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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Vamos fazer de conta que acontece algo extraordinário? No “jogo do título”, serão os jogadores (e árbitros) a fazer a diferença

O ex-árbitro Duarte Gomes escreve sobre o clássico entre FC Porto e Benfica, marcado para sábado (20h30, SportTV), esperando que "tudo decorra como é suposto: com normalidade"

Duarte Gomes

SOPA Images

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Vamos fazer de conta que acontece algo de extraordinário?

A pergunta é retórica. Vamos, sim, vamos fazer de conta.

O clássico do próximo sábado, que muitos apelidam como o "jogo do título", tem tudo, mas mesmo tudo para ser um espetáculo grandioso.

A parte "extraordinária" da questão é precisamente essa. A de esperar que tudo decorra como é suposto: com normalidade.

Sob o ponto de vista teórico, está tudo lá. Um estádio fantástico e cheio de gente, emoções ao rubro, expetativas em alta, duas excelentes equipas, forte impacto mediático, pontos importantes em disputa e claro, uma equipa de arbitragem com qualidade.

Se acontecer o que o futebol espera, o jogo do Dragão será jogado dentro de campo, que é onde devem ser jogados todos os jogos de verdade. É lá que se marcam os golos e são os golos que definem quem vence e quem perde.

Se acontecer o que o futebol espera, quem subir ao relvado estará concentrado, motivado e confiante. Não há honra maior do que ser escolhido por mérito próprio, por competência comprovada, por experiência adquirida.

Se acontecer o que o futebol espera, serão os jogadores (e árbitros) a fazer a diferença, porque são eles que têm de rmaterializar tudo o que foi planeado e preparado ao pormenor. Meticulosamente. Cuidadosamente.

Se acontecer o que o futebol espera, uns e outros irão acertar (muito) e errar (pouco), porque só acerta e erra quem tem que tomar decisões e eles tomam-nas a cada segundo. Lá dentro, a linha que separa o sucesso do insucesso assenta em dúvidas constantes:

- "Passo para a esquerda ou passo para a direita? Foi falta ou o contacto foi normal? Remato já ou toco para o lado? Defendo a soco ou tento agarrar? Foi penálti ou simulação? Faço falta ou deixo-o passar? Finto ou chuto? Aviso-o ou mostro amarelo? Protesto ou aceito a decisão?".

Perguntas a mais para tempo a menos. Lá dentro, o é já foi. O agora já passou. Tudo passa num piscar de olhos. Não viste? Visses. Erraste? Recompõe-te. Tens dúvidas? Arrisca.

Não há espaço para ses nem mas.

Em campo, há todo um universo de fatores mágicos e memoráveis. Há pernas e cabeças, adrenalina em excesso e doses industriais de testosterona. Há paletes de orgulho próprio, de brio profissional e de ambição pessoal. Há pressão permanente, holofotes que encandeiam, sons que perturbam e movimentos que confundem. É uma loucura. Uma verdadeira loucura.

Se acontecer o que o futebol espera, haverá entrega, luta e dureza do primeiro ao último minuto. Haverão momentos de maior tranquilidade e outros de grande intensidade. Haverá lucidez nos minutos iniciais e menos discernimento nos instantes finais.

Se acontecer o que o futebol espera, haverá respeito. Respeito em campo, nos bancos e nas bancadas. Haverá saber perder e saber vencer. Haverá elevação e caráter, classe e tolerância. Haverá futebol a sério.

Se acontecer o que o futebol espera, vai acontecer tudo o que poucas vezes acontece... e não vai acontecer nada do que tantas vezes acontece.

Não seria bom se tudo fosse apenas como é suposto ser?