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Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve David Rosa, ciclista olímpico

David Rosa

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Estamos já a menos de um ano dos Jogos Olímpicos e parece que ainda ontem os atletas estavam reunidos a tirar ilações do Rio de Janeiro e a planear o projeto para Tóquio 2020.

Se para a maioria dos portugueses o processo de qualificação (e os seus muitos altos e baixos) acaba por passar despercebido, para os atletas, mediante a forma de qualificação para Tóquio, posso assegurar que é um período de enorme tensão e em que tudo tem de correr bem. Mas muitas vezes não é isso que acontece. Afinal de contas, a “simples” presença nos Jogos Olímpicos já indica que se está na Elite da sua modalidade.

No meu caso, escrevi logo no início dos dois anos que demora a qualificação para a minha modalidade (BTT – Cross-Country Olímpico) que “não será certamente uma estrada alcatroada, mas sim uma dura batalha em caminhos com muitas pedras e raízes”. Escrevi isto de forma figurativa e com a consciência de quem já passou por duas qualificações olímpicas, tendo sido a primeira (Londres 2012) a estreia de Portugal a este nível. Mas estava longe prever que nos três meses seguintes ia passar por duas fraturas complicadas e que colocaram em risco não só a qualificação, que, à data, em igual período do ciclo anterior estava praticamente assegurada, mas a própria permanência na alta competição.

O meu caso não é isolado. Os atletas das modalidades ditas “amadoras” - terminologia comum mas redutora - passam por inúmeras situações que lhes podem hipotecar o objetivo Tóquio e não só. Não falo somente de lesões mas da própria estabilidade do atleta que, ano após ano, tem de rever o seu projeto desportivo em termos de apoios e se consegue (ou não) o mínimo: dedicar-se em exclusivo à modalidade. O atleta é o elo final das estruturas desportivas em que, quando algo corre mal, é a própria carreira que fica em jogo. O atleta de elite das modalidades extrafutebol (onde os salários felizmente dão para provisionar o futuro) é precário e, normalmente, o que ganha é para conseguir mais e melhores condições de treino/competição para chegar mais além.

Escrevo isto porque a sazonalidade quadrienal permite antever que uma das questões mais colocadas nos meses anteriores ao início dos Jogos Olímpicos seja: “Então e medalhas”? Acreditem: não há ninguém que se esforce tanto para as obter como os atletas nem quem fique mais frustrado quando as coisas não correm bem. Há que ter em atenção que os atletas nacionais vão contracorrente, estando na maioria dos casos em realidades desportivas e competitivas bem diferentes dos seus adversários. Quantos seguem “influencers” e não atletas Olímpicos/alta-competição? A valorização do atleta a nível social e junto de patrocinadores começa com algo tão simples quanto isto.

A minha mensagem é a seguinte: sigam os atletas das variadas modalidades, façam parte da sua caminhada e da sua luta de superação diária para que percebam o que é necessário para atingir a excelência desportiva. Em alguns casos somos brindados com medalhas, noutros com diplomas e em muitos a primeira vitória é poder alinhar à partida daquele que é o evento desportivo mais exclusivo que há. A partir daí, acredito que a questão deixe de ser “Conseguiste medalha?”, mas sim: “Superaste-te?”. Porque é isso que o atleta pode controlar no dia “D”.

Eu não sei se estarei em Tóquio ou não, mas trabalho para isso todos os dias acreditando que ainda é possível. Em qualquer um dos casos estarei sempre do lado dos atletas que lá estarão a representar o meu país, pois conheço na primeira pessoa o que significa poder vestir aquela camisola com orgulho e responsabilidade no maior evento desportivo do mundo.