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Nuno Amado

Nuno Amado

Professor universitário

Opiniões generalizadas e jogadores sobrevalorizados: o exemplo de Raheem Sterling, que às vezes pouco mais é do que uma barata tonta

"A opinião que temos é quase sempre a opinião que o nosso vizinho tem", escreve Nuno Amado, antes de explicar por que razão Raheem Sterling, que já marcou seis golos em cinco jogos neste início de época, parece "uma barata tonta" quando entra no corredor central e só oferece ao jogo do Manchester City um aspeto muito específico - à semelhança do que acontece com Moussa Marega no FC Porto

Nuno Amado

Dan Mullan

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É pouco frequente ouvir dizer, e muitos parecem ter vergonha em assumi-lo, que a inteligência média da espécie, mesmo naqueles lugares do mundo onde os índices de alfabetização são mais elevados e as novas gerações tendem a completar a escolaridade, não é muito diferente daquilo a que geralmente se chama estupidez. Mas a verdade é que a maioria das pessoas é, a respeito dos mais diversos assuntos, muito preguiçosa. A opinião que temos é quase sempre a opinião que o nosso vizinho tem, ou a opinião contrária à dele, apenas porque não gostamos particularmente do nosso vizinho ou apenas porque sentimos a necessidade de ter opiniões diferentes daquelas que os outros têm.

Claro está que, quando dois vizinhos têm a mesma opinião, é mais difícil formar uma opinião contrária. É sempre mais difícil sustentar opiniões diferentes quando do outro lado da contenda se encontram duas pessoas e não uma. E mais o é se, em vez de dois forem três, quatro, dez, todo o quarteirão, o bairro inteiro, a cidade em que vivemos. Quando muita gente defende a mesma opinião, as pessoas tendem a adoptar essa opinião para si mesmas. A respeito das certezas que possuímos, a inferioridade numérica é muito mais poderosa do que a lógica. A História das Religiões assim o demonstra. A maioria das pessoas que acredita que o aquecimento global se deve essencialmente a causas humanas acredita nisso apenas porque a comunidade científica o defende, de um modo geral, e, mais importante do que isso, apenas porque a maioria das pessoas é nisso que acredita (nem a certificação científica pesaria, se a maioria das pessoas, por qualquer motivo, acreditasse que isso não era verdade).

As crenças, mesmo aquelas mais consensuais, baseiam-se na maior parte dos casos nesse critério esplêndido que é o haver mais gente a partilhá-las. É por isso que aqueles que não acreditam que o aquecimento global se deve a causas humanas não são diferentes dos primeiros. A crença destes últimos, contrária à da maioria, é tão mais válida quanto mais gente houver que a partilhe. No que diz respeito a crenças, e por isso mesmo a opiniões, somos todos bastante estúpidos.

Como em todos os outros assuntos, também no futebol é a opinião pública que estabelece a lei. Um exemplo muito interessante, e que merecia uma reflexão séria, é o caso daquelas faltas assinaladas junto a uma das extremidades do campo. Quando um atacante fica encurralado junto à linha de fundo e um defesa que procura tirar-lhe a bola o derruba, os árbitros raramente marcam falta. A menos que o defesa use de força em excesso ou o derrube de forma ostensiva, a tendência é deixar jogar. O oposto acontece quando quem fica encurralado no mesmo local é um defesa e quem lhe procura tirar a bola é um atacante.

Geralmente, o mínimo toque do atacante no defesa é suficiente para que o árbitro conceda a falta. Não tenho a certeza daquilo que originou esta dualidade de critérios evidente, que afecta todos os árbitros sem uma única excepção, mas acredito que tenha a ver com um princípio compensatório qualquer (imagino que se tenha começado a ajuizar os lances de modo diferente para compensar, por exemplo, as diferenças técnicas evidentes entre atacantes e defesas). Daquilo que tenho a certeza é de que os árbitros agem todos dessa forma hoje em dia apenas porque todos os outros árbitros também o fazem. Há um acordo tácito entre os homens do apito, partilhado entre eles sem que eles próprios se apercebam disso, para que se apliquem critérios diferentes nessas duas situações. As opiniões generalizadas, como aquela que subjaz à avaliação desse tipo de lances, têm a força duma lei. E a menos que se decrete em sentido contrário, forçando os árbitros a serem mais criteriosos, tal lei continuará a prevalecer.

Mike Hewitt

Este tipo de opiniões generalizadas é também muito evidente em juízos acerca do valor de um jogador. Como a opinião pública tende a dispensar a argumentação excessiva e a apoiar-se nas evidências mais simples, é normal que esses juízos de valor se reduzam geralmente a relatórios de rendimento. Quando a opinião pública avalia um jogador, raramente considera o modo como esse jogador evoluiu ao longo da sua carreira ou o que ele poderia fazer noutro contexto. Tem em consideração as coisas que fez nos últimos tempos, quase sempre só as que acha mais relevantes (golos, assistências, desarmes, quilómetros percorridos, número de jogos, etc.) e acredita que essas coisas espelham a real valia desse jogador.

