Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Vamos falar de trauma? A “lesão“ emocional de André Gomes

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre as consequências emocionais da lesão horrífica sofrida por André Gomes, que partiu a perna num lance casual frente ao Tottenham

Ana Bispo Ramires

Robbie Jay Barratt - AMA

Partilhar

As imagens da lesão de André Gomes no passado fim de semana consternaram o mundo do futebol e, muito em particular, os atletas que com ele co-protagonizaram o incidente – um rápido olhar para a sua expressão facial e postura corporal, facilmente fazem adivinhar o estado de terror e pânico internos que, muito provavelmente, estariam a ser vivenciados.

A necessidade de uma intervenção cirúrgica (quase) imediata e a antecipação de um longo período de reabilitação para recuperar a mobilidade e a funcionalidade tecidular e muscular não deixou, por certo, ninguém surpreendido. A necessidade de uma intervenção (quase) “cirúrgica” para diminuir drasticamente a instalação de trauma emocional e a antecipação de um (desejável) período de treino de competências emocionais, como facilitadores de níveis superiores de eficiência no próprio processo de reabilitação e, até, do retorno à prática – pouco ou nada foi falada.

A importância de validar e intervir em situações de potencial trauma

A razão deste tipo de “negligência” a que assistimos (nas diferentes áreas da nossa sociedade) a tudo o que diga respeito a um possível “trauma emocional” prende-se, infelizmente, com uma razão muito óbvia: para o “senso-comum” (e para qualquer técnico não especializado na área) o trauma emocional não se “vê”, não se “quantifica”... não aparece como uma imagem disruptiva de uma fratura exposta...

Mas, em boa verdade, pode ser essa mesma a vivência interna de quem o vivencia: a de uma fratura exposta. Imagine, agora, alguém com uma fratura exposta, rodeado de uma multidão que, como se de um “filme” se tratasse, não “vê”... não se interessa e não reconhece a dor.

Quase bizarro, certo? – infelizmente, real.

Acidentes semelhantes ao que o André vivenciou, caracterizados por extrema gravidade e onde se experencia uma marcada ameaça à integridade física (que se enquadram no que poderíamos designar por “incidentes críticos de Vida”), revestem-se por uma alteração emocional profunda, com marcada sensação de choque, medo e ansiedade e são, muito frequentemente, os percursores da possível instalação de quadros de stress pós-traumático no futuro.

Problema que frequentemente nos esquecemos: para quem protagoniza o “incidente”, mas também para quem assiste. Por esta razão, no ano em que o atleta Féher faleceu em campo, as imagens mediatizadas da sua morte (projetadas milhares de vezes) tiveram como consequência – e custo para o erário publico – um aumento exponencial de pedidos de exames cardiológicos da população em geral, quintiplicando as suas prescrições.

Neste enquadramento, a ausência de intervenção atempada pode, por isso, levar à manifestação de episódios de raiva, irritabilidade e revolta (ou seja, labilidade emocional), que podem ser amplificados por insónia recorrente e "flashback" (sensação de se estar a reviver tudo de novo), entre outros sintomas, acabando por, pontualmente, comprometer a qualidade de vida, a capacidade em estar bem consigo próprio, com os outros e com o mundo (logo, também com as tarefas associadas à sua profissão).

Resultado

No caso dos Atletas, pode-se observar acentuado decréscimo em termos de performance, resultante não só do receio instalado de uma recorrência em termos de lesão, mas também da perda de motivação e da capacidade em se envolver com o meio, consequência da deterioração da qualidade de descanso, das suas relações pessoais/profissionais e Vida em geral.

Resolução

Recentemente, e no que ao desporto diz respeito, a NBA resolveu tomar medidas “sérias”... ou, por outra, a NBA resolveu passar uma forte mensagem de que todo e qualquer tema relacionado com a SAÚDE MENTAL no DESPORTO deve ser levado seriamente.

Com esse intuito, definiu a obrigatoriedade de contratação de especialistas em Saúde Mental, por parte de TODOS os clubes envolvidos na competição. E esta é uma MENSAGEM CLARA.

De resto, a única forma possível de, por exemplo, voltando ao caso específico do André, não só poder ser acionada a intervenção imediata de especialistas em EMDR (uma técnica especializada para o reprocessamento de trauma, diminuindo dramaticamente a sintomatologia emocional disfórica, associada a incidentes críticos de vida) com o André e os outros profissionais que assistiram às dramáticas imagens da sua lesão, mas também poder ser desencadeado um plano de otimização de competências emocionais para o longo período de recuperação
que o aguarda.

Assim se trabalha onde o Desporto é, de facto, PROFISSIONAL.

A Psicologia da Performance encontra-se direcionada para a otimização das competências psico-emocionais dos sujeitos (tais como liderança, motivação, capacidade de superação, desenvolvimento de esforço em contexto de frustração, confiança, entre outras), com o intuito de elevar o seu desempenho (em contexto desportivo, académico, artístico ou empresarial), qualidade de vida e bem-estar.

Cirurgia de André Gomes correu "extremamente bem" e é esperada "recuperação total"

O jogador português vai passar algum tempo no hospital a recuperar, depois da fratura sofrida na perna direita, no jogo frente ao Tottenham