Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

A difícil matemática do treino: afinal, 1% é mais ou menos do que 1%?

Afinal, os ganhos marginais fazem a diferença ou não? Francisco de Sá Fardilha responde, utilizando o ciclismo e o futebol como exemplos

Francisco de Sá Fardilha

Tim de Waele

Partilhar

“Considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, tanto quanto conhecer o todo sem conhecer as partes”.

- Blaise Pascal

Vivemos numa época de exacerbação do detalhe. A origem e significado das palavras merecem um escrutínio sem precedentes. As lentes fotográficas ampliam como telescópios. As câmaras de videovigilância multiplicam-se mais rapidamente que os seres humanos. Os outrora ‘operários’, posteriormente ‘empregados’, e mais recentemente ‘colaboradores’, são agora ‘talentos’, cuja performance é monitorizada e avaliada em permanência.

No desporto de alto nível, a importância atribuída ao detalhe justifica-se pelas diferenças ínfimas que separam vencedores e vencidos. Um centésimo de segundo pode fazer a diferença entre o ouro e a prata. Um ‘dia mau’ ou uma mera falha de marcação momentânea no último minuto do tempo de compensação podem custar três pontos, um campeonato, e muitos (demasiados!) milhões de euros.

Quando 1% é bem mais do que 1%

Por isso, há cada vez mais equipas à escala planetária a munirem-se de especialistas em áreas como a psicologia, biomecânica, ergonomia ou nutrição. Tudo em prol da obtenção de ‘ganhos marginais’, um princípio que ficou famoso no ciclismo com a entrada arrebatadora da Team Sky no pelotão internacional. O seu director, Sir Dave Brailsford, defendia que:

“Se conseguirmos identificar todos os componentes que podem ter impacto na performance de um ciclista – tudo aquilo que for possível imaginar – e melhorarmos cada pequeno aspecto em 1%, quando voltarmos a agregar tudo novamente, vamos obter ganhos significativos na performance”.

Esta filosofia fez com que, por exemplo, durante as participações na Volta a Franca, a Team Sky enviasse elementos do seu staff aos hotéis em que os ciclistas iriam pernoitar depois de cada etapa, para procederem a limpezas profundas e também à instalação de colchões e almofadas personalizadas. A ideia desta operação logística passava não só por evitar a contracção de doenças mas também por garantir uma elevada qualidade de sono, e por consequência, uma melhor recuperação dos seus atletas.

No futebol, ficaram famosas as revelações do treinador Carlo Ancelotti sobre os banhos de gelo de Cristiano Ronaldo às 3 da manhã, na sua passagem pelo Real Madrid. Mais recentemente, tem sido discutido – e demonstrado – o potencial impacto dos apanha-bolas na obtenção de resultados positivos, quer desportivos quer financeiros.

Primeiro, foi o quarto golo do Liverpool em Anfield contra o Barcelona, que apurou a equipa de Jurgen Klopp para a final da Liga dos Campeões deste ano; depois, já na fase de grupos da presente edição da liga milionária, José Mourinho destacou o ‘pensamento rápido’ do apanha-bolas do Tottenham, que permitiu a Harry Kane marcar o golo do empate frente ao Olympiakos de Pedro Martins.

Todos estes exemplos são bem ilustrativos da importância dos ‘ganhos marginais’ e de como melhoras de 1% numa pequena parcela do processo podem trazer beneficios bem mais significativos, não só no desporto como noutras áreas. Que o diga Ignaz Semmelweis, o médico húngaro que, em meados do século XIX, investigou uma intrigante crise de mortalidade no serviço de obstetrícia de um hospital de Viena: o número de jovens mães que não sobreviviam ao parto era muito maior quando eram atendidas por estudantes de medicina do sexo masculino do que quando eram auxiliadas por parteiras.

Depois de considerar várias explicações, Semmelweis descobriu a causa: antes de chegarem ao serviço de obstetrícia, os jovens aspirantes a médicos trabalhavam nas salas de autópsia do hospital, de onde vinham directamente... sem lavarem as mãos! Um simples gesto, cuja adopção generalizada permitiu que inúmeras vidas fossem poupadas.

Quando 1% é menos do que 1%

No entanto, há quem questione a lógica marcadamente cartesiana do princípio dos ganhos marginais. Isto devido à forma simplista como por vezes se equipara o ser humano a uma máquina, assumindo-se que é possível dividi-lo em partes - qual automóvel numa linha de montagem - e ignorar a existência (e o papel crucial) de relações entre as partes. A análise microscópica de cada elemento do processo de treino pode tornar o atleta (e os treinadores) obsessivo e acabar por ser contraproducente.

Por um lado, se algum motivo levar a que numa determinada prova um atleta não consiga cumprir ponto por ponto o seu ‘protocolo de excelência’, a crença num resultado positivo pode ser afectada. Por outro, esta aposta na hiper-especialização pode redundar no crescimento desmesurado de equipas técnicas, dificultando a comunicação entre os ‘experts’ de cada área. Desta forma, surge o perigo de que cada um se ocupe da sua agenda (sempre a mais importante, por sinal!) sem que haja uma percepção do impacto global. O resultado provável: mensagens contraditórias, conflitos, lutas de egos, confusões. Diminuição da performance desportiva do atleta. A perda do prazer pelo desporto, motivada por (ou conducente a) problemas de saúde física e mental.

Assim, ainda que o avanço rápido da tecnologia e da investigação cientifica possam trazer possibilidades entusiasmantes, e que o investimento numa maior atenção ao detalhe em diversas áreas do treino faça todo o sentido, a sua eficácia depende em grande medida dum saber milenar: a filosofia. Numa era de informação desmedida e aceleração descontrolada, torna-se essencial arranjar tempo – e a coragem – para definir uma visão e assegurar que todos os elementos duma estrutura com ela permanecem alinhados. Só com uma direcção clara e uma cultura partilhada pode a aposta em ganhos marginais produzir resultados significativos e continuados.