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Carrego o sonho de mudar o mundo

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve o atleta Carlos Nascimento

Carlos Nascimento

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Sou matosinhense, de uma terra no Litoral Norte de Portugal, onde o pescado é incrível e as ondas do mar irrompem pela areia fina, criando as condições ideais para o surgimento de uma paisagem única e um cheiro a maresia inconfundível.

Dizem que “filho de peixe sabe nadar”! Não sei se a analogia se aplica na perfeição… sei, no entanto, que aquela pessoa que caminha todos os dias lá por casa fala sempre: “Quando eu tinha a tua idade, corria tanto que ganhava a todos os rapazes!”. “Pois, mãe, resta saber se eles eram realmente lentos ou tu realmente rápida”, digo eu em tom de brincadeira. Bem, a verdade é que de acordo com o que podemos ler nos livros e na Internet, a velocidade tem uma componente genética. Já corri contra o meu pai – que até se safa! -, já corri contra o meu irmão – que me dava altas “coças”! –, mas contra a minha mãe nunca! Fica o desafio!

Sempre fui um miúdo calmo, de poucas aventuras, que se prendia mais aos livros da “Rua Sésamo”, da “Anita” e do “Tintin”, que o meu pai fazia questão de ler todos os santos dias (coitado!). A verdade é que, a certa altura, já eu sabia as falas de cor, conhecia o lugar de cada desenho, tudo! E foi assim que, provavelmente, aprendi a ler! Ou então, não… na minha inocência lá ficava na ilusão de que sabia ler! No entanto, deveria era conhecer tão bem aqueles balões brancos, com letrinhas todas alinhadas a saírem das bocas dos bonecos, que julgava saber ler!

Ainda com tenra idade, ingénuo e com um espírito muito pouco amadurecido, lá fui para a “Assus”, aquele que foi, durante muitos e bons anos, o meu infantário. Na “Assus” gostávamos de fazer todo o tipo de brincadeiras, mas aquelas que prendiam mais a minha atenção eram as corridas com os outros miúdos. Recordo-me de falarem do meu mau perder já que, quando algum colega me deixava para trás, eu agarrava-o quando passava por mim e acabava por lhe passar à frente. Sei que não era justo mas, sejamos sinceros, há que fazer pela vida!

Algo que trago comigo até aos dias de hoje, o meu mau perder. Curioso como não se aplica a outros jogos… não me incomoda perder a jogar cartas, por exemplo, até porque só sei jogar ao “peixinho”, que é o jogo mais básico de sempre! Não me importo de perder no Tetris! Não me importo de perder no bowling! Entre tantos outros... Mas se perco naquilo em que consigo ser relativamente bom e competitivo, como é o caso da velocidade, fico com um “melão” daqueles…

Cresci a idolatrar uma pessoa: o meu avô materno. Não sei se por sermos muito parecidos em termos de personalidade; não sei se por me dizer, sempre que nos encontrávamos, que a minha barba estava a crescer. Sei que aquela pessoa era quem eu queria ser um dia. Entre outras coisas, o meu avô ensinou-me a gostar de Atletismo!

O sonho de uma criança ou de um jovem pode mudar o mundo... pelo menos o seu próprio mundo! Entrei para a modalidade a poucos dias de fazer 14 anos, mas a admiração que nutria pelo Atletismo já vinha de há uns anos, quando me sentava, deslumbrado, a ver o Francis Obikwelu correr os 100 metros na televisão... a “dar show”, a encher-nos de orgulho!

TATYANA ZENKOVICH/EPA

Não sei se por ser a prova rainha do Atletismo, dos Jogos Olímpicos, a velocidade despertava algo de inexplicável em mim! No entanto, como todos os jovens que vivem num País onde quase nenhum desporto se valoriza além do futebol, queria ser jogador da bola. Pressionava os meus pais para ingressar num clube perto da zona onde residia, mas não os conseguia convencer. Pedi umas chuteiras e uma bola, inscreveram-me numa escola para aprender a tocar piano... não era nenhum Mozart! Creio que, por ter um irmão virtuoso na música, julgaram que conseguiria formar uma banda com ele e assemelharmo-nos aos Jackson 5. Devo dizer, honestamente, que me desinteressei rapidamente!

Sou asmático, estava a atravessar uma fase mais crítica desta doença e eis que os meus pais decidem aconselhar-se junto do meu médico, no sentido de melhorar o meu estado de saúde. Surge, então, a ideia de ir para a natação. Bem, embora tenha nascido numa terra que o mar beija todos os dias, não era nenhum peixe dentro de água. Provavelmente mais fora do que dentro… Devo assumir, ainda assim, que a minha asma melhorou bastante mas não… também não era nenhum Michael Phelps! Ainda aguentei lá uns anitos porque, sempre que saía dos treinos, tinha uma fome desmedida e, deste jeito, poderia comer mais ao jantar – ainda dizem que as crianças não são espertas!

