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Este Benfica é imperdível

O negócio de Raúl de Tomás para o Espanyol desafia a lógica: o avançado foi comprado por 20 milhões de euros, não rendeu, e foi revendido por €20 milhões, mais bónus. Facto: o Benfica não perde. Há quem lhe chame capacidade negocial

Pedro Candeias

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E assim chegamos a um novo estágio da super-eficiência empresarial: agora, podemos comprar caro um bem que não rende, mas que também não desvaloriza, e revendê-lo seis meses depois pelo mesmíssimo preço, com mais algumas variáveis em cima disso. Pois que aconteceu: Raúl de Tomás chegou por €20 milhões e sai para o Espanyol por €20 milhões e bónus, que incluem a manutenção, 10 jogos disputados, cinco golos marcados e a obrigatoriedade de despachar Ferreyra: um negócio formidável.

Claro que isto não se faz por acaso, mas como o segredo é a alma de qualquer negócio só o Benfica saberá como consegue transformar prejuízo em rentabilidade num estalo de dedos. Entre nós, suponho, supomos, que Jorge Mendes tenha algo a ver com isto, pois só ele venderia um carro parado numa garagem por um preço superior ao do stand.

Dito isto, o Benfica não perde uma e qualquer transferência em que intervenha é um caso de estudo, por estar carregado de milhões e de improbabilidades. O percurso incompreensível de Roberto Jiménez (Atlético de Madrid, Benfica, Saragoça, Benfica, Olympiakos), a chapa €15 milhões do Seixal, a fé inabalável de Vieira no lucro que faria com Raúl Jiménez, os €126 milhões de João Félix, enfim, estas e outras transferências transformaram o clube da Luz numa referência mundial - tal como o FC Porto fez há mais de 10 anos, com Ricardo Carvalho ou Paulo Ferreira; coincidentemente, Mendes estava à mesa.

O tema Raúl de Tomás tem outros contornos e só adensa o mito à volta da extraordinária competência encarnada. O avançado não foi trespassado para um lugar endinheirado de Inglaterra, China ou das Arábias - foi para o Espanyol, que fez um amplo buraco no teto das suas transferências.

Antes de RdT, este era o Top-10 dos mais caros do clube da Catalunha: Mário Hermoso (€12,50 milhões, em 17-18), Matías Vargas (€10,50M, em 19-20), Borjas Iglesias (€10M, em 18-19), Darder (€8M, em 18-19), Calero (€8M, em 19-20), Maxí Rodríguez (€7M, em 12-13), Leo Baptistão (€7M, em 16-17), Pareja (€5M, em 08-09), Osvaldo (€4,6M, em 10-11) e Helguera (€4,50M, em 97-98). Isto representa um salto gigantesco.

Além da influência inestimável do agente e da, vá, capacidade negocial encarnada, é possível que o Benfica tenha jogado com o desespero alheio, porque só a aflição de quem está em último na liga espanhola e a ansiedade de um proscrito explicam um investimento destes. Esta será possivelmente a narrativa oficial. Outra diria que o Benfica é imperdível.