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Ricardo Ribas

Ricardo Ribas

Atleta olímpico

Acreditar no sonho olímpico

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Ricardo Ribas, atleta olímpico

Ricardo Ribas

Rui Duarte Silva

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Trasmontano de gema, nascido em Malhadas, uma aldeia mesmo do interior, junto a Espanha, com apenas oito anos já cronometrava os meus treinos de corrida que fazia no regresso e na ida de levar o gado ao monte para comer. Estamos a falar de 6/7kms cada viagem, isto tudo porque já tinha um sonho de um dia ir aos Jogos Olímpicos.

O desporto escolar é a ponte que me coloca a competir nos regionais e, com as minhas classificações, leva-me aos nacionais de juvenis e iniciados. De seguida vou aos Mundiais à China e aos Jogos da FISEC, em Inglaterra; aqui fico sem dúvidas: para chegar ao sonho iria ser um longo caminho.

O meu primeiro clube, o Ginásio Clube de Bragança, e meu primeiro treinador, Carlos Diniz Fernandes, têm um papel fundamental naquela altura, pois fui estudar para Bragança onde tive uma outra abertura para o Mundo e consegui ver as coisas de uma outra maneira.

Aos 18 anos, acontece uma mudança radical na minha vida, com a ida para Lisboa, onde fui trabalhar num restaurante. Fiquei mais perto do centro do atletismo. De um dia para o outro estou junto dos craques que via na televisão, ajudado pelos meus patrões (Jacinto, Zé e Faustino). Com a ajuda de Cipriano Lucas e Rafael Marques entro no Maratona Clube Portugal como atleta júnior e recomeço a treinar no Estádio Nacional com um grupo de treino de Campeões (Paulo Guerra, José Ramos, João Junqueira). A vida foi muito dura. Com nove horas de trabalho a servir mesas e dois treinos por dia, de um momento para o outro tinha o restaurante cheio de troféus.

A primeira corrida pela Seleção aconteceu no Mundial de corta-mato Mundial, em Dublin. Aos 26 anos, foi uma emoção muito grande vestir a camisola de Portugal. Até hoje foram 34 vezes e ainda gostava de fazer uma despedida em grande. Sei que não vai ser nada fácil, mas a esperança é a última a morrer.

Depois de duas tentativas falhadas de chegar aos Jogos Olímpicos, em 2008 e 2012, no ano de 2013 foi a única vez que deixei de acreditar em mim mesmo, atirei a toalha ao chão devido a lesões. Depois das pessoas terem deixado de acreditar em mim e no meu valor, tive a sorte de três mulheres não o fazerem também: Dulce Félix - um apoio incondicional a todos os níveis -, Sameiro Araújo - uma treinadora que me devolveu o que eu já tinha perdido - e Ana Oliveira, no Benfica, a dar-me a braçadeira de capitão e a fazer-me sentir útil.

Por incrível que pareça e porque sou de aproveitar as oportunidades que a vida me dá agarrei esta última com tudo, de punhos e dentes cerrados, e meti na cabeça que tinha que ser um atleta à antiga, para chegar onde eu sempre quis: os Jogos Olímpicos. E assim foi. Foquei-me apenas no treino, na família e no descanso, e vieram as minhas melhores épocas de sempre, nas quais alcancei o ponto mais alto da minha carreira, com o 10.º lugar no Europeu de maratona, que me permitiu entrar na Preparação Olímpica. Era o apoio que me faltava na preparação ao mais alto nível, para chegar aos Jogos Olímpicos.

Dia 1 de janeiro de 2016 entrei no meu local de eleição, o centro de estágio na Praia de Mira. Com a sabedoria do Prof. Amândio Cupido, durante três anos raras foram as vezes que fui a casa e nos quatro meses seguintes o foco estava nas 2h14’00”, marca de qualificação para os Jogos Olímpicos. Para a Maratona de Hamburgo fiz a melhor preparação da minha vida. Cheguei a dormir 14 horas por dia e tive semanas com quilometragens acima dos 250kms. Se foi um exagero não sei, o que sei é que fiz 2h13´21”, o que me permitiu estar nos JO Rio 2016. E tenho a noção de uma coisa: ao longo da minha carreira poucas pessoas terão acreditado que um dia eu iria ser Atleta Olímpico.

Muitos dizem que eu fiz um trabalho brutal em quatro meses para conseguir a marca de qualificação, eu digo antes que foi um trabalho de 24 anos de treino e muita persistência para lá chegar. Olho para trás e faria tudo da mesma forma até lá chegar, porque foi nos erros que eu consegui dar a volta por cima.

Neste momento, tenho o Grau II de Atletismo, estou a fazer uma formação em Fisioterapia e Massagem, e falta-me apenas um semestre para terminar a Licenciatura em Educação Física e Desporto. O meu objetivo é continuar a trabalhar dia a dia e ser feliz como treinador, como fui como atleta.

Posso terminar a minha carreira de atleta e dizer: fui feliz nas escolhas que fiz e por nunca ter desistido de lutar pelo sonho olímpico.

Ricardo Ribas: “Uma corrida é uma corrida, e só no dia é que se sabe. É como aquela música agora... ‘pasito a pasito’

Ribas é um atleta que assume nunca ter sido “um grande atleta” e que tudo o que conseguiu foi graças ao trabalho. O maratonista é outro entrevistado da <strong>Tribuna Expresso</strong> na semana em que decorrem os Mundiais de atletismo, em Londres