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Jorge Jesus e a regra das 10000 horas de 'expertise'

A psicóloga de performance Ana Bispo Ramires escreve sobre o mais recente sucesso da carreira de Jorge Jesus

Ana Bispo Ramires

PILAR OLIVARES

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O sucesso agrega.

Por estes dias, Jesus reuniu consensos e admirações, recebeu o reconhecimento de Portugal, dos Portugueses e de uma enormidade de Brasileiros (adeptos da sua equipa e não só), ao conseguir, em pouco mais de 6 meses, elevar os níveis de desempenho da sua equipa para patamares há muito não observados.

Da forte contestação inicialmente manifesta, num país onde ser treinador e estrangeiro não revela ser a “combinação” mais apetecível, Jesus conseguiu calar as vozes da crítica e obter inclusive pedidos de desculpa públicos, por parte de algumas figuras de vincada notoriedade.

Criticado por muitos acerca da sua forma de estar e ser, acerca da sua impetuosidade e entrega desmedidas, o reconhecimento da sua capacidade em otimizar atletas, tornando-os ativos valiosos para os clubes, de alguma forma, não é algo de novo – este é, aliás, o principal denominador comum que encontramos no discurso dos atletas que com ele “nasceram” (ou “renasceram”) e que a ele dedicam a sua gratidão.

Fê-lo agora com uma equipa inteira – e num brevíssimo espaço de tempo – e, isto sim, é “novo”.

Naturalmente que o sucesso não se pode (nem deve) explicar exclusivamente pela vontade de um indivíduo, afinal ele será sempre produto das ações individuais e das
suas circunstâncias.

O sucesso alcançado no Flamengo resultará necessariamente da conjetura de uma equipa e de um clube, da visão de alguém que, dadas as dinâmicas internas que se encontravam instituídas, soube identificar um dado perfil de treinador que poderia catapultar a expressão de um futebol mais incisivo e eficiente.

Mas resulta, também, de um homem que, em boa verdade, se preparou para o sucesso.

As 10000 horas de 'Expertise'

Adotada por personalidades tão distintas como Bill Gates, Elon Musk, Warren Buffett e Mark Zuckerberg, a “regra das dez mil horas” popularizou-se no livro de Gladwell (“Outliers. The story of success”, acerca do desempenho dos “fora de série”), onde o autor defende que o desempenho de excelência dos “fora de série” se encontra justificado pelo número de horas de prática que colecionam e que, na realidade, podem transformar qualquer individuo num top performer, a saber: 10.000h.

Contrariamente a uma interpretação mais ingénua que uma leitura rápida pode suscitar sobre o impacto de 10.000h na elevação dos níveis de mestria dos indivíduos, fazendo-nos acreditar que a “simples exposição” condicionaria o nível de expertise, os estudos que fundamentam este “movimento” das 10.000h (dada a expressão global que detém) e o próprio livro de Gladwell, desenvolvidos pelo Professor Anders Ericsson, que desde sempre dedicou a sua investigação à identificação dos denominadores comuns que podem ser encontrados na “top expertise” (sugestão: “Peak: Secrets from the New Science of Expertise”), evidenciam uma realidade bem diferente – onde a capacidade em desenvolver esforço, de forma sustentada, orientada por uma aprendizagem balizada por objetivos progressivos e consequente feedback “on job”, seriam os pilares da aquisição.

Em boa verdade, estejamos a falar de treinadores, atletas ou outros “fora de série”, se observados em pormenor, a sua quase “inumana” capacidade em desenvolver esforço e trabalho, com elevados níveis de resistência à frustração e por um período indeterminado de tempo, acaba por os destacar dos demais.

Observados “à lupa”, evidenciam os requisitos identificados por Ericsson, sendo que, a enorme capacidade em desenvolver trabalho orientado, encontra-se frequentemente assinalada no seu discurso de Jesus, quando refere que não teria aceite o convite sem ter estudado muito bem toda a situação.

Henry Romero

O que, de uma forma geral, as pessoas não adivinham é que este “estudar muito bem” implica, desde logo, horas sem fim de análise de todo o plantel, clube e realidade organizacional/cultural, bem como a produção antecipada de um conjunto de critérios de sucesso e/ou soluções que garantam o nível de sucesso desejado (que não precisa, necessariamente, ser o mesmo que o publico em geral imagina) – tudo isto, mesmo antes de firmar qualquer contrato.

Contudo, como em muitas outras áreas, o discurso do sucesso resultante de um número infindável de horas de trabalho não é, como sempre, minimamente “sedutor” para ser valorizado pelos “media” ou retido pelos adeptos e sociedade em geral.

“Se não consegue explicar algo de forma simples, é porque não o entende suficientemente bem.“ - Albert Einstein

A fórmula de sucesso de Jesus passará, certamente, por um grande conjunto de variáveis - entre muitas que poderíamos inventariar, o saber-se rodear pela equipa técnica “certa” onde, para além do conhecimento científico agregado, denota o reconhecimento claro dos “perfis de personalidade” que pretende blindar na sua equipa de confiança – de onde vale a pena destacar ainda:

saber traduzir o conhecimento em ações concretas.

Dizem-nos os estudos científicos que os atletas de elevada performance evidenciam, quase sempre, igualmente elevados níveis de coachability – entenda-se, uma elevada capacidade em traduzir os feedbacks em ações concretas.

Podemos, assim, estar perante um (não muito comum) fenómeno onde, a uma equipa com elevados níveis de coachability se juntou um treinador com uma enorme capacidade em dar feedbacks precisos, assentes em soluções concretas, resultantes de uma análise minuciosa do desempenho da equipa e dos adversários, facilmente operacionalizadas através das ações dos atletas.

A esta capacidade única de tornar o complexo em algo simples, temperado com uma enorme crença na capacidade própria em otimizar pessoas e processos, os atletas reconhecem LIDERANÇA.

A Psicologia da Performance encontra-se direcionada para a otimização das competências psico-emocionais dos sujeitos (tais como liderança, motivação, capacidade de superação, desenvolvimento de esforço em contexto de frustração, confiança, entre outras), com o intuito de elevar o seu desempenho (em contexto desportivo, académico, artístico ou empresarial), qualidade de vida e bem-estar.

Jorge Jesus é o único português entre os melhores da IFFHS

O treinador do Flamengo ocupa a sétima posição no ranking da Federação Internacional de História e Estatística do Futebol