Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Ai estes são os filhos da desunião

Sérgio Conceição pôs o lugar à disposição do presidente. É um momento singular num lugar anteriormente eficaz por esconder cisões. Ao pôr o ónus da decisão no presidente, o treinador deixou-o sem margem para recuos: se ficar, algo tem de mudar e algumas cabeças terão de rolar; qualquer outra opção, deixará fragilizadas a presidência e a direção

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

Partilhar

Sérgio Conceição tem uma ligação especial ao presidente Jorge Nuno Pinto da Costa. Talvez a possamos classificar de gratidão, porque foi com Pinto da Costa que Conceição conquistou muitas coisas, primeiro como jogador, agora como treinador principal do clube que, se não era o do coração, passou a sê-lo certamente depois de tudo isto.

Portanto, Jorge Nuno Pinto da Costa não é apenas um presidente – é o *seu* presidente, e é a ele que Conceição deve lealdade, proximidade e eficácia, naquele conceito muito militar, hierárquico, tal como Sérgio gosta de colorir as suas intervenções públicas. Pinto da Costa é o chefe supremo; e, para as coisas do futebol, Sérgio Conceição é o chefe imediatamente a seguir. É assim que o técnico concebe a estrutura, mas pelos vistos não é bem assim que a organização flui.

Braga 1-0 FC Porto: a pronúncia do norte, a premonição de Horta, um prenúncio de crise

O Braga bateu o FC Porto no último minuto da compensação e conquistou a Taça da Liga quando tudo se encaminhava para um desfecho decidido nos penáltis. O autor do golo foi Ricardo Horta, o homem do jogo que abrira o clássico nortenho com um bom remate de pé esquerdo à barra, lançando as bases para um encontro entretido e intenso. No final, Sérgio Conceição não se aguentou e disparou para dentro

Este sábado, após a derrota com o Braga, no meio das insinuações à atitude do adversário, Sérgio Conceição disparou para fora e para dentro. Puxou pela sua competência: no primeiro ano, sem dinheiro, o seu FC Porto foi campeão nacional. Puxou pela crítica: no segundo ano, não houve “verdade desportiva”, subentendo-se que, para ele, o Benfica foi campeão com a ajuda dos árbitros. E chutou lá para dentro: o clube não estava unido e o seu lugar estava, agora, à disposição de Pinto da Costa.

É um momento singular num lugar reconhecidamente eficaz por esconder cisões. Ao pôr o ónus da decisão no presidente, Sérgio Conceição deixou-o sem margem para recuos, porque se o técnico ficar, algo tem de mudar e algumas cabeças terão de rolar; qualquer outra opção, deixará fragilizadas a presidência e a direção.

Ora, a que desunião Sérgio Conceição se refere nunca o saberemos exatamente, porque estes problemas ficam obviamente retidos pelos gatekeepers da informação oficial. Mas há pistas que nos podem levar lá, que vão desde as complicações com os adeptos, presencialmente ou nas redes sociais, aos arrufos no plantel e à rearrumação da tal estrutura ao gosto do treinador.

A claque

Em maio de 2019, a poderosa claque Super Dragões assobiou a equipa no empate (2-2) com o Rio Ave, e Fernando Madureira, o líder dos SD, despiu a camisola e expôs o peito ao mundo; no jogo seguinte, após o triunfo com o Desportivo das Aves, os jogadores não foram em primeira instância agradecer aos SD e como estes não arredaram pé, o plantel lá foi bater palmas e discursar de megafone.

Na altura, Conceição disse que estas questões se “resolviam em família”; recentemente, quando viu lenços nas bancadas do Dragão, já afirmou que “usava lenços para se assoar ou limpar o suor do trabalho”; antes, em novembro, e na análise ao empate com o Marítimo, na Madeira, garantiu estar-se “a cagar” para o que os adeptos pensavam nas redes sociais.

O custo-zero

É óbvio o desconforto de Sérgio quando tem de lidar com as derrotas, os empates e as críticas. E é possível que sinta não estar a ser devidamente protegido pela entourage portista, anteriormente celebrada por suster opiniões contrárias, impedir fugas de informação, como o tête-à-tête com Danilo, e controlar a vida social do plantel, o que manifestamente não sucedeu naquela festarola de Uribe y sus muchachos; e que falhasse contratações a céu aberto (vide Bruma) ou que os melhores futebolistas saíssem sem o clube ganhar um tusto. Como Herrera. Ou Brahimi.

Querer e ter

Mas, por outro lado, também é verdade que quase tudo o que Sérgio pediu, Sérgio teve. Os futebolistas Zé Luís, Uribe, Díaz, Saravia e Marchesín foram escolhidos por ele e contratados para ele, representando o maior investimento portista dos últimos seis anos – e o FC Porto caiu na pré-eliminatória da Liga dos Campeões, está à sete pontos do Benfica na Liga e perdeu a final da Taça da Liga.

Além disso, o clube terá igualmente acomodado outras vontades suas, como a rearrumação no departamento de comunicação, tendo agora uma espécie de diretor só para ele, um sinal evidente de discórdia e da falta “de união no clube”.