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Joaquim Videira

Joaquim Videira

Atleta olímpico

Até onde nos levam os nossos sonhos?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve o atleta Joaquim Videira

Joaquim Videira

Wally McNamee

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Quando penso na primeira memória associada aos Jogos Olímpicos vem-me à lembrança o sprint final da Fernanda Ribeiro, que lhe valeu o título de campeã olímpica dos 10 000 metros, nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996.

No início do ano letivo 1996/1997, a professora de Português da minha turma desafiou-nos a redigir uma composição com o título “O meu sonho é…” e, talvez ainda inspirado pela medalha da Fernanda Ribeiro, eu referi que gostaria de me “...tornar atleta de alta competição e participar em várias provas mundiais e, é claro, nos Jogos Olímpicos”.

Não me lembro de ter escrito esta composição, mas a minha professora não esqueceu. Por isso, em 2008, já com o apuramento garantido para competir na prova de espada dos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, fui presenteado com esta relíquia durante a cerimónia de aniversário da instituição onde estudei entre os 10 anos e os 21 anos, o Instituto Militar dos Pupilos do Exército, como aluno interno.

Por ser de Viseu, passava muitos fins-de-semana nos Pupilos do Exército e, quando comecei a praticar Esgrima “mais a sério” surgiu uma necessidade que à primeira vista pode parecer pouco relevante: lavagem da roupa! Vou tentar explicar por que é que esta questão foi importante para o meu sonho.

A dada altura, surgiu a possibilidade de entregar a minha roupa civil e desportiva para ser tratada na lavandaria dos Pupilos do Exército. Quem normalmente me recebia era a dona Lucília, que perguntava sempre “como corria a Esgrima”, com um simpático sorriso. A única coisa que a dona Lucília sabia de Esgrima é que nós usamos fatos brancos. Talvez nunca tenha sequer assistido a um assalto de Esgrima, mas a forma como me recebia fazia-me sentir especial e motivava-me no meu percurso enquanto atleta.

Em 2002, conquistei a medalha de bronze no Campeonato da Europa de juniores, em espada. Na euforia do momento histórico em que tinha atingido a meia-final, liguei para a minha mãe para lhe contar o que já tinha conquistado. Do outro lado responde a minha mãe: “Olha, este fim-de-semana vou a Lisboa. Como vamos fazer para eu tratar da roupa?”. “Mãe, não estás a perceber! Eu estou em ITÁLIA, no CAMPEONATO DA EUROPA, e já conquistei uma MEDALHA!”. Do outro lado, continua a minha mãe: “OK, está bem, mas como é que vamos fazer isto da roupa?”

Tal como a dona Lucília e a minha mãe, várias pessoas foram importantes no meu percurso enquanto atleta: umas vezes alimentando o sonho de criança, outras colocando as coisas em perspetiva para que nunca esquecesse que o desporto é um meio, mas não um fim em si mesmo.

Os sonhos podem ser nossos, mas nesta viagem não estamos sozinhos. Pelo caminho, cruzamo-nos com pessoas que, mesmo não dando por isso, ajudam-nos a manter o foco e a acreditar que vamos ser capazes de concretizar os nossos sonhos.