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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Os títulos de Marcel Keizer, que apenas ajudaram a camuflar o seguinte: qual era afinal a ideia de jogo do treinador?

Qual era, afinal, a ideia de jogo do Sporting de Marcel Keizer? Até hoje, Blessing Lumueno não conseguiu perceber - e o problema é precisamente esse, independentemente dos resultados

Blessing Lumueno

Carlos Rodrigues/Getty

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O futebol tem vários monstros sagrados cheios de lugares comuns que nos habituamos a aceitar sem os perceber, sem pensar muito neles. Os títulos são um dos argumentos mais utilizados para se avaliar a competência dos treinadores, e não raras vezes levam-nos a enganos pela casualidade com que aparecem.

Por mais estúpido que possa parecer, algumas vezes, os títulos não são positivos para o futuro do clube. Podem sê-lo no presente, no imediato, mas a médio prazo podem ter um efeito nocivo pela forma como contagiam todo o ambiente que envolvem.

Ninguém no seu perfeito juízo pensaria em prescindir de um treinador campeão europeu de clubes como Di Matteo, ou de um treinador campeão em Inglaterra, numa equipa que desafiou todas a probabilidades, como Ranieri. Ninguém pensou em prescindir de José Mourinho, depois de ter sido campeão na segunda passagem pelo Chelsea, ou de um treinador bicampeão como Rui Vitória.

E a única razão para que isso não nos passe pela cabeça é o pensamento redutor que nos invade e em surdina nos diz que para ter conquistado um título “o treinador fez alguma coisa certa”. Eu concordo que é impossível ser-se campeão a fazer-se tudo mal, mas deixo três questões que raramente nos atormentam depois de uma vitória:

1) Será que as coisas boas que lhe valeram aquele título foram intencionalmente conseguidas, pensadas, e aproveitadas, ou foram fruto do acaso?

2) Será que essas coisas boas são as mais importantes para que a equipa possa ser regular na conquista, ou pelo menos, na disputa de títulos?

3) Será que as coisas boas foram assim tão importantes para aquele desfecho?

Para a maior parte de nós seria descabido pensar-se em prescindir dos serviços de um treinador que acabava de realizar a melhor época dos últimos largos anos no Sporting em termos de títulos conquistados. Foram poucos os que pensaram que os títulos não foram causais. Isto é: com a busca efémera pela entrega dos méritos a um treinador após uma grande conquista exaltam-se coisas tão tolas como a personalidade calma de Marcel Keizer como fator fundamental para que a equipa tivesse sucesso nos pontapés de penálti. Como é óbvio, Keizer tem méritos! A questão é se os méritos suplantavam as dificuldades que foi demonstrando ao longo do tempo.

Até hoje, para lá dos sistemas de jogo que foi apresentando, não percebi qual é a ideia de jogo do treinador holandês: não entendi como queria atacar, por onde. Como queria construir, e com que referências. Como preparava a chegada à área, e que serviço queria para os seus avançados. Não sei quais eram as referências de pressão, de que forma a pressão estava orientada. Não percebi quando é que era suposto baixar e juntar, quais eram os marcadores para se entrar em contenção e cobertura. Quem deveria sair na bola, quais eram as prioridades dependendo da zona onde a bola estava.

LUÍS FORRA/Lusa

Do ponto de vista tático, no detalhe, este Sporting foi um desastre - tinha uma ideia geral engraçada, mas as regularidades em campo não se viam, as ligações entre jogadores não existiam por ação do treinador, os movimentos e decisões não se repetiam. O pouco que os jogadores faziam não aparece por influência do treinador, mas sim pelo conhecimento que os jogadores têm do jogo, por força conhecimento uns dos outros.

Para além do treinador não influenciar a equipa, pelo treino, ainda escolhia peças que nos confundiam mais na análise das suas intenções para a equipa. Se fosse possível, as perguntas que devíamos agora fazer-lhe na saída eram estas:

- Mister, diga-nos, o que pretendia da equipa afinal?
- Como é que queria atacar, como é que queria defender?
- Qual é a ligação entre a forma de atacar e defender com os jogadores que colocava em campo?

Claro que a culpa do treinador não morre sozinha: há um presidente e uma direção que não faz uma gestão equilibrada da vitórias, há uma massa adepta que exige mais do que aquilo que o clube pode dar de momento, e há jogadores com um nível baixo em comparação com as equipas rivais.

Ainda assim, e apesar de ter sido nos últimos anos o treinador que mais títulos venceu na mesma temporada, Marcel Keizer pouco fez no treino para apresentar em campo uma equipa mais próxima do sucesso. E os títulos que conquistou apenas ajudaram a camuflar as dificuldades da equipa, a exaltar as expetativas da direção, do seu presidente e dos seus adeptos, por não terem sido analisados com a mesma minúcia das derrotas.

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