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Tóquio é já “ali”...

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Ana Bispo Ramires, psicóloga, e membro da Direção de Medicina Desportiva do COP

Ana Bispo Ramires

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No próximo dia 24 de Julho estaremos precisamente a um ano da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

Nunca 12 meses passarão tão rápido na perceção de atletas e treinadores (que anseiam, a cada oportunidade, a tão desejada qualificação) ou, se calhar, tão lento na perceção das suas famílias que, muito possivelmente, anseiam para que quatro anos de preparação (na realidade, uma vida...) possam findar no reconhecimento do esforço dedicado pelos seus entes queridos.

O ano de todas as Emoções

Para além de todos os “afinos” a que o corpo de um atleta é sujeito (do ponto de vista da sua preparação física, nutricional, técnico-tática e psico-emocional – entre tantos outros que poderiam ser aqui elencados), os quais, nos próximos 12 meses, serão muitas vezes planeados ao detalhe mais ínfimo, todo um outro conjunto de detalhes precisa ser equacionado para que a tão desejada resposta emocional (entenda-se, na “emoção certa”) possa surgir num contexto tão idiossincrático como o de Tóquio.

Em boa verdade, dentro de todo o planeamento (e cenários competitivos) não só precisam estar previstas as oportunidades de qualificação, como a experienciação de realidades que se assemelhem às que irão ser vividas em Tóquio – a título de exemplo: jet lag (8h de diferença), com previsível prejuízo da qualidade (reparadora) do sono, num cenário de muito calor e humidade.

Este é, por isso, um ano onde a atenção dos atletas se dispersará por um conjunto de variáveis que deverão ser integradas no seu processo de treino atempadamente, para que a sua performance não seja prejudicada por falta de “habituação”, inclusive emocional.

Prova atrás de prova, a ativação dos estados emocionais irá ser cada vez maior à medida que as hipóteses de qualificação se forem esgotando, pelo que, a capacitação das competências emocionais dos atletas assume, nesta fase, uma preponderância ainda maior, refletindo-se claramente na sua capacidade em transformar o seu potencial desportivo em comportamentos de sucesso.

Papel dos Treinadores

Curiosamente, sempre que se fala de otimização do processo desportivo, a conversa direciona-se quase exclusivamente ao atleta e elevação das condições do mesmo para que a “performance ótima” possa surgir?

Esquecemos, quase sempre, que o TREINADOR, enquanto LÍDER do PROCESSO, deveria ele próprio ver as suas competências ainda mais capacitadas, na medida em que será ele que irá dirigir o processo, num contexto que, seja pelas condições ambientais seja pela predominância de fenómenos emocionais de elevada ativação, se constituirá como um ENORME DESAFIO.

Serão só os atletas que sofrem de jetlag? Que vêem prejudicada a sua qualidade do sono? Ou as suas qualidades cognitivas e emocionais diminuídas se não tiverem um adequado plano nutricional, que supra as suas necessidades individuais específicas? Que necessitam de ter uma adequada preparação física para dar resposta aos efeitos cumulativos do cansaço e fadiga resultantes de uma exposição prolongada ao stress? Ou, em última análise (porque, lamentavelmente, em muitos contextos, esta ainda é “a ultima das preocupações”), que precisam de ver elevadas as suas competências psico-emocionas, através de planos especificamente direcionados para as suas necessidades individuais?

É que, em boa verdade, Tóquio é “já ali”.... mas não só para os Atletas, mas também para os seus Treinadores e, já agora, porque partilhamos todos a condição de humanidade, toda a estrutura humana que os acompanha e que tem como missão potenciar o resultado desportivo – Que, afinal, mesmo que em proporções diferentes, é DE TODOS.