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Ehhhh, what's up, Dost?

A caricata novela de Bas Dost expõe o momento frágil que se vive em Alvalade. Sem dinheiro, sem reforços extraordinários e sem parceiros estratégicos. E com um treinador que, das duas uma, é demasiado ingénuo ou aprendeu rapidamente o jogo do cinismo à portuguesa nas conferências de imprensa

Pedro Candeias

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Há um subtexto no affair Bas Dost-contra-Sporting: alguém anda a mentir e não será assim tão descabido concluir que possam todos estar a mentir. O clube, o jogador, o agente do jogador e até o treinador. Na verdade, não há mal: toda a gente o faz neste negócio desalmado onde o segredo é sobrevalorizado e consequentemente subalternizado. Na hierarquia do livro de estilos indispensáveis para o sucesso, confundir e contrainformar importa mais do que esclarecer.

Neste caso, podem encontrar-se algumas explicações, que temos de precisar no tempo.

Primeiro, comunicou-se que Bas Dost não servia ao Sporting, especificamente a este Sporting de Marcel Keizer que aparentemente não prevê um ponta-de-lança com caraterísticas de ponta-de-lança. Pelos vistos, Keizer precisa de um homem que marque golos de cabeça, com os pés, e que tenha uma estatística generosa do seu lado.

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Como Bas Dost, mas não exatamente Bas Dost, antes uma aproximação fiel a Bas Dost, quem sabe com um salário mais modesto que o de Bas Dost. Que é uma herança objetivamente pesada caída nas mãos de Frederico Varandas num ato de gestão desesperado - e demasiado otimista - do popular Sousa Cintra.

E assim se entra na comunicação, parte II: Bas Dost não só desencaixava do perfil desportivo, mas também do financeiro do Sporting que conseguiria a proeza de o vender por 9 milhões e poupar 11,8 milhões em salários por arrasto.

Um ato de gestão que a administração leonina certifica de notável e que os adeptos naturalmente não levam a bem. Soa-lhes a esquema para conseguir manter o indispensável e caríssimo Bruno Fernandes a bordo; mais do que isso, falta-lhes outra referência, pois a 20 de agosto o único substituto factual de Bas Dost é Luiz Phellype, avançado com pinta de suplente útil.

A partir daqui, a narrativa contida e controlada pelo Sporting descarrilou.

O ponto de partida foi um violento comunicado de nove pontos em que acusa um dos jogadores mais importantes da história recente do clube de deslealdade. O Sporting garantiu, ali, que Bas Dost pediu para sair, mas não aceitou ir para a China, Turquia, Rússia ou México, de onde chegaram ofertas superiores à do Eintracht Frankfurt. Que Dost também recusou, disse o Sporting, alegando exigências de última hora, vulgo dinheiro a ser endossado ao(s) agente(s) do holandês.

Horas depois, o agente refutou os argumentos leoninos e recuperou a invasão a Alcochete para provar a entrega e abnegação do cliente martirizado com uma cinturada estúpida na testa a 15 maio de 2018. E esta quarta-feira, Dost foi dispensado dos treinos sem justificação aparente que não seja a de que o homem estará mesmo de saída e provavelmente para o Eintracht de Frankfurt.

E assim se encerrará uma novela de contornos desnecessários que destapam o momento frágil que se vive em Alvalade. Sem dinheiro, sem reforços extraordinários - o melhor de todos, aparentemente, joga nos sub-23 e chama-se Gonzalo Plata - e sem parceiros estratégicos. e com um treinador que, das duas uma, é demasiado ingénuo ou aprendeu rapidamente o jogo do cinismo à portuguesa nas conferências de imprensa.

Terá de ser ele a explicar se realmente desconhecia o que se passava nas suas costas, enquanto o seu patrão acordava uma transferência para o seu ponta-de-lança predileto.

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"O jogador está magoado com o tratamento de que está a ser alvo publicamente", pode ler-se no comunicado de Gunther Neuhaus, que garante que o Sporting avisou Dost em julho que teria de sair do clube