É por isso que existem tantos jogadores subvalorizados e tantos jogadores sobrevalorizados.

A opinião pública raramente é benevolente, por exemplo, com um ponta de lança que passe duas épocas sem marcar um número considerável de golos. Ora, o rendimento e o valor não são a mesma coisa. É aliás possível que jogadores com rendimentos elevados sejam mais fracos do que jogadores com rendimentos menores. Tudo depende do contexto. O exemplo fácil seria o de Moussa Marega, que facilmente passaria despercebido em qualquer equipa da distrital e que, dado o protagonismo que tem no modelo particular de Sérgio Conceição no Porto, consegue apresentar rendimento na primeira Liga.

Tendemos a acreditar que quem rende num contexto competitivo superior rende de certeza absoluta num contexto competitivo inferior. Mas o rendimento de um jogador não depende apenas do contexto competitivo. E é essencialmente por isso, por depender também do modelo de jogo em que está inserido, daquilo que lhe é pedido, da confiança que é depositada nele, de momentos de forma e de momentos anímicos e, não raro, de opiniões generalizas muito redutoras, que não levam em consideração uma série de coisas, que o rendimento de um jogador não coincide com o seu real valor.

MIGUEL RIOPA

Para a maioria dos que acompanham o futebol actual, Raheem Sterling é, nos dias que correm, indiscutivelmente um jogador de classe mundial. Sem grandes surpresas, tal opinião baseia-se essencialmente nos números. A quantidade de golos marcados por Sterling nos últimos anos ao serviço do campeão inglês (e nas primeiras duas jornadas do campeonato este ano foram logo 4) chega para se achar que melhorou muito como jogador. Mais uma vez, analisa-se o rendimento sem ter em conta o contexto. Pouco interessa, para quem assim pensa, que Sterling continue a falhar golos fáceis, muitos mais até do que aqueles que marca; pouco interessa que a esmagadora maioria desses golos sejam do mesmo tipo, requerendo dele pouco mais do que o gesto técnico de encostar para a baliza; pouco interessa que esses golos ocorram na sua maioria depois de as partidas estarem resolvidas, quando o adversário já baixou os braços e os índices de concentração já não são os mesmos; pouco interessa que a equipa em que joga marque muito mais golos do que antes, e que por isso a percentagem de golos que Sterling faz, em relação ao total de golos da equipa, não seja muito diferente do que era; e pouco interessa, por fim, tudo o resto que Sterling faz em campo, e que salvo raras excepções é francamente mau.

Não há outro modo de avaliar aquilo que um jogador vale, a meu ver, que não passe por avaliar todas as decisões, com e sem bola, que esse jogador toma. E, à luz dessa análise, Sterling só melhorou num aspecto. O jovem inglês não é agora melhor finalizador do que era. Basta ver a quantidade de lances em que aparece isolado e não tem nem o discernimento nem a classe para conclui-los com eficácia. Onde de facto está mais competente é na desmarcação, sobretudo na capacidade que demonstra para aparecer em zonas centrais a finalizar. Dirá quem não concorda que é por isso que agora é melhor finalizador. Não creio que adiante muito discutir isto, mas parece-me óbvio que um bom finalizador precisa de ter outros atributos para que possa ser considerado um bom finalizador. Sterling está melhor a finalizar um certo tipo de lances, nada mais. Em tudo o resto, mantém o mesmo nível.

IAN KINGTON

Como sugeri atrás, não creio que uma análise séria de um jogador possa dispensar tudo o resto que um jogador faz em campo. Quando a equipa não tem a bola, não só mostra disponibilidade para integrar os movimentos colectivos de pressão como procura posicionar-se convenientemente, ainda que com alguns defeitos, sempre que a equipa se fecha em organização defensiva. Não desleixar tarefas defensivas não é, contudo, suficiente, sobretudo numa equipa que passa cerca de 70% do tempo com a bola em seu poder. E é quando a equipa tem a bola que os problemas de Sterling se tornam mais evidentes. Mesmo que, em termos de posicionamento de base, Sterling consiga cumprir aquilo que lhe é pedido, isso não chega.