Já em casa, a olhar para o teto, sem o piano e a natação, começo a ligar-me aos jogos eletrónicos, aos trabalhos de casa e aos “Morangos com Açúcar”. O meu pai não era lá “grande fã” da minha rotina! Até hoje não sei se era porque não gostava de morangos com açúcar ou se, efetivamente, não me queria ver de “pança para o ar” sem fazer nenhuma! Mas, como já o vi a petiscar uns morangos, inclino-me para o segundo motivo.

Num calorento dia de sol, em pleno agosto de 2008, o meu pai chega ao pé de mim, interrompe-me o episódio 24 da 5.ª temporada da série e diz: “Carlos, tu tens que fazer algo da tua vida, que puxe por ti, que te exercite, que te tire aqui de casa, tens de apanhar ar, conviver! Hoje, quando vinha do trabalho, ouvi falar na rádio de um clube

de atletismo cá no Porto, a Escola do Movimento, e gostava que fosses até lá experimentar. Podes não gostar, mas pelo menos experimentas e logo se vê!”. Numa época em que os filhos ainda ouviam e respeitavam os pais, lá acabei por aceitar.

Curiosamente, o meu treinador é professor de Educação Física e, como costumo contar a toda a gente, a minha mãe e o meu treinador deram aulas na mesma escola durante muitos anos. O professor José Silva – na altura, ainda lhe chamava Zé António (ups!) –, conhece-me quase desde que nasci e tem um filho da minha idade, o André. O André é o meu melhor amigo desde as fraldas, já que andamos no mesmo infantário, nas mesmas escolas, nas mesmas turmas. Assim, a minha mãe recorreu ao professor Zé António, que conhecia perfeitamente o clube em questão e ele levou-me, juntamente com o André, a um treino. Num género de captação ou avaliação física, percebemos que tinha características mais direcionadas para a velocidade, já que ganhava a rapazes bastante mais velhos e com alguns anos de treino.

Desta forma, começou aquela que tem sido uma jornada incrível de longos onze anos no Atletismo! No primeiro mês de treino, com umas Nike Total 90 azuis e cinzentas, com uns pitons para jogar em sintético, participei numa prova de 150 metros, na Maia. Ganho a prova, vou para casa todo satisfeito e, no dia seguinte, liga-me o professor Pedro Guimarães da Escola do Movimento a congratular-me porque tinha batido um recorde que já tinha uns vinte ou trinta anos. Ainda hoje tento perceber o porquê de apenas lhe ter dito “ok… boa!”, com algum sentimento de indiferença. Não sei se por não saber o que isso significava, ou por ser domingo de manhã e estar cheio de sono e o professor Pedro me ter acordado!!!

O gosto cresce, o sonho surge, a vontade aumenta e eis que me torno atleta. A primeira grande emoção que senti no Atletismo foi a minha primeira convocatória para representar a seleção nacional, uns meses depois de ter iniciado a prática da modalidade. Moscovo esperava-me! A terra onde a minha mãe tinha estudado durante um ano e da qual tanto me tinha falado. É nestas alturas que, embora não sendo crente, fico a pensar no porquê destas coincidências! Conseguindo a qualificação para os Jogos Olímpicos da Juventude, após os “trials” em Moscovo, parti para uma viagem de quinze horas de avião, rumo a Singapura, com uma mala carregada de equipamento de competição... mas sobretudo de energia e de sonhos! Aquela que eu considero, até hoje, a melhor experiência que alguma vez vivenciei no atletismo!

Num país tão pequeno como o nosso, com uma cultura desportiva unicamente direcionada para o futebol, existem tantos e tantos campeões noutras modalidades! Se imaginassem o talento, as conquistas, o esforço, a dedicação que há nas chamadas “modalidades amadoras” – que de amadoras não têm nada! Metade do reconhecimento, dobro da dedicação!

Comigo carrego os sonhos de “mudar” o Mundo! Sonho ir aos Jogos Olímpicos de Tóquio, sonho ver as “modalidades amadoras” passarem a “modalidades profissionais”, a terem tempo de antena, a encherem pavilhões, estádios! Sonho chegar a um país estrangeiro, onde me falem em alguém que não Cristiano Ronaldo, Figo, Eusébio e Mourinho – com todo o respeito por estas figuras que tanto deram à nação! Não sei se são sonhos de menino, mas tenho a certeza que carrego comigo a vontade de sonhar ainda mais alto e de concretizar tudo aquilo que me acompanha desde muito jovem!

Que o meu sonho seja o horizonte de todos nós! O horizonte de todos os portugueses!