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O movimento #DeixaJogar

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires aborda os comportamentos parentais na formação, a propósito de uma campanha da Federação Portuguesa de Futebol

Ana Bispo Ramires

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A Federação Portuguesa de Futebol lançou o Movimento #DeixaJogar através do lançamento de um pequeno vídeo que está neste momento a correr as redes sociais em território nacional.

Um vídeo de um minuto e trinta segundos, extraordinariamente bem conseguido, onde é feita uma questão muito simples a um conjunto de crianças e jovens:

que identifiquem as coisas que OUVIRAM e que mais os MARCARAM na época passada – a este desafio, deveriam responder escrevendo essas mesmas expressões para que os seus encarregados de educação, posteriormente, pudessem ler à sua frente.

Este desafio partia do pressuposto de que as experiências desportivas vivenciadas em idades precoces, tendem a ser dificilmente esquecidas pelas crianças.

Noventa segundos de vídeo que, deixo o desafio, deveriam ser vistos por duas vezes:

- a primeira, com som, para que se possa aceder ao conteúdo verbal que, por vezes, é dirigido às crianças que se encontram no contexto desportivo (infelizmente, não só no futebol);

- a segunda, sem som, para que se possa registar a emoção que passa na expressão de olhar e no comportamento não verbal das crianças e dos seus encarregados de educação.

Uma REALIDADE que NOS ENVERGONHA.

Em boa verdade, este vídeo não traz (infelizmente) uma realidade nova.

Evidencia uma realidade já muito antiga nos palcos do desporto de formação nacional, realidade esta que, com mais de 20 anos de terreno, recordo ter observado desde o início da minha carreira, quando pude observar de muito perto, adultos frustrados a usarem o desporto onde as crianças se encontravam envolvidas para libertar a sua raiva encarcerada no seu dia-a-dia, ofendendo equipas adversárias, onde crianças da idade dos seus filhos apenas procuravam jogar e divertir-se.

Este é, já, um tema “velho”.

A importância deste vídeo e deste tipo de campanhas, perfeitamente fundamental, ACRESCENTA ROSTOS e EMOÇÕES e, por esta razão, transporta em si o “dom” de “nos tocar” – ou, em boa verdade, de tocar, pelo menos, as pessoas que, em termos de afetos e capacidade empática, conseguem manter (ainda) níveis de qualidade.

Este vídeo, de facto, envergonha qualquer adulto que possa ter qualquer tipo de participação no contexto desportivo.

Envergonha-me, por isso.

Não por achar que “os Outros” são capazes disto, mas por SABER que “Somos” capazes disto – quem protagoniza e quem, de forma negligente, nada faz quando o presencia.

Somos “isto” – Somos uma SOCIEDADE onde, afinal, o Bullying não acontece só entre pares e/ou jovens e, onde, aparentemente, até é “aceitável” e, quem sabe, até é encarado com alguma “honra” por estarmos a “defender os nossos” (os filhos, o clube ou o que quer que seja que se imagine...)

SOMOS isto - Mas podemos SER DIFERENTE.

Até porque, o vídeo em si mesmo, não traz apenas consciência sobre este tipo de fenómeno – TRAZ uma ENORME RESPONSABILIDADE para TODOS NÓS.

A Psicologia da Performance encontra-se direcionada para a otimização das competências psico-emocionais dos sujeitos (tais como liderança, motivação, capacidade de superação, desenvolvimento de esforço em contexto de frustração, confiança, entre outras), com o intuito de elevar o seu desempenho (em contexto desportivo, académico, artístico ou empresarial), qualidade de vida e bem-estar