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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

A vida em 13 anos, segundo Duarte Gomes: o legado da malandrice, da fatalidade ou do caráter?

Em 2006, Portugal recebeu o Europeu sub-21 e a experiência foi marcante para o ex-árbitro Duarte Gomes... mas nem todos os colegas tiveram a mesma sorte

Duarte Gomes

MIGUEL RIOPA

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Foi há treze anos que Portugal recebeu a Fase Final do Europeu de Sub-21. O norte foi o anfitrião para os oito finalistas que, com mérito, procuravam assegurar ali o título maior na categoria. Holanda, Dinamarca, Ucrânia, Itália, França, Sérvia e Montenegro (era assim na altura), Alemanha e, claro, Portugal. Seleções de topo, cheias de "ganas" e vontade de levar o troféu para casa.

A seleção de todos nós tinha o apoio avassalador dos seus adeptos e, também por isso, era uma das grandes favoritas à vitória final. As partidas jogaram-se em Águeda, Aveiro, Barcelos, Guimarães, Braga e Porto. O país deixou aí a sua habitual imagem de marca: estádios impecáveis, gente nas bancadas e uma organização de topo.

Para esses jogos foram nomeados, como árbitros principais, alguns jovens então considerados como promessas: Alon Yefet (Israel), Undiano Malenco (Espanha), Gerald Lehner (Áustria), Serge Gumienny (Bélgica), Howard Webb (Inglaterra) e Martin Hanson (Suécia). O Viktor Kassai (Hungria), o Pedro (Proença) e eu, também novatos nessa coisa da Europa dos grandes, tivemos o privilégio de sermos indicados como quarto árbitros.

O nosso estágio começou bem antes do arranque da competição, que decorreu entre 23 de maio a 4 de junho. Juntos, como uma verdadeira equipa, tivemos tempo de sobra para nos conhecermos e para partilharmos momentos que hoje revejo como memoráveis. As aulas em sala eram longas e duras, os treinos físicos de intensidade equilibrada, o briefing/debriefing dos jogos muito minucioso.

No meio de tanto trabalho, dedicação e ansiedade, também houve tempo para alguma descontração e diversão. Num desses momentos, fizemos uma peladinha (não autorizada) com os agentes da GNR, encarregues da nossa segurança. A brincadeira saíu-nos cara: apanhámos forte e feio, perdemos o jogo e levámos uma valente bronca do Comité de Arbitragem da UEFA. Mal o menos... ninguém se magoou.

Nas semanas que passámos juntos, não me recordo de ter visto ou sentido quaisquer tipo de barreiras linguísticas, competitividade exacerbada ou choques de personalidade. Éramos, de facto, um grupo coeso, com missões distintas mas objetivos comuns: atingir a excelência em campo. Fosse onde fosse, com quem quer que fosse.

Tal como alguns daqueles juízes, por aqueles palcos também desfilaram "miúdos" que se tornaram depois num caso sério do futebol mundial: Mandada, Chiellini, Flamini, Chygrynskiy, Huntelaar, Rasmussen, Stojković, Kiessling, Bacary Sagna, Montolivo, Ivanović, Tosić, Lassana Diarra... e, claro, "os nossos" João Moutinho, Nani, Hugo Almeida, Bruno Vale, Manuel Fernandes, Raúl Meireles, José Castro e tantos, tantos outros.

João Moutinho e Jeremy Toulalan no Euro sub-21 de 2006, em Portugal

João Moutinho e Jeremy Toulalan no Euro sub-21 de 2006, em Portugal

MIGUEL RIOPA

Foi uma experiência irrepetível, altamente enriquecedora e com muito nível. A história que se seguiu e que a esta distância se conta de todos nós, é igual à que seguem tantas outras. Tantas outras que crescem em função do que plantamos e colhemos, da sorte que procuramos, da oportunidade que agarramos ou do momento que desperdiçamos.

O Howard, o Kassai e o Malenco atingiram, com todo o mérito, o topo do mundo. Fizeram carreiras excecionais e arbitraram finais europeias e mundiais. São hoje referência para muitos. Seis anos depois de ter sido ali quarto árbitro, o Pedro foi considerado, com justiça, o melhor árbitro do planeta. O número 1 do mundo. 2012 foi, para ele, o ano de ouro, ao dirigir as duas maiores finais europeias (de clubes e seleções), no curto espaço de dois meses.

O Martin Hanson (que até foi o árbitro da final desse Europeu) teve, três anos depois, a infelicidade de uma vida: no ultra-decisivo "França-Irlanda", não viu a mão marota de Thierry Henry marcar o golo que qualificou os gauleses (e afastou os irlandeses) para o Mundial.

PATRIK STOLLARZ

O lance, desde então designado como a "Mão da Gália", assassinou, por completo, a promissora carreira do sueco. Sem VAR e totalmente tapado por um aglomerado de jogadores, Hanson não foi ali culpado, apenas vítima. Foi enganado.

Quanto ao enganador - jogador monstruoso e craque de outro planeta - passou impune ao ato e ficou muito feliz por vencer assim. Com batota. Violando a lei, enganando o árbitro, prejudicando gravemente os adversários (toda uma nação) e, pior, fazendo tábua rasa dos maiores valores em que deve assentar o desporto.

Há quem ache que ganhar assim é vencer.

Pior mesmo foi o que aconteceu a Gerald Lehner.

Adam Davy - EMPICS

Infeliz nas suas primeiras atuações em Portugal, foi mais cedo para casa. Dois anos depois, foi afastado dos jogos da Bundesliga (que tinha acordo com a Federação Austríaca), por falhar testes físicos consecutivos. Lehner era diabético e começou na altura a manifestar fortes limitações causadas pela doença. O austríaco, muito estimado pelos colegas e tido como um árbitro que falava "a língua dos jogadores", sucumbiu à desilusão e mergulhou num mar irreversível de ansiedade e depressão. Entregou-se à solidão, submergiu no mundo cinzento dos vícios e partiu. Partiu demasiado cedo. Lehner tinha apenas 48 anos e no seu funeral não teve um único elemento do seu Comité de Arbitragem.

Essa capacidade de esquecer, de se esconder da vergonha e de envergar a máscara de moralismo é característica dos fracos de caráter e dos pobres de espírito. Foi assim ali. É assim aqui e será assim em todos os cantinhos do globo.

Na mesma altura, Webb, Malenco, Proença e Kassai - todos seus companheiros no Euro Sub-21 - percorriam o caminho totalmente oposto: estavam felizes, com carreiras brilhantes e futuro auspicioso. Meritoriamente.

Em treze anos, a vida muda. Muda sempre e muda para todos.

Pode mudar para melhor ou, irreversivelmente, para bem pior. Depende, lá está, da qualidade e da competência, das companhias e das escolhas, do contexto e da estrelinha, disto e daquilo... Daqui a treze anos, muitos de nós já não estaremos ligados ao jogo. Ao jogo onde hoje atuamos enquanto agentes diretos e indiretos.

É importante que tenhamos isso em mente, a toda a hora. A todo o momento. Tudo na vida é efémero. Isto também. Podemos deixar o legado da malandrice (como o golo do Henry), da fatalidade (como a infelicidade do Lehner) ou do sucesso, da glória e da honra. Do caráter. Como alguns dos outros.

Escolham bem. Escolham com caráter. Um dia só fica uma história para contar. Uma história igual a esta. Igual a tantas outras. Escrevam o fim que quiserem.