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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Glossário de futebol: noções básicas (versão atualizada que irá seguramente desatualizar daqui a muito pouco tempo)

O ex-árbitro Duarte Gomes escreve sobre os adeptos, os acéfalos, os árbitros, os jogadores, os treinadores e os dirigentes do futebol

Duarte Gomes

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Adeptos - Gente de bem que vai aos jogos ou que, em casa, torce pela vitória da sua equipa. São emotivos, fervorosos e apaixonados, mas raramente se excedem. Por regra, não permitem que a clubite afete o seu caráter e valores. São valiosos porque cada vez mais raros.

Acéfalos - Criaturas mascaradas de adeptos mas com traços primatas semelhantes aos do "Australopithecus". São uns asnos, com testosterona a mais e miolos a menos. Têm força física, movida a pó talco, hormonas descontroladas e cocktails explosivos. Na prática, são garotos sem rumo, com traumas de infância e blá, blá, blá. Batem, ameaçam e partem tudo à sua volta, porque precisam dessa demonstração de força para compensar a insegurança de se sentirem inferiores a tudo e todos. As melhores selfies que tiram são aquelas em que também se vê o ferro das celas.

Árbitros - Uma mão cheia de corruptos, incompetentes, inexperientes e mal-feitores. São fecundados com o objetivo estratégico de destruir o jogo e prejudicar o espetáculo. São feios, maus e sujos. São ladrões, vendidos e arrogantes. São fracos, prepontentes e vulneráveis. As suas mães são todas umas meretrizes. As suas esposas umas quengas que operam sem fins lucrativos. São altamente influenciáveis e submissos, sobretudo à lei do mais forte. Sofrem todos do Síndrome de Münchhausen (é condição obrigatória para tirar o curso). Só têm qualidade quando falecem (mesmo assim, há quem jure que não).

Jogadores - São grandes craques quando ganham e valentes flops quando perdem. Têm qualidade quando o momento é fulgoroso e nunca foram grande espingarda quando a fase é má. São bestiais e bestas, heróis e vilões. São o símbolo do clube e do verdadeiro amor à camisola e são também uns "peseteros" sem vergonha, uns ingratos e maus profissionais: depende se ficam ou se vão. Se renovam ou se partem. Se juram amor eterno ou se fazem opções legítimas. São tudo e não são nada. No fim da carreira, voltam a ser uns gajos porreiros, que até se podem tornar treinadores, seguindo as suas pisadas*.

*Ver as pisadas dos treinadores na linha abaixo.

Treinadores - Muito semelhantes aos jogadores. Se treinam o clube do coração, são os maiores (enquanto ganham); se vão para o inimigo de estimação, passam a traidores e mal-agradecidos, daqueles que mereciam umas valentes pauladas por cuspirem no prato onde comeram. São um excelente negócio do presidente ou uns grandes mercenários. Quando vencem são endeusados. Quando perdem, são atacados. Aí não percebem nada de nada (de treino e tática a sério percebem apenas os "tudólogos", que proliferam nos media e redes sociais). PS - São fantásticos numa conferência de imprensa e uma desilusão na seguinte. E depois são fantásticos de novo. E depois uma desilusão. E depois (...).

Dirigentes - Os únicos que verdadeiramente evoluíram nos últimos trinta anos, fruto dos vários cursos que são obrigados a frequentar e dos vários escalões que têm que trepar, com mérito, até chegarem ao topo. Antigamente, quando ter vontade, poder e dinheiro era suficiente, a coisa era pior porque nem todos tinham perfil para liderar um clube profissional. Também é verdade que só têm méritos quando ganham e só são corajosos quando fazem barulho, pressionam e condicionam. Se apenas tentam presidir/comandar com eficiência e discrição, competência e seriedade, são uns pamonhas, uns totós. Afinal de contas, no futebol, a honestidade é para os anjinhos. Na ótica de influentes ilustres da nossa praça - que existem em função dos benefícios que a maré lhes distribui (ou não) -, são a alternativa certa... até serem a errada. São todos uns corruptos, menos os que não são. São todos uns criminosos, menos os do clube do coração.

Clima no Futebol - É muito bom. O céu está sempre limpo, com brisa fresca e pontual. A temperatura é francamente agradável e sugere um passeio em família, sem qualquer tipo de risco associado. As nuvens negras, os relâmpagos, trovoadas e ventos fortes, ora a norte ora a sul, são coisas que, felizmente, não nos assistem. Somos uns sortudos comparados com outros países de topo como nós.

Problemas Reais do Futebol - Estão resolvidos, porque toda a gente jura a pés juntos que já fez a sua parte. E a este propósito, se calhar está na hora de pararmos com esta visão diabolizada do espetáculo, porque assim tornamo-nos os verdadeiros responsáveis de algo de muito feio que possa vir a acontecer. Há momentos para tudo e este é o momento certo para deixarmos de ver fantasmas onde eles não existem.

Se acham que isto está mau, pensem nos desgraçados que têm que ver futebol inglês e alemão, dia sim, dia não.

Os invejosos vão dizer que estou a ironizar.

Fábio Martins: “O ódio existe. Vamos para casa e não ligamos a TV para que os nossos filhos não pensem que o pai matou alguém”

Não é a primeira vez que Fábio Martins usa as redes sociais de forma honesta, direta e frontal. Um dia após o jogo com o Benfica, o extremo do Famalicão escreveu uma espécie de lamento ao que vai e está mal no futebol, em Portugal: “Acreditem que o ódio que existe no futebol português, não somos nós jogadores quem o criamos”