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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O que nos leva a desconfiar dos árbitros? Duarte Gomes conta a história dos patinhos feios do futebol

O futebol moderno é muito diferente do futebol antigo... menos num aspeto, escreve Duarte Gomes: "A forma como a maioria de nós ainda olha para o ladrão, para o boi preto, para o malandro do costume que só 'vem cá para nos prejudicar'"

Duarte Gomes

MIGUEL RIOPA

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Já pararam para pensar de onde vem toda esta raiva, esta desconfiança permanente sobre o trabalho dos árbitros? Sobre as suas intenções e agenda? Sobre eventuais estratégias e decisões dúbias?

De onde virá tamanha descrença e insatisfação, que subsiste aos tempos? Aos mesmos tempos que evoluíram em tanta coisa menos na forma como se olha, analisa e escrutina o trabalho dos homens do apito?

Estranho? Talvez não.

Para refletirmos um pouco sobre isto, convido-vos a uma curta viagem ao passado. Quando não havia juízes de campo a zelar - e houve momentos em que não houve - o jogo era mais... prazeroso.

As coisas aconteciam como ainda hoje acontecem nos recreios das escolas ou nas ruas lá ao pé de casa: eram os jogadores que decidiam quando era falta ou não, quando se parava ou não o jogo. Corria tudo bem menos quando não corria.

O crescente entusiasmo pelo futebol trouxe mais e mais adeptos, mais e mais interesses. A dada altura, o "pára tudo" deixou de ser suficiente. Havia mais barulho que consenso, mais discussão que bola a rolar. Havia mais zaragata que golos. Era preciso alguém que pusesse aquilo em ordem. Alguém independente, que mediasse os conflitos que cresciam em campo.

A figura do árbitro surgiu aí, nesse contexto. Como uma espécie de "desmancha-prazeres".

O árbitro era o tipo que estava completamente "fora dela" e que interrompia a diversão quando o pessoal tanto se divertia. O árbitro era o chato que mandava parar tudo quando ninguém queria parar.

Desde cedo, foram vistos assim: como os patinhos feios do futebol.

Universal History Archive

Os primeiros que surgiram nem iam para dentro de campo. Ficavam cá fora, na tribuna, sentados num palanque construído ao alto, onde davam a sua douta opinião sobre situações de jogo... mas apenas quando uma das equipas (ou as duas) iam lá reclamar.

Sim! Não ia só um lá cima! Iam todos aos mesmo tempo, bancada fora, protestar!

Dizem alguns analistas que, não raras vezes, o palanque veio abaixo, tal a fúria momentânea de jogadores, staff e adeptos.

A coisa não correu bem. E como não correu bem, decidiram mudar.

O passo seguinte foi retirá-los das bancadas e manda-los para dentro de campo, para perto das incidências, para junto das equipas.

Por esta altura, há muito que já existiam campeonatos, clubes e competições bem organizadas. O desporto-rei crescia a olhos vistos.

O árbitro passou então a estar no terreno de jogo e, para evitar confusões, passou a ter como interlocutor apenas um e não todos os jogadores. Ficou então decidido que ele falaria apenas com o representante máximo da equipa, que seria reconhecido por usar boné (cap, em inglês). O "cap" passou então a ser o capitão, tal como hoje o conhecemos (sem o boné mas com braçadeira no ombro).

A coisa continuou a não melhorar grande coisa. O jogo continuava a crescer e os problemas continuavan a aumentar.

O aumento do ruído levou ao aparecimento do apito (gritar "falta" já não era eficaz face ao volume de decibéis que vinham das bancadas) e estar sozinho deixou de ser opção: os "bandeirinhas" surgiram como uma espécie de ajuda ao homem que andava sozinho, lá dentro.

Já os cartões amarelo e vermelho (literalmente pensados a partir da cor dos semáforos) surgiram bem depois, como forma de evitar confusões nas sanções.

No célebre Mundial de 1966, um jogador argentino foi expulso por um juíz alemão e fez de conta que não percebeu. Uma questão de tradução, alegou. Demorou meia hora até ir para a rua e a confusão gigantesca (e planetária) fez soar o alarme da FIFA. Em 1970 surgiram então os cartões, pensados como uma espécie de linguagem universal, que todos viam e percebiam. Sem tradução nem explicação. Problema resolvido. Ou não.

Chegamos ao presente. Aos dias de hoje.

E lá está, mudou tanta coisa... menos a forma como a maioria de nós ainda olha para o ladrão, para o boi preto, para o malandro do costume que só "vem cá para nos prejudicar".

É cultural? Sim, claro que sim. É cultural, está enraízado há décadas e é transversal. Acontece por cá, nas Américas, em Africa. Acontece em todo o lado.

Nós, que somos dotados de uma inteligência superior (sem ironia), descobrimos como levar homens para o espaço e como fazer flutuar toneladas de aço em cima de água. Descobrimos a cura para doenças incuráveis que, no passado, dizimaram povoações, assassinando milhões. Descobrimos que o nosso planeta é uma ínfima parte de um universo infinito, bem maior do que pensamos e conhecemos... mas ainda não percebemos que os erros de quem tem que tomar decisões serão sempre inevitáveis. Porque quem toma decisões erra e acerta.

É assim com os árbitros, jogadores e treinadores, com os médicos e pilotos, com os cientistas e pensadores e com todos aqueles que têm por missão a tomada de decisão.

É cultural? Sim, claro que é... mas é mais intencional. Acontece porque é permitido. Bate quem pode em quem deixa.

Um dia isto muda. Até lá, com palanque abaixo ou com VAR em sala... está tudo igual.

Dá que pensar, não dá?