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A enorme timidez do envolvimento de marcas no desporto feminino (e não só)

Depois dos feitos de Allyson Felix e Simone Biles, a psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre o apoio (ou a falta dele) ao desporto feminino

Ana Bispo Ramires

Patrick Smith

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Na passada semana dois dos maiores símbolos do desporto mundial quebraram recordes para muitos inimagináveis.

Até aqui, nada a estranhar, os recordes existem para serem desafios a ultrapassar, e todos os dias são “batidos”.

A singularidade passou por, serem recordes que revelam uma enorme consistência de carreira - mais de 10 anos no topo mundial, a elevar a qualidade do desporto que reprsentam e transformando-se em lendas para as gerações sucedâneas - e por terem sido alcançados por mulheres:

  • Simone Biles, que acaba de atingir o feito de ser a Atleta com mais condecorada em campeonatos do mundo (21 medalhas de ouro, mais precisamente).

  • Allyson Felix, que ultrapassou o recorde mundial (detido anteriormente por Bolt), alcançando as 12 medalhas de ouro, apenas 10 meses depois de ter sido mãe e de ter avançado com um processo com a Nike que, ao saber que estaria grávida, procurou reduzir os seus valores contratuais.

Não sendo o propósito deste artigo levantar uma temática de género – se fosse esse o caso, teríamos até casos mais “escandalosos” onde, por exemplo, a melhor atleta de futebol brasileiro (Marta), apesar de ter indicadores de rendimento muito superiores ao, considerado por muitos, melhor atleta homem (Neymar), acaba por receber cerca de 1% do vencimento deste – importa introduzir alguma reflexão.

Assim, de repente, passa-me pela cabeça: “O que será que as mulheres terão que fazer para ter a atenção das marcas e dos media?”

Possivelmente, nada. Possivelmente, manterem-se fiéis a si próprias e ao seu compromisso e profissionalismo.

O que tem que mudar mesmo são os quadros de referência de quem, em posições de decisão dentro das grandes empresas, possa vir a tomar posições de influência sobre o atual paradigma, mudando o atual curso das coisas.

E, aqui, se estivéssemos a falar “apenas” de um tema de género, a reflexão ainda se complicaria mais, na medida em que existem, de facto, muitas mulheres em cargos de poder e decisão (nas empresas e nos media) que, em boa verdade, também pouco ou nada fazem para contribuir para alterar esta realidade.

Será, então, um tema de “género” ou uma enorme incapacidade do tecido empresarial (e media) em se envolverem em projetos onde o retorno possa vir a médio-longo termo?

Atualmente, toda a cultura desportiva está virada maioritariamente para o desporto masculino – é daí que advém o retorno do valor investido mais rapidamente.

Torna-se, por isso, difícil de definir qual o denominador com mais peso: género ou, pura e simplesmente, incapacidade de projeção a médio/longo prazo?

Não recordo mesmo, ter alguma vez ouvido “empresa investe X milhões a apoiar o desenvolvimento de uma academia de formação”.

Nunca.

RONALD WITTEK

Numa análise um pouco “rude” lembro-me de uma imagem que uma vez um atleta profissional me trouxe:

“Há quem se associe ao Sucesso tipo “mexilhão” – vai agarrado.”

Adorei a imagem por ser uma excelente tradução da nossa (infeliz) realidade.

Em boa verdade, as empresas associam-se aos atletas e desporto “tipo mexilhão” – ou seja, a sua capacidade de serem parceiros e catalizadores da sua otimização é nula, aparecendo apenas quando o atleta/a modalidade já revela indicadores de sucesso de "confiança" (entenda-se: métricas de sucesso no imediato").

Não posso deixar de olhar com estranheza para este tipo de estratégia – empresas que preferem ser “o mexilhão”, em vez de serem o catalisador do sucesso dos atletas/modalidade em causa - bizarro mesmo.

Recordo, com saudades, as palavras de um CEO de uma empresa nórdica que, envolvendo-se como principal “sponsor” num projeto onde estive envolvida e, como resposta às críticas referentes à prestação das atletas em competições internacionais, no discurso de abertura desse mesmo projeto referiu:

- “No meu país, há 15 anos, as empresas uniram-se para dar uma oportunidade às atletas desta modalidade, assumindo claramente o processo de sponsorização da mesma – há 2 anos, fomos campeões olímpicos”.

Ora bem, este discurso tem 20 anos... o que quer dizer que ele se estava a referir a algo que aconteceu há 35 anos.

35 anos.

Lamentavelmente, esta é a realidade.

Lamentavelmente, não recordo interesse das empresas ou dos media na promoção de qualquer tipo de desporto e/ou atleta cujos “frutos” a recolher sejam vistos a médio ou longo prazo.

Lamentavelmente, não é sequer um tema do “desporto” mas sim da nossa Sociedade (expresso em todas as áreas: empresarial, académica e, inclusive pessoal) que precisa, urgentemente, ser alvo de uma reflexão crítica nas diferentes esferas: do ponto de vista do indivíduo, das organizações e da sociedade em geral.

Melhor dizendo, se calhar, o que falta mesmo é passarmos do “pensar” para o “fazer”.

Urge, mesmo, MUDAR.

A Psicologia da Performance encontra-se direcionada para a otimização das competências psico-emocionais dos sujeitos (tais como liderança, motivação, capacidade de superação, desenvolvimento de esforço em contexto de frustração, confiança, entre outras), com o intuito de elevar o seu desempenho (em contexto desportivo, académico, artístico ou empresarial), qualidade de vida e bem-estar.