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António Varela

António Varela

Diretor comunicação COP

O efeito Fu Yu-Jorge Fonseca

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve António Varela, diretor de comunicação do COP

António Varela

José Fernandes

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O CNID – Associação dos Jornalistas de Desporto, de Portugal, elegeu recentemente Fu Yu e Jorge Fonseca atletas do ano 2019. O brilhantismo e, em particular, o pioneirismo dos títulos alcançados pelos dois desportistas portugueses justificam plenamente a eleição.

Fu Yu foi a primeira medalhada de ouro no torneio individual de Ténis de Mesa dos Jogos Europeus, em Minsk 2019, e assim conquistou a vaga olímpica em Tóquio 2020; mais tarde integrou a equipa de Portugal que ganhou a medalha coletiva no Campeonato da Europa.

Jorge Fonseca conseguiu em Tóquio, no palco dos próximos Jogos Olímpicos, o primeiro título mundial para o Judo português.

Os resultados de Fu Yu e Jorge Fonseca, agora muito justamente reconhecidos pelo CNID, já antes tinham recebido o reconhecimento do Comité Olímpico de Portugal, que os distinguiu com a Medalha de Excelência Desportiva.

Não há, portanto, surpresa na decisão. Outros desportistas, com méritos igualmente brilhantes, poderiam ter sido eleitos, mas este foi indiscutivelmente o ano de Fu Yu e Jorge Fonseca, pesados que foram fatores como a dimensão dos títulos e as circunstâncias da sua construção.

Há, no entanto, um aspeto fundamental a relevar na decisão do CNID: a composição do júri. Foi um colégio formado por uma esmagadora maioria de jornalistas especializados em desporto – muitos com responsabilidades na definição das orientações e dos conteúdos editoriais dos seus órgãos de informação – a construir o resultado final.

Quando em Portugal o tema da agenda concentracionária dos órgãos de comunicação social continua a ser motivo de debate intenso – mais pelos agentes que fazem o desporto do que pelos próprios jornalistas -, esta eleição de Fu Yu e Jorge Fonseca não pode deixar de merecer um aplauso, primeiro, e uma reflexão, depois. Afinal…

Afinal, os definidores dessa tal agenda mediática concentracionária e monolítica têm capacidade para avaliar a construção da realidade com uns óculos que veem não apenas uma cor, mas muitas cores; não apenas um gesto técnico, mas muitas habilidades de muitas e variadíssimas modalidades desportivas!

Há, no entanto, um “pormenor” que tem estado ausente na discussão desta agenda mediática, quando ela é promovida pelos agentes que fazem o desporto no terreno – e que sempre justifica as decisões editoriais dos jornalistas, quando é objeto de reflexão no interior das redações: a dimensão económica. Os órgãos de comunicação social

trabalham para uma audiência consumidora, que paga. Mas paga por um produto determinado a partir dos seus hábitos, da cultura, da tradição, dos costumes percecionados através do chamado “jogo falado”.

Ora, os agentes que fazem o desporto português no terreno têm um olhar oposto. Não percebem o monolitismo da agenda mediática e sentenciam que é o facto de esta ser assim que tem penalizado os índices de audiência de alguns desses órgãos de informação, em particular os que são impressos. Será?

Seja qual for o ângulo em que for visto o problema, este continua sem perspetivas de solução. Mas…

Mas a eleição produzida pelo CNID tem o efeito indiscutível de mostrar às audiências do desporto – que as tem muitas e variadíssimas, pouco estudadas – que os jornalistas são capazes de olhar a realidade em toda a sua extensão.

Quando o ano dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020 – porventura os que mais desafios apresentarão aos media – está prestes a começar, encontrar um equilíbrio maior entre o que é observável na realidade e o que supostamente a audiência quer consumir é – e continuará a ser - o repto que se coloca aos jornalistas. Mas não apenas a eles: quando os meios que têm disponíveis para trabalhar são progressivamente mais escassos, os agentes que fazem o desporto no terreno devem assumir responsabilidades cada vez maiores na comunicação das suas atividades, porque só assim as audiências estarão verdadeiramente informadas e perceberão a justíssima eleição de Fu Yu e Jorge Fonseca.