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José M. Constantino

José M. Constantino

Presidente Comité Olímpico

Conciliar o desporto e os estudos

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal

José M. Constantino

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Ciclicamente, o sistema desportivo cria temas que durante algum tempo adquirem uma centralidade que os torna incontornáveis.

Um desses temas é aquilo a que se convencionou designar por carreiras duais, que para uns significa construir uma profissão ao lado da carreira desportiva e para outros conciliar a vida académica com a vida desportiva.

O tema atingiu uma tal magnitude que proliferam os seminários, conferências e outros fóruns de debate e não há instituição desportiva que se preze que não tenha o assunto entre as suas metódicas preocupações.

Governo, federações desportivas e instituições académicas, designadamente do ensino superior e universitário, organizam-se para melhor responder ao problema.

Reconhecemos que vivemos um tempo em que populações especiais como os desportistas, os artistas, ou até famílias em permanente mobilidade colocam os jovens em idade escolar com necessidades de adaptação à formação escolar ou profissional que os demais não têm.

As sociedades e designadamente os sistemas de ensino e profissional devem, por isso, procurar oferecer respostas adequadas a uma sociedade cada vez mais globalizada e com elevada mobilidade. Mas os sistemas de ensino ou de formação profissional não podem estar sozinhos nesse encontrar de respostas. Os restantes sistemas têm de ajudar.

No que respeita aos jovens desportistas, o ónus da conciliação é quase sempre colocado do lado ou do sistema de ensino ou do sistema de formação profissional e pouco é pedido ao sistema desportivo. Este seria uma espécie de vítima de algo que o transcenderia. As coisas não são necessariamente assim.

O sistema desportivo, nomeadamente as entidades reguladoras - as federações internacionais e o Comité Olímpico Internacional - têm deixado crescer de modo desregulado os quadros competitivos, obrigando a longas deslocações e permanências fora do ambiente nacional e tornando crescentemente mais difícil, particularmente no domínio do alto rendimento, a conciliação da prática do desporto com outra atividade de cariz formativo, seja de âmbito académico ou profissional.

Não mexer no atual quadro de competições e no modelo de preparação desportiva para o alto rendimento é, para os atletas de muitas modalidades desportivas, uma sentença quase definitiva quanto à conciliação entre a carreira desportiva e a carreira académica ou profissional, pese embora o esforço desenvolvido por algumas entidades e pelos próprios praticantes desportivos.

É um erro pensar que esta conciliação é uma simples compatibilização de horários, de período de estudos e de prestação de provas, ignorando que as cargas de treino e de preparação desportiva, bem como os períodos de descanso exigíveis não deixam disponibilidade mental e emocional, para ao mesmo tempo estudar como qualquer um outro estudante.

Certamente que há exceções e que existem exemplos onde essa conciliação tem resultados muito positivos. Mas não é razoável, nem socialmente justo que o sistema desportivo não tenha limites no que exige na vida dos jovens atletas e caiba apenas a outros o esforço de conciliação.

É esta situação inultrapassável? Provavelmente sim, face aos desenvolvimentos que o desporto enquanto negócio e espetáculo comercial adquiriu. Mas colocar o problema e discuti-lo ajuda a perceber o que nem sempre parece: que o desporto tem muito a mudar, se pretende ganhar alguns dos desafios que a si mesmo coloca.