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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

A importância das redes sociais no futebol (cada palavra, mesmo que apagada, fica registada e pode ter "efeito boomerang")

"Usar a bomba atómica em vez da pedagogia é um erro a evitar", escreve o ex-árbitro Duarte Gomes, referindo-se às redes sociais

Duarte Gomes

Alexandre Dimou

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Elas estão aí, prontas a ser utilizadas até à exaustão, por cada proeminente cidadão.

Rimou mas não era suposto.

A verdade é que as redes sociais são o grande fenómeno da atualidade. Que o digam Donald Trump, António Costa, Cristiano Ronaldo, Beyoncé, Marcelo Rebelo de Sousa e Papa Francisco, mas também muitas outras personalidades de topo, treinadores renomados, grandes empresários nacionais e internacionais, vencedores de Prémios Nobel e muitos, muitos outros.

A rendição à tecnologia é tal que até o Vaticano prepara-se para lançar, esta semana, o "e-rosario", para quem quiser rezar o terço... online.

Está tudo dito e não há volta a dar.

Nos dias de hoje, rara é a pessoa que não tenha recorrido ao Facebook, Instagram, LinkedIn, Whatsapp, Viber, Twitter, YouTube, Snapchat ou Messenger para espreitar novidades, conversar, partilhar fotos, fazer pedidos, esclarecer dúvidas, comprar e vender, investir ou, simplesmente, saber onde páram velhas amizades, amigos de longa data.

Esta forma de conexão - do mundo com o mundo - tem, como qualquer outra, vantagens e riscos. Tudo depende da forma como se utiliza. Tudo depende do que se diz, como se diz e quando se diz.

É preciso perceber que cada palavra, mesmo que apagada, fica registada e pode ter "efeito boomerang".

Mais. Será sempre interpretada da forma como cada um a vê e lê. Em dado momento, em determinado contexto, com certo sentido.

Isso "obriga" ao uso de bom senso, a cuidados mil. É fundamental que cada utilizador conheça o alcance, impacto e consequência que cada publicação ou comentário pode ter na sua vida e na vida pessoal/profissional de terceiros.

Por exemplo, um trabalhador não deve afirmar, publicamente, que o seu local de trabalho é péssimo ou que a sua entidade patronal não presta; um jogador não deve afirmar que o seu clube é mal gerido, que o seu treinador é incompetente ou que os colegas são maus profissionais; um árbitro não deve falar mal da sua estrutura ou colegas nem referir-se a situações de jogo sobre as quais está regulamentarmente proibido de falar.

No fundo, o que se espera é que exista sempre o tal equilíbrio e inteligência emocional. Há que respeitar hierarquias e não cair no precipício tentador da injúria, ofensa ou ameaça.

Mas essa "obrigação moral" não invalida algo que me parece absolutamente claro e óbvio: o direito constitucional que cada pessoa tem de expressar-se livremente.

A liberdade de expressão é o direito de cada indivíduo em dizer o que pensa. É a liberdade de transmitir as suas ideias e considerações, sem temer represálias ou censura, até porque hoje a censura não tem respaldo moral.

Importa acrescentar que a "liberdade de expressão" não é apenas um direito fundamental previsto no Art. 37º da Constituição da República Portuguesa. É também um direito humano, protegido pela "Declaração Universal dos Direitos Humanos", datada de 1948.

Ninguém pode ser proibido de ter redes sociais. Ninguém.

Ninguém pode ser impedido de utilizar Facebook ou Instagram. Ninguém pode ser impedido de estar conectado com qualquer uma destas ferramentas virtuais. Nunca, em momento algum. Essa proibição, mais ou menos camuflada de "sugestão vinculativa" ou de "conselho vigoroso", é inconstitucional a todos os níveis. Que ninguém duvide disso.

O que pode e deve ser feito é a regulamentação clara (e constitucional) de como devem ser utilizados esses instrumentos. O que pode e deve ser feito é balizar, com regras claras e legais, quando é que a liberdade de expressão de alguém termina, quando é que o "crime" começa, quando é que o pessoal confunde-se com o profissional.

A linha que separa o "laboral" do "privado" é muito ténue e está na base de grandes conflitos judiciais que existem, neste momento, em Portugal e no estrangeiro.

Há guerras que não se devem comprar, porque nem uma morosa vitória nos tribunais anularia a grande derrota estratégica que algumas dessas cruzadas encerram.

É importante que o bom senso que se exige a cada utilizador seja também extensivo a quem tem poder hierárquico, a quem dita regras, a quem toma decisões.

Usar a bomba atómica em vez da pedagogia é um erro a evitar. Digo eu.