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António Varela

António Varela

Diretor comunicação COP

“Se não gostarem daquilo que fazem agora, desistam”

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve António Varela, diretor de comunicação do COP

António Varela

josé carlos carvalho

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Palavra de atleta olímpico, medalhado, campeão, consagrado, é lei para jovem aspirante a desportista de elite, que sonha com a participação nos Jogos Olímpicos e já se vê entre os melhores dos melhores, lado a lado na Aldeia Olímpica.

Em Portugal, há cada vez mais competência instalada na área do treino – e tudo é treino, da corrida à motivação para a corrida; da nutrição à comunicação – mas a prescrição de receita feita por um Campeão Olímpico tem valor acrescentado, pela força simbólica que representa a voz de quem já teve o mundo inteiro a olhar para si em muito mais do que cinco minutos de fama construída com trabalho invisível aos olhos da multidão.

O Encontro Nacional de Esperanças Olímpicas – com organização do Comité Olímpico de Portugal pelo segundo ano consecutivo, desta vez na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto - está a transformar-se num laboratório de experimentação das melhores práticas de construção dos caminhos que podem levar as esperanças olímpicas de Portugal aos Jogos de Paris 2024. O trabalho multidisciplinar que cada Federação, cada treinador, cada atleta tem feito é partilhado, debatido e testado num espaço comum que continuamente vai fortalecendo os pilares da Equipa Portugal.

O convívio e a troca de experiências entre atletas de diferentes modalidades desportivas tem-lhes permitido concluir no espaço do Encontro Nacional de Esperanças Olímpicas que só o ofício é distinto, porque o caminho a fazer para chegar ao objetivo coincide em todas as exigências e obriga a ultrapassar os mesmos obstáculos.

Nelson Évora, o nosso Campeão Olímpico do triplo salto, protagonizou este ano no Encontro Nacional de Esperanças Olímpicas aquilo a que se pode chamar uma sessão-farol, iluminando com grande intensidade a rota dos jovens atletas desde o primeiro passo, a primeira remada, a primeira manobra ou a primeira técnica: “Se não gostarem daquilo que fazem agora, desistam.” O contexto em que o disse foi marcado por uma grande proximidade, num momento de muita emotividade, mas Nelson Évora sabia onde queria atingir a jovem audiência quase em êxtase, porque ele próprio deu muitos passos a pé, entre o Campo Grande e Odivelas, só para fazer o treino da modalidade que ele tanto gosta. Apenas sem duvidar do que se faz se pode aspirar a atingir a plenitude dos objetivos, sejam quais forem. Há dúvidas?

Rui Bragança, mais um atleta de excelência que passou pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, foi muito claro no “post” que de virtual nada teve e ecoou pelo auditório acima: “Quem quer encontra soluções, quem não quer arranja desculpas. Desistir? Nunca! Sejam loucos por aquilo que fazem. Quando toda a gente diz não dá, nós dizemos dá.” Dúvidas nunca teve quem já dormiu em muitos “hostels”, longe das mordomias dos hotéis de luxo, para ir de competição em competição em busca da vitória.

No fim, depois de um longo processo de descoberta de si mesmo, o atleta sabe que para o outro tudo se resume “àquele dia”, “o tal” - sobe ou não sobe ao pódio, há ou não medalha, é com ou sem hino? Mas para lá chegar, até tudo bater certo, a construção do trajeto comporta danos que só os mais habilitados conseguem controlar. Algo desconcertante, Nelson Évora faz desses danos o seu próprio laboratório, como explicou às esperanças olímpicas: “Eu sei onde errei. Errar é bom, por muito que sejamos criticados.” Porque, no final, “quando temos a medalha ao peito já faz sentido.”

As esperanças olímpicas ficaram sem palavras, mas agora com a convicção de estarem na via certa, do trabalho, do treino intenso em todas as vertentes, e dos estudos que é obrigatório concluir com sucesso.