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O fim do Benfica ultra-dimensional

Ao fabricarem uma irrealidade - o clube de dimensão europeia - Vieira e a comunicação do Benfica têm agora de se confrontar com as críticas justas e legítimas de quem os acusa de delírios, deslumbramentos e demagogias. É complicado aceitar a dissimetria brutal entre o que se diz e o que é posto em prática e o plantel do Benfica é manifestamente inferior ao Benfica que ficou a 19 pontos do FC Porto de André Villas-Boas ou a seis do de Vítor Pereira

Pedro Candeias

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Um amigo propôs-me o seguinte:
– Vê esta equipa do Benfica e compara-a com as do Benfica nos anos em que perdeu para o FC Porto do André Villas-Boas e do Vítor Pereira. Quantos destes eram de caras melhores do que esses?

Assim sendo, 2010-11: Roberto, Maxi Pereira, Luisão, Jardel, Fábio Coentrão; Javi Garcia, Salvio, Pablo Aimar, Gaitán; Oscar Cardozo e Javier Saviola.

E, depois, 2011-12: Artur; Maxi, Luisão, Garay, Emerson; Javi Garcia, Witsel, Gaitán, Aimar, Cardozo e Rodrigo.

Agora, 2019-20, especificamente o Lyon-Benfica de terça-feira que acabou como acabou: Vlachodimos; Tomás Tavares, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo; Florentino, Gabriel, Gedson e Cervi; Chiquinho e Carlos Vinicius.

Não são precisas estatísticas nem análises aprofundadas para concluir que a diferença entre as duas primeiras e a terceira equipas é profunda. Um mero exercício empírico dir-nos-á que apenas Vlachodimos e Grimaldo e talvez Gabriel encaixariam naqueles onzes de Jorge Jesus.

Então, o raciocínio seguinte, por mais simplista que possa soar, é este: o Benfica que ficou a 19 pontos do FC Porto de AVB e a seis do FC Porto de Vítor Pereira é francamente superior a este que não é substancialmente diferente ao que foi campeão em 2018-19. Sucede que o Benfica de 2010-11 chegou às meias-finais da Liga Europa e o de 2011-12 aos quartos de final da Liga dos Campeões - e este corre o risco de ser enxotado da UEFA daqui até dezembro.

Portanto, e era aqui que o meu amigo queria chegar, a péssima campanha do Benfica na Liga dos Campeões é indissociável da menor qualidade do plantel de Bruno Lage. A propósito disto, “O Jogo” contabilizou que cinco futebolistas encarnados estavam na equipa B há ano e meio e que “Tomás Tavares nem isso”. O defesa-direito jogava nos sub-23, onde passa a maior parte do tempo a atacar, e saltou diretamente para a competição de clubes mais exigente do planeta, onde tem de correr para remendar erros naturais.

E assim se desmonta o argumento da formação como o caminho iluminado para chegar à hegemonia europeia, quem sabe planetária, que Luís Filipe Vieira e a estrutura tantas e tantas vezes repetem.

Este ideal vendido propositadamente como uma ideia romântica e saudosista para insuflar o orgulhosamente o peito dos adeptos, é na verdade um modelo de negócio linear, simples: há um parceiro identificado, mestre na arte da especulação, que vende um bem acima do real valor com a chancela “Seixal” nas costas; depois, é tentar ganhar o campeonato local e arrebanhar os milhões à cabeça por entrar na Liga dos Campeões.

No entretanto, os plantéis vão perdendo idade, experiência e competitividade em doses suficientes para manter algum domínio interno, mas irremediavelmente curtos para sonhos europeus.

É que isto, basicamente, é como outra coisa qualquer: os génios e os talentos não nascem todos ao mesmo tempo, nem em anos consecutivos; é uma impossibilidade matemática.

Porque o Bernardo Silva veio de lá. Porque o Cancelo idem e porque o João Félix também. Os outros - os Hélder Costa, os Ivan Cavaleiro, os Nelson Oliveira - também de lá saíram, mas são dispensáveis na narrativa da grande escola formativa da Luz.

Portanto, por cada Bernardo aparecerão vários outros de quem nos esqueceremos do primeiro nome e do apelido, porque deus não poderia simplesmente ter prediletos em assuntos da bola.

Assim, ao fabricarem esta irrealidade, Vieira e a comunicação do SLB têm agora de se confrontar as críticas justas e legítimas de quem os acusa de delírios, deslumbramentos e demagogias. Não sendo fácil dar como perdida à partida uma participação na Champions, é muito mais complicado aceitar a dissimetria brutal entre o que se diz e o que é posto em prática. E a culpa é, acima de tudo, da administração da SAD, independentemente das debilidades que Bruno Lage apresenta à frente do Benfica.