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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Os sobredotados (a propósito do que dão e do que precisam Fábio Silva e João Félix)

O treinador Blessing Lumueno escreve sobre o jovem Fábio Silva, do FC Porto, e sobre João Félix, do Atlético de Madrid: "São sobredotados porque conseguem ver antes, e conseguem agir com uma leveza tal que faz que pareçam simples as coisas complexas que fazem"

Blessing Lumueno

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O futebol continua demasiado preso ao convencional, apesar dos milhares de exemplos que todos os anos desafiam a convenção e a lógica imposta. A forma como se olha para os jogadores, para o jogo, para a formação, para o alto rendimento, está fortemente influenciada pelos valores sociais que nos foram ensinados e pela educação a que estamos sujeitos. A construção do nosso modelo de pensamento tem uma base industrializada tão vincada que tratamos os assuntos da natureza mais simples à mais complexa sem a diferenciação que se exige.

Por força da avaliação tradicional, que oferece a melhor nota aos que memorizam melhor, repetimos preceitos e conceitos sem fazer o mínimo esforço para lutar contra a preguiça que nos foi apresentada como fórmula principal para resolver os nossos problemas.

Por isso é que o nosso sistema de ensino tem dificuldade em perceber e lidar com os sobredotados. Como é um sistema rígido, sem a abrangência necessária para acolher os que marcam diferença, estigmatiza-se aqueles miúdos especiais que podem marcar a diferença no mundo. Ou cabem na nossa linha de montagem, ou são atirados para o lixo como se tivessem defeito. Assim somos todos nós; fortemente marcados pelos valores sociais, pela educação e cultura, e com dificuldade em lidar com aqueles que têm a capacidade para ser, e para fazer bem mais e melhor do que nós. Esses miúdos que muito nos espantam e aparecem mais cedo do que os outros também existem no futebol. E apesar de a maior parte de nós pensar que todos devem subir a escada que os clubes criaram para normalizar a evolução dos jogadores, miúdos como o Fábio Silva não precisam de ter jogado nos juniores ou na equipa B para se conseguirem afirmar no mais alto nível competitivo.

Nos dias que correm, o principal papel do treinador, a sua principal qualidade, é distinguir os diferentes e tratar de lhes dar espaço para que se possam mostrar. Falo muitas vezes do exemplo de Bruno Lage: percebeu quem era o joker entre as individualidades do clube, e alterou o sistema de jogo para o colocar confortável na posição onde ele rende mais. Na posição de avançado centro, e com a liberdade para se movimentar em largura e profundidade, João Félix recebia o serviço certo dos colegas para que se pudesse evidenciar. E tendo ele conseguido mostrar todo o seu valor em tão pouco tempo, catapultou a equipa para um nível exibicional superior ao que seria de prever no modelo de jogo do seu treinador. Lage repetiu que foram os jogadores a fazer dele treinador – hoje estamos em condições de dizer que João Félix colocou a expectativas sobre o valor do treinador noutro patamar.

Isto para que se possa perceber que, apesar da desconfiança que todos possam ter pela idade, há jogadores que merecem que o treinador crie condições e mude convicções para os integrar na sua equipa. Há diferenças claras entre João Félix e Fábio Silva: o avançado do Atl. Madrid mais exuberante nos movimentos e nas ações técnicas, mais potente também, e o do FC do Porto mais subtil na forma como resolve os problemas do jogo. Mas, são semelhantes nas principais qualidades que os distinguem dos demais – são tecnicamente muito evoluídos, e são superinteligentes na forma de resolver os problemas do jogo. São sobredotados porque conseguem ver antes, e conseguem agir com uma leveza tal que faz que pareçam simples as coisas complexas que fazem.

Veja alguns lances de Fábio Silva na seleção sub-19 portuguesa

Como se percebe pelo vídeo, o que Fábio faz neste escalão não é nada que não consiga fazer no escalão acima. E é isso, e sobretudo isso, que me dá este grau de certeza do seu valor mesmo a jogar contra graúdos. Ele usa, fundamentalmente, o intelecto e a capacidade técnica para resolver os constrangimentos que encontrou. Não há nenhuma diferença física que possa colocar em causa o que fez, porque eliminou o problema evitando o duelo contra os seus adversários. Viu antes, viu melhor, e com um toque fez o que a esmagadora maioria não faria em 3.

A nova vaga de treinadores acredita que os jogadores devem ser tudo aquilo que os treinadores exigem ainda que percam a sua identidade, mas são esses os mesmos treinadores que não admitem que o jogador salte fora da identidade da equipa para dar um pouco mais de si ao jogo. É um jogo coletivo, sim. Mas são as individualidades que marcam a diferença, e a situação é completamente diferente quando a bola chega aos pés do Marega ou do Fábio Silva. Os treinadores também acreditam que a organização da sua equipa do ponto de vista ofensivo termina quando a equipa entra no último terço, e descuram por isso relações e interações tão importantes para que os jogadores sejam capazes de pensar mais depressa do que os outros, e furar as organizações defensivas cerradas que hoje enfrentam. Perdem por isso a possibilidade de, dando soluções coletivas (assumindo que globalmente as equipas defendem melhor do que no passado), dar conforto na maior zona de stress que existe: os últimos 30 metros.

Fábio Silva é daqueles jogadores por quem vale a pena mudar. A quem vale a pena dar um conforto diferente, e fazer com que os colegas o procurem por forma a que ele possa mostrar o que de melhor pode dar ao jogo. Não é com corridas de 40 metros, nem tão pouco com bolas lançadas pelo ar para disputar com os defesas que ele se vai notabilizar. Assim como outros criativos, ele precisa da bola no chão e dos movimentos dos colegas para conseguir chegar mais longe. Nos dias que correm, tão rara é essa qualidade, Fábio Silva apenas precisa de um treinador diferenciado e que entenda o essencial: o importante no futebol não é ganhar, mas sim o que fazes para aproximar a tua equipa do sucesso.