Sempre que precisa de adequar esse posicionamento às circunstâncias específicas de cada lance, denota fragilidades. Das suas acções sem bola (estamos a falar de acções em que a equipa tem a posse de bola), as únicas que se aproveitam são as diagonais da linha para o centro, já no último terço do terreno, para corresponder a um passe entre o lateral e o central. Nesse capítulo muito particular, Sterling de facto é forte, não só porque é rápido como também porque acertou já no tempo de entrada. Pode-se dizer que, nessa acção em concreto, consegue ser uma mais valia. Mas isso é apenas uma parte ínfima das suas acções ofensivas. Sempre que a desmarcação que deve fazer não corresponde a essa acção tipificada, não só não acerta no tempo de entrada como não compreende qual o movimento mais correcto. E quando vem para o espaço central pouco mais é do que uma barata tonta; não sabe para onde ir, que espaços procurar, que linhas de passe solicitar, etc..

E com bola? Bom, com bola o desastre é completo. A quantidade de más decisões, quando Sterling tem a bola em seu poder, chega a ser confrangedora. Mesmo quando tem espaço e tempo para pensar, raramente é capaz de lobrigar a melhor decisão. A própria execução, sobretudo ao nível do passe, é muito fraca. No um para um, recurso que muitos reconhecem em Sterling, também não é extraordinário: à excepção de um ou outro lance que ganhe em velocidade, raramente consegue ludibriar um adversário a ponto de tirá-lo do caminho. Em espaços curtos, então, a sua capacidade de drible ronda o zero absoluto. Na verdade, Sterling é fraco em quase todas as acções com bola. Tirando dois ou três movimentos tipificados, e que decerto repete com afinco em treino (quando tabela com o médio interior do seu lado e vai buscar a bola nas costas do lateral, quando se movimenta em diagonal para aparecer entre o lateral e o central adversário, ou quando tem espaço para conduzir para dentro e chutar à entrada da área), não oferece nada de especial à equipa. Sterling é um exemplo perfeito daquele tipo de jogador que apresenta um rendimento elevado quando consegue repetir no jogo as duas ou três acções tipificadas para as quais se preparou especificamente em treino, mas que se eclipsa por completo quando não tem ensejo de o fazer. E estes jogadores são fáceis de parar. Por melhores que sejam os seus atributos atléticos e técnicos, as suas acções são previsíveis, pelo que é fácil a qualquer equipa trabalhar por antecipação no treino para condicioná-los. Sempre que as equipas adversárias se preparam convenientemente para defender essas duas ou três acções em que Sterling de facto é forte, o extremo do Manchester City é um jogador a menos em campo.

Tom Flathers

É verdade que Guardiola parece tolerar essa presença na equipa, não prescindindo dele. Creio no entanto que assim é por considerar que, apesar de tudo, é importante ter um jogador com as características de Sterling, que consiga uma vez por outra, aparecendo a oportunidade de um desses lances típicos, ganhar aquele espaço. Na verdade, Sterling não é o único jogador fraco do ponto de vista da decisão em quem Guardiola confia. O caso mais evidente é até o de Kyle Walker, que é opção única e exclusivamente porque Guardiola entende que a sua capacidade atlética é importante no momento da perda da bola. Ao contrário do que fazia no Tottenham, Kyle Walker não percorre o corredor lateral todo. No modelo de jogo de Guardiola, está lá para fechar por dentro, para servir essencialmente de cobertura e estar preparado para os movimentos de transição defensiva. A sua colaboração ofensiva é limitada por opção técnica. Parece-me que a utilização de Sterling se explica da mesma maneira.

Não obstante as más decisões com bola, Guardiola entende que Sterling, tal como Walker, lhe é capaz de oferecer uma coisa muito específica, e não abdica disso. Conquanto compreenda, portanto, a decisão de não prescindir de tais jogadores, não consigo deixar de pensar que um colectivo é tão mais forte quanto melhores forem as decisões dos seus jogadores. Assentar o modelo de jogo na capacidade de decisão dos jogadores e ter no onze dois ou três elementos abaixo da média nesse capítulo é profundamente contraditório, e Guardiola teria muito a ganhar se deixasse de pensar no que eles lhe podem dar em termos individuais e passasse a considerar aquilo que não lhe dão em termos colectivos.

Da mesma maneira que o Manchester City foi muito mais dominador o ano passado sempre que Gundogan ocupou a posição de Fernandinho no centro do terreno, parece-me óbvio que a equipa poderia crescer muito se em vez de Kyle Walker e Raheem Sterling tivesse jogadores de futebol a sério. Aos olhos do leitor comum, a última frase pode parecer excessiva. Mas toda e qualquer opinião que divirja duma opinião generalizada tende a parecê-lo. Que o pareça é aliás um óptimo sinal daquela estupidez de que falava no princípio, da qual todos nós padecemos porque todos nós temos vizinhos que dizem coisas que, por sua vez, têm outros vizinhos que dizem coisas, e da qual só se cura quem tiver a decência de desconfiar da vizinhança e dedicar algum tempo à perigosíssima actividade de puxar pela própria cabeça.

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