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Lembrem-se do que significa estar nos Jogos Olímpicos

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve José Costa, velejador olímpico

José Costa

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De quatro em quatro anos fala-se de Jogos Olímpicos. Se só um grupo restrito de pessoas se lembra do maior evento desportivo do Mundo durante o quadriénio, menor é a população que faz ideia do que uma preparação olímpica envolve.

Em primeira análise, quem lá vai são os melhores entre os melhores nas suas modalidades, salvo raras excepções de “wild cards”, dados normalmente a países em vias de desenvolvimento. Posto isto, é preciso assumir que os participantes não só são os melhores nos respectivos países, como são igualmente os melhores do planeta em cada especialidade. Para melhor compreensão, conto um episódio na primeira pessoa:

- Estando no Rio 2016, para competir no maior palco desportivo do mundo, tive a oportunidade, juntamente com o meu companheiro de equipa Jorge Lima, de assistir a uma sessão de treino dos triplistas Susana Costa e Nelson Évora. Mesmo sabendo do altíssimo nível que estes dois atletas têm, após algum tempo a observá-los, perguntei se podia tentar a minha sorte no “triplo”. A minha intenção não era fazer igual, mas demonstrar que seria capaz de algo que os deixaria surpreendidos. Posso adiantar que não consegui sequer chegar à caixa de areia. Sim, aquela areia para que eles saltam, eu nem lá consegui chegar!

Um outro bom exercício para o leitor é imaginar quantos fins-de-semana, feriados, tolerância de ponto e datas especiais esteve sem trabalhar nos últimos quatro anos? Os atletas não têm esses dias. Treinam seja em que condições for, chuva, sol, frio ou calor, com vista à obtenção de resultados, de serem melhores do que no dia anterior. A dedicação é total para aspirar a estar entre a elite do desporto mundial.

Nós (com o Jorge) na classe 49er (vela), já garantimos o apuramento de Portugal e agora preparamos a nossa participação da melhor forma possível. Análise das intensidades e direcções de ventos, e correntes são alguns dos pontos básicos a ser estudados. O calor, a humidade, a densidade do ar, a procura do melhor material a ser usado (mastros, velas, barco), e a alimentação no local da prova são mais alguns dos factores major de uma preparação olímpica na vela. Para isso carregamos todo o material em contentores (barcos, mastros, velas, ferramentas, barco a motor), rumo ao Japão, onde serão descarregados no local do evento em 2020. Viajamos para o país do Sol Nascente sempre em consonância com outras equipas estrangeiras que nos permitem ter treino de qualidade. Deslocamo-nos de bicicleta entre a marina olímpica, o ginásio, os supermercados e onde ficamos alojados, e o nosso quotidiano é assim passado. Aproveitamos ao máximo todos os dias para recolher informação e optimizar a nossa performance.

A realidade do dia-a-dia de qualquer atleta que ambiciona uma presença olímpica é esta, melhorar a cada dia e sacrificar a vida pessoal e muitas vezes familiar. Dentro de pouco menos de um ano, quando

todos se lembrarem que estamos prestes a começar o maior evento desportivo do planeta, lembrem-se também do que significa lá estar, do trabalho e do sacrifício que estão por detrás de cada atleta, e da complexidade da sua preparação.