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Jorge Lima

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Atleta olímpico

O tamanho de um sonho

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Jorge Lima, velejador olímpico

Jorge Lima

Ezra Shaw

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Qual é a força de um sonho?

Recentemente descobri que o meu sonho estava datado.

Este sonho tem, pelo menos, vinte e seis anos.

No mês passado, ao percorrer cassetes antigas, descobri uma entrevista minha na televisão. Ali, com os meus doze anos, comunicava um sonho a todo o país: ir aos Jogos Olímpicos.

Transmitia este sonho aos portugueses. A todos aqueles pelos quais carrego a Bandeira nas provas da minha modalidade: a Vela, na classe 49er.

A verdade é que este sonho se concretizou, não só uma, mas duas vezes, e irá agora concretizar-se uma terceira, com Tóquio 2020 a aproximar-se.

Mas qual será a força de um sonho, um sonho que sobrevive à infância, adolescência e idade adulta de um Ser Humano? Qual será a força deste sonho que trago em mim desde que me lembro?

Tanta que supera qualquer hesitação, e a dúvida de que o momento de ganhar A medalha pode nunca chegar.

Tanta que permite suportar a distância da família, amigos e de “casa”, durante as longas ausências.

Tanta que permite ultrapassar a impotência de não bastar a experiência, o trabalho, a vontade, ou a garra que nos caracteriza.

É que existe uma complexa estrutura que nos faz ser mais ou menos competitivos: o barco tem de ser trabalhado a nível de sistemas, peso, afinações e formato de velas, eficiência hidro e aerodinâmica.

Por mais glamorosa que pareça a ideia de longos passeios de barco à vela, não é o que fazemos. Precisamos de capacidade física e psicológica a níveis extremos. Na nossa classe, 49er, no caso do José, proa, o físico é levado ao limite. Tudo isto para assegurar que eu, timoneiro, consigo levar a cabo as decisões estratégicas e táticas.

Assim, o meu psicológico é testado também ao máximo. As decisões são muitas vezes tomadas na hora, no calor do momento.

Por isto, a força deste sonho é também tanta quanto a que temos quando somado um ao outro.

Também financeiramente lutamos circunscritos à dimensão do nosso país. A maioria das vezes inferior à dos nossos adversários. Toda a estrutura técnica de material, viagens, competições, treinador, entre outros, é muito dispendiosa na nossa modalidade.

Numa altura em que parece que lutamos contra tudo e contra todos, esta força não esmorece. Ainda que solitária. E em colisão com todas as probabilidades.

Por esta altura, eventualmente o leitor já terá resposta, para a pergunta que lancei anteriormente.

Qual é a força de um sonho?

A minha resposta é muito clara: é uma força que não tem dimensão, de tão grande que é.