas também porque praticamente todos elegem esse momento como o mais importante do quadriénio.

Prevê-se que os Jogos Olímpicos de Tóquio venham a decorrer num contexto de grande complexidade. Desde logo pelas previsões climatéricas para a região em julho/agosto de 2020, onde um dos cenários mais prováveis incluirá níveis de temperatura e humidade que poderão criar condições extremas, sem paralelo na História dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Esta, aliás, é uma das principais preocupações das autoridades japonesas, que já puseram em marcha um programa com vista à minimização do impacto do calor em atletas, espetadores e todos aqueles que estarão na capital nipónica no Verão de 2020.

Depois, porque 8 horas de diferença horária e uma longa viagem de avião obrigarão a um processo adaptativo de vários dias que deverá ser devidamente programado e avaliado. Os estágios pré-olímpicos no Japão ou noutros países próximos serão a solução para que os atletas possam estar devidamente preparados para a competição, mas será decisiva a forma como serão preparados todos os pormenores de cada um desses estágios, nomeadamente em termos das condições de treino, acompanhamento, recuperação e alimentação dos atletas.

Todos estes fatores associados às habituais contingências decorrentes da realização de uns Jogos Olímpicos, onde se destaca a inabitual cobertura mediática para a maioria dos atletas, o alojamento e alimentação na Aldeia Olímpica num contexto de convivência com atletas e oficiais de outras modalidades, alguns deles verdadeiras referências e lendas vivas do Desporto mundial, exponenciam a complexidade deste contexto.

Esta complexidade pode ser percecionada como uma grande fonte de problemas ou antes, como uma grande oportunidade. Em ambientes complexos, tende a ocorrer uma maior variabilidade nos resultados, existindo uma maior probabilidade de acontecerem “surpresas”. Por tudo isto, prevê-se que os mais bem sucedidos sob ponto de vista desportivo em Tóquio venham a ser aqueles que, para além da sua excelência no plano técnico, se encontrem mais adaptados às complexas condições que venham a ocorrer nos Jogos.

O grande desafio daqueles que se propõem conseguir um resultado de exceção em Tóquio passará por preparar todos os pormenores da competição, tendo em conta os cenários mais prováveis, mas tendo igualmente soluções para outros que se venham a verificar. Para além dos fatores habituais de rendimento nas diferentes modalidades, o enfoque na preparação específica para Tóquio fará toda a diferença nas performances dos atletas. E aqui, uma abordagem científica do treino é decisiva para que os atletas possam desenvolver a capacidade adaptativa necessária para chegar a elevadas performances em Tóquio, como alguns deles o conseguiram fazer em Minsk.

No dia da Cerimónia de Encerramento em Minsk, faltavam 384 dias, pouco mais de um ano, para o início dos Jogos Olímpicos de 2020. Neste período, o controlo e avaliação do treino como base de prescrição adequada do exercício, o treino de competências psicológicas específicas, a modelação das condições de treino e competição, aproximando-as daquilo que será previsível em Tóquio, serão decisivos para a otimização da performance nessa altura. Será, por isso, fundamental o apoio das diferentes áreas científicas ligadas ao treino, na fisiologia, medicina, psicologia, nutrição, biomecânica, entre outras.

Em Minsk houve um sentimento de superação, visível nos resultados obtidos pela Missão. Mas para Tóquio será necessário ousar. E ousar não significa apenas ter um discurso mobilizador e colocar a fasquia mais alta que anteriormente. Significa fazer diferente e melhor do que já foi feito no passado, potenciando as competências e adaptações sob ponto de vista técnico e tático, físico e fisiológico, psicológico e emocional, organizando o processo de treino em função daquilo que se prevê ser decisivo na participação olímpica.

Parafraseando a grande campeã Telma Monteiro, “precisamos de ser a criança que sonha sem limites e que procura ser feliz sem medos e o adulto que conhece o processo para realizar os sonhos”. Ou não fosse esta uma grande oportunidade para demonstrar, finalmente em contexto de Jogos Olímpicos, a melhoria qualitativa do Deporto Português.